O caso embrulhado

Tambem os gemeos achavam o caso embrulhado. Quando iam a S. Clemente, tinham noticias da moça, sem que lhes déssem certeza do regresso. O tempo andava; não tardaria que consultassem a sorte, como dous antigos.

A rigor, não contavam as semanas de interrupção, uma vez que a escolha se não dava, e elles podiam trazer da consulta o contrario da inclinação definitiva da moça. Reflexão justa, posto que interessada. Cada um delles não queria mais que prolongar a batalha, esperando vencel-a. Entretanto, não confiavam um do outro este pensamento gemeo, como elles. Ambos se iam sentindo exclusivos, a affeição tinha agora o seu pudor e necessidade de calar. Já não falavam de Flora.

Nem só de Flora. Crescendo a opposição, recorriam ao silencio. Evitavam-se; se podiam, não comiam juntos; se comiam juntos, diziam pouco ou nada. Às vezes, falavam para tirar aos criados qualquer suspeita, mas não advertiam que falavam mal e forçadamente, e que os criados iam commentar as palavras e a expressão delles na copa. A satisfação com que estes communicavam os seus achados e conclusões é das poucas que adoçam o serviço domestico, geralmente rude. Não chegavam, porém, ao ponto de concluir tudo o que os ia tornando cada vez mais avessos, a ponto de odio que crescia com a ausencia da mãe. Era mais que Flora, como sabeis; eram as proprias pessoas inconciliaveis. Um dia houve na copa e na cozinha grande novidade, Pedro, a pretexto de sentir mais calor que Paulo, mudou de quarto e foi dormir mal em outro não menos quente que o primeiro.


[CAPITULO CII]