Quando tiverem barbas
Naquelle anno, uma noite de agosto, como estivessem algumas pessoas na casa de Botafogo, succedeu que uma dellas, não sei se homem ou mulher, perguntou aos dous irmãos que edade tinham.
Paulo respondeu:
—Nasci no anniversario do dia em que Pedro I caiu do throno.
E Pedro:
—Nasci no anniversario do dia em que Sua Majestade subiu ao throno.
As respostas foram simultaneas, não successivas, tanto que a pessoa pediu-lhes que falasse cada um por sua vez. A mãe explicou:
—Nasceram no dia 7 de Abril de 1870.
Pedro repetiu vagarosamente:
—Nasci no dia em que Sua Majestade subiu ao throno.
E Paulo, em seguida:
—Nasci no dia em que Pedro I caiu do throno.
Natividade reprehendeu a Paulo a sua resposta subversiva. Paulo explicou-se, Pedro contestou a explicação e deu outra, e a sala viraria club, se a mãe não os accommodasse por esta maneira:
—Isto hão de ser grupos de collegio; vocês não estão em edade de falar em politica. Quando tiverem barbas.
As barbas não queriam vir, por mais que elles chamassem o buço com os dedos, mas as opiniões politicas e outras vinham e cresciam. Não eram propriamente opiniões, não tinham raizes grandes nem pequenas. Eram (mal comparando) gravatas de côr particular, que elles atavam ao pescoço, á espera que a côr cançasse e viesse outra. Naturalmente cada um tinha a sua. Tambem se póde crêr que a de cada um era, mais ou menos, adequada á pessoa. Como recebiam as mesmas approvações e distincções nos exames, faltava-lhes materia a invejas; e, se a ambição os dividisse algum dia, não era por ora aguia nem condor, ou sequer filhote; quando muito, um ovo. No collegio de Pedro II todos lhes queriam bem.
As barbas é que não queriam vir. Que é que se lhes ha de fazer quando as barbas não querem vir? Esperar que venham por seu pé, que appareçam, que cresçam, que embranqueçam, como é seu costume dellas, salvo as que não embranquecem nunca, ou só em parte e temporariamente. Tudo isto é sabido e banal, mas dá ensejo a dizer de duas barbas do ultimo genero, celebres naquelle tempo, e ora totalmente esquecidas. Não tendo outro logar em que fale dellas, aproveito este capitulo, e o leitor que volte a pagina, se prefere ir atraz da historia. Eu ficarei durante algumas linhas, recordando as duas barbas mortas, sem as entender agora, como não as entendemos então, as mais inexplicaveis barbas do mundo.
A primeira daquellas barbas era de um amigo de Pedro, um capucho, um italiano, frei ***. Podia escrever-lhe o nome,—ninguem mais o conheceria,—mas prefiro esse signal trino, numero de mysterio, expresso por estrellas, que são os olhos do céu. Trata-se de um frade. Pedro não lhe conheceu a barba preta, mas já grisalha, longa e basta, adornando uma cabeça mascula e formosa. A bôca era risonha, os olhos rutilos. Ria por ella e por elles, tão docemente que mettia a gente no coração. Tinha o peito largo, as espaduas fortes. O pé nú, atado á sandalia, mostrava aguentar um corpo de Hercules. Tudo isso meigo e espiritual, como uma pagina evangelica. A fé era viva, a affeição segura, a paciencia infinita.
Frei *** despediu-se um dia de Pedro. Ia ao interior, Minas, Rio Janeiro, S. Paulo,—creio que ao Paraná tambem,—viagem espiritual, como a de outros confrades, e lá ficou por um semestre ou mais. Quando voltou trouxe-nos a todos grande alegria e maior espanto. A barba estava negra, não sei se tanto ou mais que d'antes, mas negrissima e brilhantissima. Não explicou a mudança, nem ninguem lhe perguntou por ella; podia ser milagre ou capricho da natureza; tambem podia ser correcção de homem, posto que o ultimo caso fosse mais difficil de crêr que o primeiro. Durou nove mezes esta côr; feita outra viagem por trinta dias, a barba appareceu de prata ou de neve, como vos parecer mais branca.
Quanto á segunda de taes barbas, foi ainda mais espantosa. Não era de frade, mas de maltrapilho, um sujeito que vivia de dividas, e na mocidade corrigira um velho rifão da nossa lingua por esta maneira: «Paga o que deves, vê o que te não fica.»
Chegou aos cincoenta annos sem dinheiro, sem emprego, sem amigos. A roupa teria a mesma edade, os sapatos não menor que ella. A barba é que não chegou aos cincoenta; elle pintava-a de negro e mal, provavelmente por não ser a tinta de primeira qualidade e não possuir espelho. Andava só, descia ou subia muita vez a mesma rua. Um dia dobrou a esquina da Vida e caiu na praça da Morte, com as barbas enxovalhadas, por não haver quem lh'as pintasse na Santa Casa.
Or, benè, para falar como o meu capucho, porque é que este e o maltrapilho voltaram do grisalho ao negro? A leitora que adivinhe, se póde: dou-lhe vinte capitulos para alcançal-o. Talvez eu, por essas alturas, lobrigue alguma explicação, mas por ora não sei nem aventuro nada. Vá que malignos attribuam a frei *** alguma paixão profana; ainda assim não se comprehende que elle se descobrisse por aquelle modo. Quanto ao maltrapilho, a que damas queria elle agradar, a ponto de trocar alguma vez o pão pela tinta? Que um e outro cedessem ao desejo de prender a mocidade fugitiva, póde ser. O frade, lido na Escriptura, sabendo que Israel chorou pelas cebolas do Egypto, teria tambem chorado, e as suas lagrimas cairam negras. Póde ser, repito. Este desejo de capturar o tempo é uma necessidade da alma e dos queixos; mas ao tempo dá Deus habeas-corpus.