A esmola da felicidade

—Deus lhe accrescente, minha senhora devota! exclamou o irmão das almas ao ver a nota cair em cima de dous nickeis de tostão e alguns vintens antigos. Deus lhe dê todas as felicidades do céu e da terra, e as almas do purgatorio peçam a Maria Santissima que recommende a senhora dona a seu bemdito filho!

Quando a sorte ri, toda a natureza ri tambem, e o coração ri como tudo o mais. Tal foi a explicação que, por outras palavras menos especulativas, deu o irmão das almas aos dous mil reis. A suspeita de ser a nota falsa não chegou a tomar pé no cerebro deste: foi allucinação rapida. Comprehendeu que as damas eram felizes, e, tendo o uso de pensar alto, disse piscando o olho, emquanto ellas entravam no carro:

—Aquellas duas viram passarinho verde, com certeza.

Sem rodeios, suppoz que as duas senhoras vinham de alguma aventura amorosa, e deduziu isto de trez factos, que sou obrigado a enfileirar aqui para não deixar este homem sob a suspeita de calumniador gratuito. O primeiro foi a alegria dellas, o segundo o valor da esmola, o terceiro o carro que as esperava a um canto, como se ellas quizessem esconder do cocheiro o ponto dos namorados. Não concluas tu que elle tivesse sido cocheiro algum dia, e andasse a conduzir moças antes de servir ás almas. Tambem não creias que fosse outr'ora rico e adultero, aberto de mãos, quando vinha de dizer adeus ás suas amigas. Ni cet excès d'honneur, ni cette indignité. Era um pobre diabo sem mais officio que a devoção. Demais, não teria tido tempo; contava apenas vinte e sete annos.

Comprimentou as senhoras, quando o carro passou. Depois ficou a olhar para a nota tão fresca, tão valiosa, nota que almas nunca viram sair das mãos delle. Foi subindo a rua de S. José. Já não tinna animo de pedir; a nota fazia-se ouro, e a ideia de ser falsa voltou-lhe ao cerebro, e agora mais frequente, até que se lhe pegou por alguns instantes. Se fosse falsa... «Para a missa das almas!» gemeu á porta de uma quitanda, e deram-lhe um vintem,—um vintem sujo e triste, ao pé da nota tão novinha que parecia sair do prelo. Seguia-se um corredor de sobrado. Entrou, subiu, pediu, deram-lhedous vintens,—o dobro da outra moeda no valor e no azinhavre.

E a nota sempre limpa, uns dous mil reis que pareciam vinte. Não, não era falsa. No corredor pegou della, mirou-a bem; era verdadeira. De repente, ouviu abrir a cancella em cima, e uns passos rapidos. Elle, mais rapido, amarrotou a nota e metteu-a na algibeira das calças; ficaram só os vintens azinhavrados e tristes, o obolo da viuva. Saiu, foi á primeira officina, á primeira loja, ao primeiro corredor, pedindo longa e lastimosamente:

—Para a missa das almas!

Na egreja, ao tirar a opa, depois de entregar a bacia ao sacristão, ouviu uma voz debil como de almas remotas que lhe perguntavam se os dous mil reis... Os dous mil reis, dizia outra voz menos debil, eram naturalmente delle, que, em primeiro logar, tambem tinha alma, e, em segundo logar, não recebera nunca tão grande esmola. Quem quer dar tanto vae á egreja ou compra uma vela, não põe assim uma nota na bacia das esmolas pequenas.

Se minto, não é de intenção. Em verdade, as palavras não sairam assim articuladas e claras, nem as debeis, nem as menos debeis; todas faziam uma zoeira aos ouvidos da consciencia. Traduzi-as em lingua falada, afim de ser entendido das pessoas que me lêem; não sei como se poderia transcrever para o papel um rumor surdo e outro menos surdo, um atraz de outro e todos confusos para o fim, até que o segundo ficou só: «não tirou a nota a ninguem... a dona é que a poz na bacia por sua mão... tambem elle era alma...» À porta da sacristia que dava para a rua, ao deixar cair o reposteiro azul escuro debruado de amarello, não ouviu mais nada. Viu um mendigo que lhe estendia o chapeo roto e sebento; metteu vagarosamente a mão no bolso do collete, tambem roto, e aventou uma moedinha de cobre que deitou ao chapeo do mendigo, rapido, ás escondidas, como quer o Evangelho. Eram dous vintens; ficavam-lhe mil novecentos e noventa e oito reis. E o mendigo, como elle saisse depressa, mandou-lhe atraz estas palavras de agradecimento, parecidas com as suas:

—Deus lhe accrescente, meu senhor, e lhe dê...


[CAPITULO IV]

A missa do coupé

Natividade ia pensando na cabocla do Castello, na predicção da grandeza e na noticia da briga. Tornava a lembrar-se que, de facto, a gestação não fôra socegada; mas só lhe ficava a sorte da gloria e da grandeza. A briga lá ia, se a houve; o futuro, sim, esse é que era o principal ou tudo. Não deu pela praia de Santa Luzia. No largo da Lapa interrogou a irmã sobre o que pensava da adivinha. Perpetua respondeu que bem, que acreditava, e ambas concordaram que ella parecia falar dos proprios filhos, tal era o enthusiasmo. Perpetua ainda a reprehendeu pelos cincoenta mil reis dados em paga; bastavam vinte.

—Não faz mal. Cousas futuras!

—Que cousas serão?

—Não sei; futuras.

