O discurso
Natividade é que não teve distracções de especie alguma. Toda ella estava nos filhos, e agora especialmente na carta e no discurso. Começou por não dar resposta ás effusões politicas de Paulo; foi um dos conselhos do conselheiro. Quando o filho tornou pelas ferias tinha esquecido a carta que escrevêra. O discurso é que elle não esqueceu, mas quem é que esquece os discursos que faz? Se são bons, a memoria os grava em bronze; se ruins, deixam tal ou qual amargor que dura muito. O melhor dos remedios, no segundo caso, é suppol-os excellentes, e, se a razão não acceita esta imaginação, consultar pessoas que a acceitem, e crêr nellas. A opinião é um velho oleo incorruptivel.
Paulo tinha talento. O discurso daquelle dia podia peccar aqui ou alli por alguma emphasis, e uma ou outra ideia vulgar e exhausta. Tinha talento Paulo. Em summa, o discurso era bom. Santos achou-o excellente, leu-o aos amigos e resolveu transcrevel-o nos jornaes. Natividade não se oppoz, mas entendia que algumas palavras deviam ser cortadas.
—Cortadas, porque? perguntou Santos, e ficou esperando a resposta.
—Pois você não vê, Agostinho; estas palavras tem sentido republicano, explicou ella relendo a phrase que a affligira.
Santos ouviu-as ler, leu-as para si, e não deixou de lhe achar razão. Entretanto, não havia de as supprimir.
—Pois não se transcreve o discurso.
—Ah! isso não! O discurso é magnifico, e não ha de morrer em S. Paulo; é preciso que a Côrte o leia, e as provincias tambem, e até não se me daria fazel-o traduzir em francez. Em francez, póde ser que fique ainda melhor.
—Mas, Agostinho, isto póde fazer mal á carreira do rapaz; o imperador póde ser que não goste...
Pedro, que assistia desde alguns instantes ao debate, interveiu docemente para dizer que os receios da mãe não tinham base; era bom por a phrase toda, e, a rigor, não difteria muito do que os liberaes diziam em 1848.
—Um monarchista liberal póde muito bem assignar esse trecho, concluiu elle depois de reler as palavras do irmão.
—Justamente! assentiu o pae.
Natividade, que em tudo via a inimizade dos gemeos, suspeitou que o intuito de Pedro fosse justamente comprometter Paulo. Olhou para elle a ver se lhe descobria essa intenção torcida, mas a cara do filho tinha então o aspecto do enthusiasmo. Pedro lia trechos do discurso, accentuando as bellezas, repetindo as phrases mais novas, cantando as mais redondas, revolvendo-as na bôca, tudo com tão boa sombra que a mãe perdeu a suspeita, e a reimpressão do discurso foi resolvida. Tambem se tirou uma edição em folheto, e o pae mandou encadernar ricamente sete exemplares, que levou aos ministros, e um ainda mais rico para a Regente.
—Você diga-lhe, aconselhou Natividade, que o nosso Paulo é liberal ardente...
—Liberal de 1848, completou Santos lembrando as palavras de Pedro.
Santos cumpriu tudo á risca. A entrega se fez naturalmente, e, no palacio Isabel, a definição do «liberal de 1848» saiu mais viva que as outras palavras, ou para diminuir o cheiro revolucionario da phrase condemnada pela mulher, ou porque trazia valor historico. Quando elle voltou a casa, a primeira cousa que lhe disse foi que a Regente perguntara por ella, mas apesar de lisongeada com a lembrança, Natividade quiz saber da impressão que lhe fizera o discurso, se já o lêra.
—Parece que foi boa. Disse-me que já havia lido o discurso. Nem por isso deixei de lhe dizer que os sentimentos de Paulo eram bons; que, se lhes notavamos certo ardor, comprehendiamos sempre que elles eram os de um liberal de 1848...
—Papae disse isso? perguntou Pedro.
—Porque não, se é verdade? Paulo é o que se póde chamar um liberal de 1848, repetiu Santos querendo convencer o filho.