De como vieram crescendo

Eil -os que vem crescendo. A semelhança, sem os confundir já, continuava a ser grande. Os mesmos olhos claros e attentos, a mesma bôca cheia de graça, as mãos finas, e uma côr viva nas faces que as fazia crêr pintadas de sangue. Eram sadios; exceptuada a crise dos dentes, não tiveram molestia alguma, porque eu não conto uma ou outra indigestão de doces, que os paes lhes davam, ou elles tiravam ás escondidas. Eram ambos gulosos, Pedro mais que Paulo, e Paulo mais que ninguem.

Aos sete annos eram duas obras-primas, ou antes uma só em dous volumes, como quizeres. Em verdade, não havia por toda aquella praia, nem por Flamengos ou Glorias, Cajus e outras redondezas, não havia uma, quanto mais duas creanças tão graciosas. Nota que eram tambem robustos. Pedro com um murro derrubava Paulo; em compensação, Paulo com um ponta-pé deitava Pedro ao chão. Corriam muito na chacara por aposta. Alguma vez quizeram trepar ás arvores, mas a mãe não consentia; não era bonito. Contentavam-se de espiar cá de baixo a fructa.

Paulo era mais aggressivo, Pedro mais dissimulado, e, como ambos acabavam por comer a fructa das arvores, era um moleque que a ia buscar acima, fosse a cascudo de um ou com promessa de outro. A promessa não se cumpria nunca; o cascudo, por ser antecipado, cumpria-se sempre, e ás vezes com repetição depois do serviço. Não digo com isto que um e outro dos gemeos não soubessem aggredir e dissimular; a differença é que cada um sabia melhor o seu gosto, cousa tão obvia que custa escrever.

Obedeciam aos paes sem grande esforço, posto fossem teimosos. Nem mentiam mais que outros meninos da cidade. Ao cabo, a mentira é alguma vez meia virtude. Assim é que, quando elles disseram não ter visto furtar um relogio da mãe, presente do pae, quando eram noivos, mentiram conscientemente, porque a criada que o tirou foi apanhada por elles em plena acção de furto. Mas era tão amiga delles! e com taes lagrimas lhes pediu que não dissessem a ninguem, que os gemeos negaram absolutamente ter visto nada. Contavam sete annos. Aos nove, quando já a moça ia longe, é que descobriram, não sei a que proposito, o caso escondido. A mãe quiz saber porque é que elles calaram outrora; não souberam explicar-se, mas é claro que o silencio de 1878 foi obra da affeição e da piedade, e dahi a meia-virtude, porque é alguma cousa pagar amor com amor. Quanto á revelação de 1880 só se póde explicar pela distancia do tempo. Já não estava presente a boa Miquelina; talvez ja estivesse morta. Demais, veiu tão naturalmente a referencia...

—Mas, porque é que vocês até agora não me disseram? teimava a mãe.

Não sabendo mais que razão déssem, um delles, creio que Pedro, resolveu accusar o irmão:

—Foi elle, mamãe!

—Eu? redarguiu Paulo. Foi elle, mamãe, elle é que não disse nada.

—Foi você!

—Foi você! não minta!

—Mentiroso é elle!

Cresceram um para o outro. Natividade acudiu prestemente, não tanto que impedisse a troca dos primeiros murros. Segurou-lhes os braços a tempo de evitar outros, e, em vez de os castigar ou ameaçar, beijou-os com tamanha ternura que elles não acharam melhor occasião de lhe pedir doce. Tiveram doce; tiveram tambem um passeio, á tarde, no carrinho do pae.

Na volta estavam amigos ou reconciliados. Contaram á mãe o passeio, a gente da rua, as outras creanças que olhavam para elles com inveja, uma que mettia o dedo na bôca, outro no nariz, e as moças que estavam ás janellas, algumas que os acharam bonitos. Neste ultimo ponto divergiam, porque cada um delles tomava para si só as admirações; mas a mãe interveiu:

—Foi para ambos. Vocês são tão parecidos, que não podia ser senão para ambos. E sabem porque é que as moças elogiaram vocês? Foi por ver que iam amigos, chegadinhos um ao outro. Meninos bonitos não brigam, ainda menos sendo irmãos. Quero vel-os quietos e amigos, brincando juntos sem rusga nem nada. Estão entendendo?

Pedro respondeu que sim; Paulo esperou que a mãe repetisse a pergunta, e deu egual resposta. Emfim, porque esta mandasse, abraçaram-se, mas foi um abraçar sem gosto, sem força, quasi sem braços; encostaram-se um ao outro, estenderam as mãos ás costas do irmão, e deixaram-n'as cair.

De noite, na alcova, cada um delles concluiu para si que devia os obsequios daquella tarde, o doce, os beijos e o carro, á briga que tiveram, e que outra briga podia render tanto ou mais. Sem palavras, como um romance ao piano, resolveram ir á cara um do outro, na primeira occasião. Isto que devia ser um laço armado á ternura da mãe, trouxe ao coração de ambos uma sensação particular, que não era só consolo e desforra do socco recebido naquelle dia, mas tambem satisfação de um desejo intimo, profundo, necessario. Sem odio, disseram ainda algumas palavras de cama a cama, riram de uma ou outra lembrança da rua, ate que o somno entrou com os seus pés de lã e bico calado, e tomou conta da alcova inteira.


[CAPITULO XIX]