Recuerdos

Essa outra vozeria maior e mais remota não caberia aqui, se não fosse a necessidade de explicar o gesto repentino com que Ayres parou na calçada. Parou, tornou a si e continuou a andar com os olhos no chão e a alma em Caracas. Foi em Caracas, onde elle servira na qualidade de addido de legação. Estava em casa, de palestra com uma actriz da moda, pessoa chistosa e garrida. De repente, ouviram um clamor grande, vozes tumultuosas, vibrantes, crescentes...

—Que rumor é este, Carmen? perguntou elle entre duas caricias.

—Não se assuste, amigo meu; é o governo que cae.

—Mas eu ouço acclamações...

—Então é o governo que sobe. Não se assuste. Amanhã é tempo de ir comprimental-o.

Ayres deixou-se ir rio abaixo daquella memoria velha, que lhe surdia agora do alarido de cincoenta ou sessenta pessoas. Essa especie de lembranças tinha mais effeito nelle que outras. Recompoz a hora, o logar e a pessoa da sevilhana. Carmen era de Sevilla. O ex-rapaz ainda agora recordava a cantiga popular que lhe ouvia, á despedida, depois de rectificar as ligas, compôr as saias, e cravar o pente no cabello,—no momento em que ia deitar a mantilha, meneando o corpo com graça:

Tienen las sevillanas,
En la mantilla,
Um letrero que dice:
Viva Sevilla!

Não posso dar a toada, mas Ayres ainda a trazia de cór, e vinha a repetil-a comsigo, vagarosamente, como ia andando. Outrosim, meditava na ausencia de vocação diplomatica. A ascenção de um governo,—de um regimen que fosse,—com as suas ideias novas, os seus homens frescos, leis e acclamações, valia menos para elle que o riso da joven comediante. Onde iria ella? A sombra da moça varreu tudo o mais, a rua, a gente, o gatuno, para ficar só deante do velho Ayres, dando aos quadris e cantarolando a trova andaluza:

Tienen las sevillanas
En la mantilla...


[CAPITULO XLI]