A licção do discipulo
—Fique, fique, conselheiro, disse Santos apertando a mão ao diplomata. Aprenda as verdades eternas.
—Verdades eternas pedem horas eternas, ponderou este, consultando o relogio.
Um tal Ayres não era facil de convencer. Placido falou-lhe de leis scientificas para excluir qualquer macula de seita, e Santos foi com elle. Toda a terminologia spirita saiu fóra, e mais os casos, phenomenos, mysterios, testemunhos, attestados verbaes e escriptos... Santos acudiu com um exemplo: dous espiritos podiam tornar juntos a este mundo; e, se brigassem antes de nascer?
—Antes de nascer, creanças não brigam, replicou Ayres, temperando o sentido affirmativo com a intonação dubitativa.
—Então nega que dous espiritos...? Essa cá me fica, conselheiro! Pois que impede que dous espiritos?...
Ayres viu o abysmo da controversia, e forrou- se á vertigem por uma concessão, dizendo:
—Esaú e Jacob brigaram no seio materno, isso é verdade. Conhece-se a causa do conflicto. Quanto a outros, dado que briguem tambem, tudo está em saber a causa do conflicto, e não a sabendo, porque a Providencia a esconde da noticia humana... Se fosse uma causa espiritual, por exemplo...
—Por exemplo?
—Por exemplo, se as duas creanças quizerem ajoelhar-se ao mesmo tempo para adorar o Creador. Ahi está um caso de conflicto, mas de conflicto espiritual, cujos processos escapam á sagacidade humana. Tambem poderia ser um motivo temporal. Supponhamos a necessidade de se acotovellarem para ficar melhor accommodados; é uma hypothese que a sciencia acceitaria; isto é, não sei... Ha ainda o caso de quererem ambos a primogenitura.
—Para que? perguntou Placido.
—Com quanto este privilegio esteja hoje limitado ás familias regias, á camara dos Iords e não sei se mais, tem todavia um valor symbolico. O simples gosto de nascer primeiro, sem outra vantagem social ou politica, póde dar-se por instincto, principalmente se as creanças se destinarem a galgar os altos deste mundo.
Santos afiou o ouvido neste ponto, lembrando-se das «cousas futuras». Ayres disse ainda algumas palavras bonitas, e accrescentou outras feias, admittindo que a briga podia ser prenuncio de graves conflictos na terra; mas logo temperou esse conceito com este outro:
—Não importa; não esqueçamos o que dizia um antigo, que «a guerra é a mãe de todas as cousas». Nia minha opinião, Empedocles, referindo-se á guerra, não o fez só no sentido technico. O amor, que é a primeira das artes da paz, póde-se dizer que é um duello, não de morte, mas de vida,—concluiu Ayres sorrindo leve, como falava baixo, e despediu-se.
[CAPITULO XV]
Teste David cum Sibylla
—E então? disse Santos. Não é que o conselheiro, em vez de aprender, ensina-nos? Eu acho que elle deu algumas razões boas.
—Quando menos, plausiveis, completou mestre Placido.
—Foi pena que se despedisse, continuou Santos, mas felizmente o meu caso é com o senhor. Venho consultal-o, e as suas luzes são as verdadeiras do mundo.
Placido agradeceu sorrindo. Não era novo o elogio, ao contrario; mas elle estava tão acostumado a ouvil-o que o sorriso era já agora um sestro. Não podia deixar de pagar com essa moeda aos seus discipulos.
—Trata-se...
—Trata-se disto. Aquella hypothese que eu formulei é um facto real; succedeu com os meus filhos...
—Como?
—É o que me parece, e vim justamente para que me explique. Nunca lhe falei por temer que achasse absurdo, mas tenho pensado, e suspeito que tal briga se deu, e que é um caso extraordinario.
Santos expoz então a consulta, gravemente, com um gesto particular que tinha de arregalar os olhos para arregalar a novidade. Não esqueceu nem escondeu nada; contou a propria ida da mulher ao Castello, com desdem, é verdade, mas ponto por ponto. Placido ouvia attento, perguntando, voltando atraz, e acabou por meditar alguns minutos. Emfim, declarou que o phenomeno, caso se houvesse dado, era raro, se não unico, mas possivel. Já o facto de se chamarem Pedro e Paulo indicava alguma rivalidade, porque esses dous apostolos brigaram tambem.
—Perdão, mas o baptismo...
