Segredo acordado
Emfim, que segredo ha que se não descubra? Sagacidade, boa vontade, curiosidade, chama-lhe o que quizeres, ha uma força que deita cá para fóra tudo o que as pessoas cuidam de esconder. Os proprios segredos cançam de calar,—calar ou dormir; fiquemos com este outro verbo, que serve melhor á imagem. Cançam, e ajudam a seu modo aquillo que imputamos á indiscrição alheia.
Quando elles abrem os olhos, faz-lhes mal a escuridão. Um raio de sol basta. Então pedem aos deuses (porque os segredos são pagãos) um quasi nada de crepusculo, aurora ou tarde, posto que a aurora prometta dia, emquanto a tarde cae outra vez na noite, mas tarde que seja, tudo é respirar claridade. Que os segredos, amiga minha, tambem são gente; nascem, vivem e morrem. Agora o que succede, quando um olhar de sol penetra na solidão delles, é que difficilmente sae mais, e geralmente cresce, rasga, alaga, e os traz pela orelha cá para fóra. Vexados da grande luz, elles a principio andam de ouvido em ouvido, cochichados, alguma vez escriptos em bilhetes, ainda que tão vagamente e sem nomes, que mal se adivinhará quaes sejam. É o periodo da infancia, que passa depressa; a mocidade pula por cima da adolescencia, e elles apparecem fortes e derramados, sabidos como gazetas. Emfim, se a velhice chega, e elles não se vexam dos cabellos brancos, tomam conta do mundo, e acaso conseguem, não digo esquecer, mas aborrecer; entram na familia do proprio sol, que quando nasce é para todos, segundo dizia uma taboleta da minha infancia.
Taboletas da minha infancia, ai, taboletas! Quizera acabar por ellas este capitulo, mas o assumpto não teria nobreza nem interesse, e ainda uma vez interromperiamos a nossa historia. Fiquemos no segredo divulgado; é quanto basta. Uma veranista elegante não dissimulou o seu espanto ao saber que os dous irmãos combinavam n'um ponto que faria romper os maiores amigos deste mundo. Um secretario de legação insinuou que podia ser brincadeira dos dous.
—Ou dos trez, accrescentou outra veranista.
Iam de passeio á Quitandinha, a cavallo. Ayres acompanhava-os, e não dizia nada. Quando lhe perguntaram se Flora era bonita, respondeu que sim, e falou da temperatura. A primeira veranista perguntou-lhe se era capaz de supportar aquella situação. Ayres respirou, como quem vem de longe, e declarou que aos pés de um padre seria obrigado a mentir, taes eram os seus peccados; mas alli, na estrada, ao ar livre, entre senhoras, confessou que matara mais de um rival. Que se lembrasse trazia sete mortes ás costas, com varias armas. As senhoras riam; elle falava soturno. Só uma vez escapou de morrer primeiro, e inventou uma anecdota napolitana. Fez a apologia do punhal. Um que tivera, ha muitos annos, o melhor aço do mundo, foi obrigado a dal-o de presente a um bandido, seu amigo, quando lhe provou que completára na vespera o seu vigesimo nono assassinato.
—Aqui está para o trigesimo, disse-lhe entregando a arma.
Poucos dias depois soube que o bandido, com aquelle punhal, matara o marido de uma senhora, e depois a senhora, a quem amava sem ventura.
—Deixei-o com trinta e um crimes de primeira ordem.
As damas continuavam a rir; elle conseguiu assim desviar a conversação de Flora e seus namorados.