O aposentado

Já então este ex-ministro estava aposentado. Regressou ao Rio de Janeiro, depois de um ultimo olhar ás cousas vistas, para aqui viver o resto dos seus dias. Podia fazel-o em qualquer cidade, era homem de todos os climas, mas tinha particular amor á sua terra, e por ventura estava cançado de outras. Não attribuia a esta tantas calamidades. A febre amarella, por exemplo, á força de a desmentir lá fóra, perdeu-lhe a fé, e cá dentro, quando via publicados alguns casos, estava já corrompido por aquelle credo que attribue todas as molestias a uma variedade de nomes. Talvez porque era homem sadio.

Não mudára inteiramente; era o mesmo ou quasi. Encalveceu mais, é certo, terá menos carnes, algumas rugas; ao cabo, uma velhice rija de sessenta annos. Os bigodes continuam a trazer as pontas finas e agudas. O passo é firme, o gesto grave, com aquelle toque de galanteria, que nunca perdeu. Na botoeira, a mesma flor eterna.

Tambem a cidade não lhe pareceu que houvesse mudado muito. Achou algum movimento mais, alguma opera menos, cabeças brancas, pessoas defuntas; mas a velha cidade era a mesma. A propria casa delle no Cattete estava bem conservada. Ayres despediu o inquilino, tão polidamente como se recebesse o ministro dos negocios estrangeiros, e metteu-se nella a si e a um criado, por mais que a irmã teimasse em leval-o para Andarahy.

—Não, mana Rita, deixe-me ficar no meu canto.

—Mas eu sou a sua ultima parenta, disse ella.

—De sangue e de coração, isso é, concordou elle; póde accrescentar que a melhor de todas e a mais pia. Onde estão aquelles cabellos...? Não precisa baixar os olhos. Você os cortou para metter no caixão de seu finado marido. Os que ahi estão embranqueceram; mas os que lá ficaram eram pretos, e mais de uma viuva os teria guardado todos para as segundas nupcias.

Rita gostou de ouvir aquella referencia. Outr'ora, não; pouco depois de viuva, tinha vexame de um acto tão sincero; achava-se quasi ridicula. Que valia cortar os cabellos por haver perdido o melhor dos maridos? Mas, andando o tempo, entrou a ver que fizera bem, a approvar que lh'o dissessem, e, na intimidade, a lembral-o. Agora serviu a allusão para replicar:

—Pois se eu sou isso, porque é que você prefere viver com extranhos?

—Que extranhos? Não vou viver com ninguem. Viverei com o Cattete, o largo do Machado, a praia de Botafogo e a do Flamengo, não falo das pessoas que lá moram, mas das ruas, das casas, dos chafarizes e das lojas. Ha lá cousas exquisitas, mas sei eu se venho achar em Andarahy uma casa de pernas para o ar, por exemplo? Contentemo-nos do que sabemos. Lá os meus pés andam por si. Ha alli cousas petrificadas e pessoas immortaes, como aquelle Custodio da confeitaria, lembra-se?

—Lembra-me, a Confeitaria do Imperio.

—Ha quarenta annos que a estabeleceu; era ainda no tempo em que os carros pagavam imposto de passagem. Pois o diabo está velho, mas não acaba; ainda me ha de enterrar. Parece rapaz; apparece-me lá todas as semanas.

—Você tambem parece rapaz.

—Não brinque, mana; eu estou acabado. Sou um velho gamenho, pôde ser; mas não é por agradar a moças, é porque me ficou este geito... E a proposito, porque não vae você morar commigo?

—Ah! é para saber que tambem eu gosto de estar commigo. Irei lá de vez em quando, mas já não saio d'aqui, se não para o cemiterio.

Ajustaram visitar um ao outro; Ayres viria jantar ás quinta-feiras. D. Rita ainda lhe falou dos casos de molestia d'elle, ao que Ayres replicou que não adoecia nunca, mas se adoecesse viria para Andarahy; o coração della era o melhor dos hospitaes. Talvez que em todas essas recusas houvesse tambem a necessidade de fugir á contradicção, porque a irmã sabia inventar occasiões de dissidencia. Naquelle mesmo dia (era ao almoço) elle achou o café delicioso, mas a irmã disse que era ruim, obrigando-o a um grande esforço para tornar atraz e achal-o detestavel.

A principio, Ayres cumpriu a solidão, separou-se da sociedade, metteu-se em casa, não apparecia a ninguem ou a raros e de longe em longe. Em verdade estava cançado de homens e de mulheres, de festas e de vigilias. Fez um programma. Como era dado a letras classicas, achou no padre Bernardes esta traducção daquelle psalmo: «Alonguei-me fugindo e morei na soedade.» Foi a sua divisa. Santos, se lh'a dessem, fal-a-hia esculpir, á entrada do salão, para regalo dos seus numerosos amigos. Ayres deixou-a estar em si. Alguma vez gostava de a recitar calado, parte pelo sentido, parte pela linguagem velha: «Alonguei-me fugindo e morei na soedade.»

Assim foi a principio, Às quinta-feiras ia jantar com a irmã. Às noites passeava pelas praias, ou pelas ruas do bairro. O mais do tempo era gasto em ler e reler, compôr o Memorial ou rever o composto, para relembrar as cousas passadas. Estas eram muitas e de feição diversa, desde a alegria até a melancolia, enterramentos e recepções diplomaticas, uma braçada de folhas seccas, que lhe pareciam verdes agora. Alguma vez as pessoas eram designadas por um X ou ***, e elle não acertava logo quem fossem, mas era um recreio procural-as, achal-as e completal-as.

Mandou fazer um armario envidraçado, onde metteu as reliquias da vida, retratos velhos, mimos de governos e de particulares, um leque, uma luva, uma fita e outras memorias femininas, medalhas e medalhões, camafeus, pedaços de ruinas gregas e romanas, uma infinidade de cousas que não nomeio, para não encher papel. As cartas não estavam lá, viviam dentro de uma mala, catalogadas por letras, por cidades, por linguas, por sexos. Quinze ou vinte davam para outros tantos capitulos e seriam lidas com interesse e curiosidade. Um bilhete, por exemplo, um bilhete encardido e sem data, moço como os bilhetes velhos, assignado por iniciaes, um M e um P, que elle traduzia com saudades. Não vale a pena dizer o nome.


[CAPITULO XXXIII]