—Foi posterior, sei, mas os nomes podem ter sido predestinados, tanto mais que a escolha dos nomes veiu, como o senhor me disse, por inspiração á tia dos meninos.
—Justamente.
—D. Perpetua é muito devota.
—Muito.
—Creio que os proprios espiritos de S. Pedro e S. Paulo houvessem escolhido aquella senhora para inspirar os nomes que estão no Credo; advirta que ella reza muitas vezes o Credo, mas foi naquella occasião que se lembrou delles.
—Exacto, exacto!
O doutor foi á estante e tirou uma Biblia, encadernada em couro, com grandes fechos de metal. Abriu a Epistola de S. Paulo aos Galatas, e leu a passagem do capitulo II, versículo 11, em que o apostolo conta que, indo a Antiochia, onde estava S. Pedro, «resistiu-lhe na cara».
Santos leu e teve uma ideia. As ideias querem-se festejadas, quando são bellas, e examinadas, quando novas; a delle era a um tempo nova e bella. Deslumbrado, ergueu a mão e deu uma palmada na folha, bradando:
—Sem contar que este numero onze do versiculo, composto de dous algarismos eguaes, 1 e 1, é um numero gemeo, não lhe parece?
—Justamente. E mais: o capitulo é o segundo, isto é, dous, que é o proprio numero dos irmãos gemeos.
Mysterio engendra mysterio. Havia mais de um elo intimo, substancial, escondido, que ligava tudo. Briga, Pedro e Paulo, irmãos gemeos, numeros gemeos, tudo eram aguas de mysterio que elles agora rasgavam, nadando e bracejando com força. Santos foi mais ao fundo; não seriam os dous meninos os proprios espiritos de S. Pedro e de S. Paulo, que renasciam agora, e elle, pae dos dous apostolos?... A fé transfigura; Santos tinha um ar quasi divino, trepou em si mesmo, e os olhos ordinariamente sem expressão, pareciam entornar a chamma da vida. Pae de apostolos! e que apostolos! Placido esteve quasi, quasi a crêr tambem, achava-se dentro de um mar torvo, soturno, onde as vozes do infinito se perdiam, mas logo lhe acudia que os espiritos de S. Pedro e S. Paulo tinham chegado á perfeição; não tornariam cá. Não importa; seriam outros, grandes e nobres. Os seus destinos podiam ser brilhantes; tinha razão a cabocla, sem saber o que dizia.
—Deixe ás senhoras as suas crenças da meninice, concluiu; se ellas tem fé na tal mulher do Castello, e acham que é um vehiculo de verdade, não as desminta por ora. Diga-lhes que eu estou de accordo com o seu oraculo. Teste David cum Sibylla.
—Digo, digo! escreva a phrase.
Placido foi á secretaria, escreveu o verso, e deu-lhe o papel, mas já então Santos advertira que mostral-o á mulher era confessar a consulta spirita, e naturalmente o perjurio. Referiu ao amigo os escrupulos de Natividade e pediu que calassem tudo.
—Estando com ella, não lhe diga o que se passou entre nós.
Saiu logo depois, arrependido da indiscrição, mas deslumbrado da revelação. Ia cheio de numeros da Escriptura, de Pedro e Paulo, de Esaú e Jacob. O ar da rua não espanou a poeira do mysterio; ao contrario, o céu azul, a praia socegada, os montes verdes como que o cercavam e cobriam de um veu mais transparente e infinito. A rixa dos meninos, facto raro ou unico, era uma distincção divina. Contrariamente á esposa, que cuidava sómente da grandeza futura dos filhos, Santos pensava no conflicto passado.
Entrou em casa, correu aos pequenos, e acarinhou-os com tão estranha expressão, que a mãe desconfiou alguma cousa, e quiz saber o que era.
—Não é nada, respondeu elle rindo.
—É alguma cousa, anda, acaba.
—Que ha de ser?
—Seja o que fôr, Agostinho, acaba.
Santos pediu-lhe que se não zangasse, e contou tudo, a sorte, a rixa, a Escriptura, os apostolos, o symbolo, tudo tão espalhadamente, que ella mal pôde entender, mas entendeu ao final, e replicou com os dentes cerrados:
—Ah! você! você!
—Perdoa, amiguinha; estava tão ancioso de saber a verdade... E nota que eu creio na cabocla, e o doutor tambem; elle até me escreveu isto em latim, concluiu tirando e lendo o papelinho: Teste David cum Sibylla.