Mergulharam,outra vez no silencio. Ao entrar no Cattete, Natividade recordou a manhã em que alli passou, naquelle mesmo coupé, e confiou ao marido o estado de gravidez. Voltavam de uma missa de defunto, na egreja de S. Domingos...

«Na egreja de S. Domingos diz-se hoje uma missa por alma de João de Mello, fallecido em Maricá.» Tal foi o annuncio que ainda agora pódes ler em algumas folhas de 1869. Não me ficou o dia, o mez foi agosto. O annuncio está certo, foi aquillo mesmo, sem mais nada, nem o nome da pessoa ou pessoas que mandaram dizer a missa, nem hora, nem convite. Não se disse sequer que o defunto era escrivão, officio que só perdeu com a morte. Emfim, parece que até lhe tiraram um nome; elle era, se estou bem informado, João de Mello e Barros.

Não se sabendo quem mandava dizer a missa, ninguem lá foi. A egreja escolhida deu ainda menos relevo ao acto; não era vistosa, nem buscada, mas velhota, sem galas nem gente, mettida ao canto de um pequeno largo, adequada á missa recondita e anonyma.

Às oito horas parou um coupé á porta; o lacaio desceu, abriu a portinhola, desbarretou-se e perfilou-se. Saiu um senhor e deu a mão a uma senhora, a senhora saiu e tomou o braço ao senhor, atravessaram o pedacinho de largo e entraram na egreja. Na sacristia era tudo espanto. A alma que a taes sitios attrahira um carro de luxo, cavallos de raça, e duas pessoas tão finas não seria como as outras almas alli suffragadas. A missa foi ouvida sem pesames nem lagrimas. Quando acabou, o senhor foi á sacristia dar as esportulas. O sacristão, agasalhando na algibeira a nota de dez mil reis que recebeu, achou que ella provava a sublimidade do defunto; mas que defunto era esse? O mesmo pensaria a caixa das almas, se pensasse, quando a luva da senhora deixou cair dentro uma pratinha de cinco tostões. Já então havia na egreja meia duzia de creanças maltrapilhas, e, fóra, alguma gente ás portas e no largo, esperando. O senhor, chegando á porta, relanceou os olhos, ainda que vagamente, e viu que era objecto de curiosidade. A senhora trazia os seus no chão. E os dous entraram no carro, com o mesmo gesto, o lacaio bateu a portinhola e partiram.

A gente local não falou de outra cousa naquelle e nos dias seguintes. Sacristão e visinhos relembravam o coupé, com orgulho. Era a missa do coupé. As outras missas vieram vindo, todas a pé, algumas de sapato roto, não raras descalças, capinhas velhas, morins estragados, missas de chita, ao domingo, missas de tamancos. Tudo voltou ao costume, mas a missa do coupé viveu na memoria por muitos mezes. Afinal não se falou mais nella; esqueceu como um baile.

Pois o coupé era este mesmo. A missa foi mandada dizer por aquelle senhor, cujo nome é Santos, e o defunto era seu parente, ainda que pobre. Tambem elle foi pobre; tambem elle nasceu em Maricá. Vindo para o Rio de Janeiro, por occasião da febre das acções (1855), dizem que revellou grandes qualidades para ganhar dinheiro depressa. Ganhou logo muito, e fel-o perder a outros. Casou em 1859 com esta Natividade, que ia então nos vinte annos e não tinha dinheiro, mas era bella e amava apaixonadamente. A Fortuna os abençoou com a riqueza. Annos depois tinham elles uma casa nobre, carruagem, cavallos e relações novas e distinctas. Dos dous parentes pobres de Natividade morreu o pae em 1866; restava-lhe uma irmã. Santos tinha alguns em Maricá, a quem nunca mandou dinheiro, fosse mesquinhez, fosse habilidade. Mesquinhez não creio; elle gastava largo e dava muitas esmolas. Habilidade seria; tirava-lhes o gosto de vir cá pedir-lhe mais.

Não lhe valeu isto com João de Mello, que um dia appareceu aqui, a pedir-lhe emprego. Queria ser, como elle, director de banco. Santos arranjou-lhe depressa um logar de escrivão do civel em Maricá, e despachou-o com os melhores conselhos deste mundo.

João de Mello retirou-se com a escrevania, e dizem que uma grande paixão tambem. Natividade era a mais bella mulher daquelle tempo. No fim, com os seus cabellos quasi sexagenarios, fazia crêr na tradicção. João de Mello ficou allucinado quando a viu; ella conheceu isso, e portou-se bem. Não lhe fechou o rosto, é verdade, e era mais bella assim que zangada; tambem não lhe fechou os olhos, que eram negros e callidos. Só lhe fechou o coração, um coração que devia amar como nenhum outro, foi a conclusão de João de Mello uma noite em que a viu ir decotada a um baile. Teve impeto de pegar della, descer, voar, perderem-se...

Em vez disso, uma escrevania e Maricá; era um abysmo. Caiu nelle; trez dias depois saiu do Rio de Janeiro para não voltar. A principio escreveu muitas cartas ao parente, com a esperança de que ella as lesse tambem, e comprehendesse que algumas palavras eram para si. Mas Santos não lhe deu resposta, e o tempo e a ausencia acabaram por fazer de João de Mello um excellente escrivão. Morreu de uma pneumonia.

Que o motivo da pratinha de Natividade deitada á caixa das almas fosse pagar a adoração do defunto não digo que sim, nem que não; faltam-me pormenores. Mas póde ser que sim, porque esta senhora era não menos grata que honesta. Quanto ás larguezas do marido, não esqueças que o parente era defunto, e o defunto um parente menos.


[CAPITULO V]