Taboleta velha
Toda a gente voltou da ilha com o baile na cabeça muita sonhou com elle, alguma dormiu mal ou nada. Ayres foi dos que acordaram tarde; eram onze horas. Ao meio dia almoçou; depois escreveu no Memorial as impressões da vespera, notou varias espaduas, fez reparos politicos e acabou com as palavras que lá ficam no cabo do outro capitulo. Fumou, leu, até que resolveu ir á rua do Ouvidor. Como chegasse á vidraça de uma das janellas da frente, viu á porta da confeitaria uma figura inesperada, o velho Custodio, cheio de melancolia. Era tão novo o espectaculo que alli se deixou estar por alguns instantes; foi então que o confeiteiro, levantando os olhos, deu com elle entre as cortinas, e emquanto Ayres voltava para dentro, Custodio atravessou a rua e entrou-lhe em casa.
—Que suba, disse o conselheiro ao criado.
Custodio foi recebido com a benevolencia de outros dias e um pouco mais de interesse. Ayres queria saber o que é que o entristecia.
—Vim para contal-o a V.-Ex.; é a taboleta.
—Que taboleta?
—Queira V.-Ex. ver por seus olhos, disse o confeiteiro, pedindo-lhe o favor de ir á janella.
—Não vejo nada.
—Justamente, é isso mesmo. Tanto me aconselharam que fizesse reformar a taboleta que afinal consenti, e fil-a tirar por dous empregados. A visinhança veiu para a rua assistir ao trabalho e parecia rir de mim. Já tinha falado a um pintor da rua da Assembléa; não ajustei o preço porque elle queria ver primeiro a obra. Hontem, á tarde, lá foi um caixeiro, e sabe V.-Ex. o que me mandou dizer o pintor? Que a taboa está velha, e precisa outra; a madeira não aguenta tinta. Lá fui ás carreiras. Não pude convencel-o de pintar na mesma madeira; mostrou-me que estava rachada e comida de bichos. Pois cá debaixo não se via. Teimei que pintasse assim mesmo; respondeu-me que era artista e não faria obra que se estragasse logo.
—Pois reforme tudo. Pintura nova em madeira velha não vale nada. Agora verá que dura pelo resto da nossa vida.
—A outra tambem durava; bastava só avivar as letras.
Era tarde, a ordem fora expedida, a madeira devia estar comprada, serrada e pregada, pintado o fundo para então se desenhar e pintar o titulo. Custodio não disse que o artista lhe perguntára pela côr das letras, se vermelha, se amarella, se verde em cima de branco ou vice-versa, e que elle, cautelosamente, indagára do preço de cada côr para escolher as mais baratas. Não interessa saber quaes fôram.
Quaesquer que fossem as côres, eram tintas novas, táboas novas, uma reforma que elle, mais por economia que por affeição, não quizera fazer; mas a affeição valia muito. Agora que ia trocar de taboleta sentia perder algo do corpo,—cousa que outros do mesmo ou diverso ramo de negocio não comprehenderiam, tal gosto acham em renovar as caras e fazer crescer com ellas a nomeada. São naturezas. Ayres ia pensando em escrever uma Philosophia das Taboletas, na qual poria taes e outras observações, mas nunca deu começo a obra.
—V.-Ex. hade-me perdoar o incommodo que lhe trouxe, vindo contar-lhe isto, mas V.-Ex. é sempre tão bom commigo, fala-me com tanta amizade, que eu me atrevi... Perdoa-me, sim?
—Sim, homem de Deus.
—Comquanto V.-Ex. approve a reforma da taboleta, sentirá commigo a separação da outra, a minha amiga velha, que nunca me deixou, que eu, nas noites de luminarias, por S. Sebastião e outras, fazia apparecer aos olhos da gente. V.-Ex., quando se aposentou, veiu achal-a no mesmo logar em que a deixou por occasião de ser nomeado. E tive alma para me separar della!
—Está bom, lá vae; agora é receber a nova, e verá como daqui a pouco são amigos.
Custodio saiu recuando, como era seu costume, e desceu tropego as escadas. Deante da confeitaria deteve-se um instante, para ver o logar onde estivera a taboleta velha. Deveras, tinha saudades.