Posse das cadeiras
Quinta-feira, quando os gemeos tomaram assento na camara, Natividade e Perpetua fôram ver a ceremonia. Pedro ou Paulo arranjou-lhes uma tribuna. A mãe desejou que Ayres fosse tambem. Quando este alli chegou, já as achou sentadas, Natividade a fitar com a luneta o presidente e os deputados. Um destes falava sobre a acta,e ninguem lhe prestava attenção. Ayres sentou-se um pouco mais dentro, e após alguns minutos, disse a Natividade:
—A senhora escreveu-me que eram candidatos de dous partidos contrarios.
Natividade confirmou a noticia; fôram eleitos em opposição um ao outro. Ambos apoiavam a Republica, mas Paulo queria mais do que ella era, e Pedro achava que era bastante e sobeja. Mostravam-se sinceros, ardentes, ambiciosos; eram bem acceitos dos amigos, estudiosos, instruidos...
—Amam-se finalmente?
—Amam-se em mim, respondeu ella depois de formular essa phrase na cabeça.
—Pois basta esse terreno amigo.
—Amigo, mas caduco; amanhã posso faltar-lhes.
—Não falta; a senhora tem muitos e muitos annos de vida. Faça uma viagem á Europa com elles, e verá que regressa ainda mais robusta. Eu sinto-me duplicado, por mais que me custe á modestia, mas a modestia perdoa tudo. E depois, quando os vir encarreirados e grandes homens...
—Porque é que a politica os ha de separar?
—Sim, podiam ser grandes na sciencia, um grande medico, um grande jurisconsulto...
Natividade não quiz confessar que a sciencia não bastava. A gloria scientifica parecia-lhe comparativamente obscura; era calada, de gabinete, entendida de poucos. Politica, não. Quizera só a politica, mas que não brigassem, que se amassem, que subissem de mãos dadas... Assim ia pensando comsigo, emquanto Ayres, abrindo mão da sciencia, acabou declarando que, sem amor, não se faria nada.
—Paixão, disse elle, é meio caminho andado.
—A politica é a paixão delles; paixão e ambição. Talvez já pensem na presidencia da Republica.
—Já?
—Não... isto é, sim; guarde segredo. Interroguei-os separadamente; confessaram-me que este era o seu sonho imperial. Resta saber o que fará um, se o outro subir primeiro.
—Derrubal-o-ha, naturalmente.
—Não graceje, conselheiro.
—Não é gracejo, baroneza. A senhora cuida que a politica os desune; francamente, não. A politica é um incidente, como a moça Flora foi outro...
—Ainda se lembram della.
—Ainda?
—Foram á missa anniversaria, e desconfio que fôram tambem ao cemiterio, não juntos, nem á mesma hora. Se fôram, é que verdadeiramente gostavam della; logo, não foi um incidente.
Sem embargo do que Natividade lhe merecia, Ayres não insistiu na opinião, antes deu mais relevo á della, com o proprio facto da visita ao cemiterio.
—Não sei se fôram, emendou Natividade; desconfio.
—Devem ter ido; elles gostavam realmente da pequena. Tambem ella gostava delles; a differença é que, não alcançando unifical-os, como os via em si, preferiu fechar os olhos. Não lhe importe o mysterio. Ha outros mais escuros.
—Parece que vae entrar a ceremonia, disse Perpetua que olhava para o recinto.
—Chegue-se para a frente, conselheiro.
A ceremonia era a do costume. Natividade cuidou que ia vel-os entrar juntos e affirmarem juntos o compromisso regimental. Viriam assim como os trouxera no ventre e na vida. Contentou-se de os admirar separadamente, Paulo primeiro, Pedro depois, ambos graves, e ouviu-lhes cá de cima repetira formula com voz clara e segura. A ceremonia foi curiosa para as galerias, graças á semelhança dos dous; para a mãe foi commovedora.
—Estão legisladores, disse Ayres no fim.
Natividade tinha os olhos gloriosos. Ergueu-se e pediu ao velho amigo que as acompanhasse á carruagem. No corredor acharam os dous recentes deputados, que vinham ter com a mãe Não consta qual delles a beijou primeiro; não havendo regimento interno nesta outra camara, póde ser que fossem ambos a um tempo, mettendo-lhes ella a cara entre as bocas, uma face para cada um. A verdade é que o fizeram com egual ternura. Depois voltaram ao recinto.