Desaccordo no accordo

Não esqueça dizer que, em 1888, uma questão grave e gravissima os fez concordar tambem, ainda que por diversa razão. A data explica o facto: foi a emancipação dos escravos. Estavam então longe um do outro, mas a opinião uniu-os.

A differença unica entre elles dizia respeito á significação da reforma, que para Pedro era um acto de justiça, e para Paulo era o inicio da revolução. Elle mesmo o disse, concluindo um discurso em S. Paulo, no dia 20 de maio: «A abolição é a aurora da liberdade; esperemos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco.»

Natividade ficou attonita quando leu isto; pegou da penna e escreveu uma carta longa e maternal. Paulo respondeu com trinta mil expressões de ternura, declarando no fim que tudo lhe poderia sacrificar, inclusive a vida e até a honra; as opiniões é que não. «Não, mamãe; as opiniões é que não.»

—As opiniões é que não, repetiu Natividade acabando de ler a carta.

Natividade não acabava de entender os sentimentos do filho, ella que sacrificára as opiniões aos principios, como no caso de Ayres, e continuou a viver sem macula. Como então não sacrificar...? Não achava explicação. Relia a phrase da carta e a do discurso; tinha medo de o ver perder a carreira politica, se era a politica que o faria grande homem. «Emancipado o preto, resta emancipar o branco», era uma ameaça ao imperador e ao imperio.

Não atinou... Nem sempre as mães atinam. Não atinou que a phrase do discurso não era propriamente do filho; não era de ninguem. alguem a proferiu um dia, em discurso ou conversa, em gazeta ou em viagem de terra ou de mar. Outrem a repetiu, até que muita gente a fez sua. Era nova, era energica, era expressiva, ficou sendo patrimonio commum.

Ha phrases assim felizes. Nascem modestamente, como a gente pobre; quando menos pensam, estão governando o mundo, á semelhança das ideias. As proprias ideias nem sempre conservam o nome do pae; muitas apparecem orphãs, nascidas de nada e de ninguem. Cada um pega dellas, verte-as como póde, e vae leval-as á feira, onde todos as têm por suas.


[CAPITULO XXXVIII]