O regresso

Quando o marechal Deodoro dissolveu o congresso nacional, em 3 de novembro, Baptista recordou o tempo dos manifestos liberaes, e quiz fazer um. Chegou a principial-o, em segredo, empregando as belIas phrases que trazia de cór, citações latinas, duas ou trez apostrophes. D. Claudia reteve-o á beira do abysmo, com razões claras e robustas. Antes de tudo, o golpe de Estado podia ser um beneficio. Serve-se muita vez a liberdade parecendo suffocal-a. Depois, era o mesmo homem que a havia proclamado que convidava agora a nação a dizer o que queria, e a emendar a constituição, salvo nas partes essenciaes. A palavra do generalissimo, como a sua espada, bastava a defender e consummar a obra principiada. D. Claudia não tinha estylo proprio, mas sabia communicar o calor do discurso ao coração de um homem de boa vontade. Baptista, depois de a escutar e pensar, bateu-lhe no hombro imperativamente.

—Tens razão, filha.

Não rasgou o papel escripto; queria guardal-o como simples lembrança, e a prova é que ia escrever uma carta ao presidente. D. Claudia tambem lhe tirou esta ideia da cabeça. Não havia necessidade de lhe mandar o seu suffragio; bastava conservar-se na commissão.

—O governo não está satisfeito com você?

—Está.

—Vendo que você se conserva, conclue que approva tudo, e basta.

—Sim, Claudia, concordou elle após alguns instantes. Ao contrario, qualquer cousa que escrevesse contra a assembléa sediciosa que o presidente acaba de dissolver, pareceria falta de piedade. Paz aos mortos! Tens razão, filha.

Conservou-se calado, operando, fiel ás instrucções recebidas. Vinte dias depois, o marechal Deodoro passava o governo ás mãos do marechal Floriano, o congresso era restabelecido e todos os decretos do dia 3 annullados.

Ao saber de taes factos, Baptista pensou morrer. Ficou sem fala por alguns instantes, e D. Claudia não achou a menor parcella de animo que lhe désse. Nenhum contára com a marcha rapida dos acontecimentos, uns sobre outros, com tal atropello que parecia um bando de gente que fugia. Vinte dias apenas; vinte dias de força e socego, esperanças e grande futuro. Um dia mais e tudo ruiu como casa velha.

Agora é que Baptista comprehendeu o erro de haver dado ouvidos á esposa. Se tem acabado e publicado o manifesto no dia 4 ou 5, estaria com um documento de resistencia na mão para reivindicar um posto de honra qualquer,—ou só estima que fosse. Releu o manifesto; chegou a pensar em imprimil-o, embora incompleto. Tinha conceitos bons, como este; «O dia da oppressão é a vespera da liberdade.» Citava a bella Roland caminhando para a guilhotina; «Ó liberdade, quantos crimes em teu nome!» D. Claudia fez-lhe ver que era tarde, e elle concordou.

—Sim, é tarde. Naquelle dia é que não era tarde, vinha á hora propria, para o effeito certo.

Baptista amarrotou o papel distrahidaraente; depois alisou-o e guardou-o. Em seguida, fez um exame de consciencia, profundo e sincero. Não devia ter cedido; a resistencia era o melhor; se tem resistido ás palavras da mulher, a situação seria outra. Apalpou-se, achou que sim, que podia muito bem haver-lhe trancado os ouvidos e passado adiante. Insistiu muito neste ponto. Se pudesse, faria voltar atraz o tempo, e mostraria como é que a alma escolhe de si mesma o melhor dos partidos. Não era preciso saber nada do que anteriormente succedeu; a consciencia dizia-lhe que, era situação identica á do dia 3, faria outra cousa... Oh! com certeza! faria cousa muito diversa, e mudaria o seu destino.

Um officio ou telegrarama veiu arrancar Baptista á commissão politica e reservada, A volta para o Rio de Janeiro foi breve e triste, sem os epithetos que o haviam regalado por alguns mezes, nem acompanhamento de amigos. Só uma pessoa vinha alegre, a filha, que rezara todas as noites pela terminação daquelle exilio.

—Parece que estás contente com o desastre de teu pae, disse-lhe a mãe já a bordo.

—Não, mamãe; alegro-me de ver que acabou esta canceira. Papae póde muito bem fazer politica no Rio de Janeiro, onde é muito apreciado, A senhora verá. Eu, se fosse papae, apenas desembarcasse, ia logo ao marechal explicar tudo, mostrar as instrucções e dizer o que tinha feito; dizia mais que a dispensa veiu muito a proposito, afim de não parecer que ficara amofinado. Depois pedia-lhe para trabalhar lá mesmo...

D. Claudia, a despeito do amargor dos tempos, gostou de ver que a filha pensava e dava conselhos em politica. Não advertiu, como fez o leitor, que a alma do discurso da moça era não sair da capital, fazer aqui mesmo o seu congresso, que em breve seria uma só assembléa legislativa, como no Rio Grande do Sul; mas a qual das cantaras, Pedro ou Paulo, caberia esse unico poder politico? Eis o que ella mesma não sabia.

Ambos se lhe apresentaram a bordo, logo que o paquete entrou no porto do Rio de Janeiro. Não fôram em duas lanchas, fôram na mesmo, e saltaram com tal presteza para a escada, que escaparam de cair ao mar. Talvez fosse o melhor desfecho do livro. Ainda assim não acaba mal o capitulo, porque a razão da presteza com que elles saltaram para a escada foi a ambição de ser o primeiro que comprimentasse a moça; aposta de amor, que ainda uma vez os egualou na alma della. Emfim chegaram, e não consta qual effectivamente a cumprimentou primeiro; póde ser que ambos.


[CAPITULO LXXIII]