Um Christo particular
Tudo isso lhe custava tanto, que ella acabou pedindo ao seu Christo um logar de governador para o pae,—ou qualquer commissão fóra daqui. Jesus-Christo não distribue os governos deste mundo. O povo é que os entrega a quem merece, por meio de cedulas fechadas, mettidas dentro de uma urna de madeira, contadas, abertas, lidas, sommadas e multiplicadas. A commissão podia vir, isso sim; a questão era saber se Jesus-Christo acudirá a todos os que lhe pedem a mesma cousa. Os commissarios seriam infinitamente mais que as commissões. Esta objecção foi logo expellida do espirito de Flora, porque ella pedia ao seu Christo, um de marfim velho, deixa da avó, um Christo que nunca lhe negou nada, e a quem as outras pessoas não vinham importunar com supplicas. A propria mãe tinha o seu particular, confidente de ambições, consolo de desenganos; não recorria ao da filha. Tal era a fé ingenua da moça.
Certarmente, já lhe havia pedido que a livrasse daquella complicação de sentimentos, que não acabavam de ceder um ao outro, daquella hesitação cançativa, daquelle empuxar para ambos os lados. Não foi ouvida. A causa seria talvez por não haver dado ao pedido a fórma clara que aqui lhe ponho, com escandalo do leitor. Effectivamente, não era facil pedir assim por palavras seguidas, faladas ou só pensadas; Flora não formulou a supplica. Poz os olhos na imagem e esqueceu-se de si, para que a imagem lêsse dentro della o seu desejo. Era demais; requerer o favor do céu e obrigal-o a adivinhar o que era... Assim cuidou Flora, e resolveu emendar a mão. Não chegou lá; não ousou dizer a Jesus o que não dizia a si mesma. Pensava nos dous, sem confessar a nenhum. Sentia a contradicção, sem ousar encaral-a por muito tempo.