Velhas ceremonias

Aqui vae a sair o caixão. Todos tiram o chapeu, logo que elle assoma á porta. Gente que passa, pára. Das janellas debruça-se a visinhança, em algumas atopeta-se, por serem as familias maiores que o espaço; ás portas, os criados. Todos os olhos examinam as pessoas que pegam nas alças do caixão, Baptista, Santos, Ayres, Pedro, Paulo, Nobrega.

Este, posto já não frequentasse a casa, mandara saber da enferma, e foi convidado a carregar o gracioso corpo. No carro, em que levava o secretario, e era puxado pela mais bella parelha do prestito, quasi unica, lembrava Nobrega ao secretario.

—Não lhe dizia eu que ella era doente? Era muito doente.

—Muito.

Não vou ao ponto de affirmar que teve prazer com a morte de Flora, só por havel-o feito acertar na noticia da doença, estando ella perfeitamente sã. Mas que ninguem fosse seu marido, foi uma especie de consolação. Houve mais; suppondo que ella o tivesse acceitado e casassem, pensava agora no esplendido enterro que lhe faria. Desenhava na imaginação o carro, o mais rico de todos, os cavallos e as suas plumas negras, o caixão, uma infinidade de cousas que, á força de compôr, cuidava feitas. Depois o tumulo; marmore, letras de ouro... O secretario para o arrancar á tristeza, falava dos objectos da rua.

—V. Ex. lembra-se do chafariz que havia aqui ha annos?

—Não, resmungava Nobrega.

Ainda uma vez, não ha novidade nos enterros. Dahi o provavel tedio dos coveiros, abrindo e fechando covas todos os dias. Não cantam, como os de Hamlet, que temperam as tristezas do officio com as trovas do mesmo officio. Trazem o caixão da cal e a colher para os convidados, e para si as pás com que deitam a terra para dentro da cova. O pae e alguns amigos ficaram ao pé da cova de Flora, a ver cair a terra, a principio com aquelle baque soturno, depois com aquelle vagar cançativo, por mais que os pobres homens se apressem. Enifim, caiu toda a terra, e elles puzeram em cima as grinaldas dos paes e dos amigos: «À nossa querida filha»;—«À nossa santa amiguinha Flora a saudosa amiga Natividade»;—À Flora, um amigo velho», etc. Tudo feito, vieram saindo; o pae, entre Ayres e Santos, que lhe davam o braço, cambaleava. Ao portão, foram tomando os carros e partindo. Não deram pela falta de Pedro e Paulo que ficaram ao pé da cova.


[CAPITULO CIX]