ANTONIO JOSÉ
Um dia destes, relembrando uma passagem da tragedia que Magalhães consagrou á memoria de Antonio José, adverti na resposta dada pelo judeu ao conde de Ericeira, quando este lhe recommenda que imite Molière; o judeu responde que Molière escrevia para francezes e elle não. Será essa resposta a rigorosa expressão da verdade? Antonio José não se modelou, certamente, pelas obras do grande comico, não cogitou jamais da simples pintura dos vicios e dos caracteres. Molière caminhou do Medico Volante e dos Zelos de Barbouillé á Escola das Mulheres e ao Tartufo; Antonio José não passou das Guerras do Alecrim e Mangerona, e, dado que tentasse fazel-o, é certo que não poderia ir muito além. Não tinha centro apropriado, nem largas vistas; faltavam-lhe outros meios, outros intuitos; e, se porventura entrou em seu espirito reatar a tradição de Gil Vicente, levantando sobre os alicerces lançados por esse operario do seculo XVI as paredes de um theatro regular, convinha justamente não imitar nada, nem ninguem, não se fazer Molière, nem Plauto, ficar Antonio José; é a condição das obras vivas.
Interpretada desse modo, é exacta e verdadeira a resposta que Magalhães põe na boca do judeu; mas só desse modo. O Amphytrião prova que o nosso poeta alguma cousa imitou e transplantou de Molière, a tal ponto que forçosamente o tinha deante de si, ou na banca de trabalho ou na memoria; e, porque esta observação não haja sido feita, cuido que interessará, quando menos, a titulo de curiosidade litteraria. Ao mesmo tempo, direi o que me parece do escriptor e da sua obra.
E, antes de mais nada, occorre ponderar que Antonio José gosa de uma reputação sobre palavra. A fogueira de 18 de Outubro de 1739 illuminou-lhe a figura de maneira que o puderam ver todos os olhos; a tragedia do Sr. Magalhães vulgarisou-o entre as nossas platéas de ha 40 annos; mas só os estudiosos o terão lido, e nem todos, porque a tarefa exige constancia e esforço, embora de certo modo os pague. Póde-se dizer, sem erro, que elle pertence á familia dos poetas comicos, qualquer que seja o grau de parentesco,—com a circumstancia que era um desperdiçado,—trocava a boa moeda do comico pelo cobre vulgar do burlesco. Mas, poeta comico era-o, e de boa veia;—mais de certo que Nicolau Luiz, que lhe succedeu na estima das platéas de Lisboa, mais ainda que Manuel de Figueiredo, cujas intenções literarias abafaram, talvez, a livre expansão do engenho, e que aliás escrevia de si mesmo que—«havendo-se enganado comsigo em infinitas cousas, nunca se preoccupou de que tinha graça.» Accresce que o fim tragico do judeu communica ás suas paginas alegres e juvenis um reflexo de sympathica melancolia, que ainda mais nos convida a percorrel-as e estudal-as. A piedade não é de certo razão determinativa em pontos de critica, e tal poetastro haverá que, succumbindo a uma grande injustiça social, somente inspire compaixão sem desafiar a analyse. Não é o caso de Antonio José; este mereceria por si só que o estudassemos, ainda despido das occorrencias tragicas que lhe circumdam o nome.
Nenhuma das comedias do judeu se póde dizer excellente e perfeita; ha porém graus entre ellas, e a todas sobreleva a das Guerras do Alecrim e Mangerona. Nesta, como nas demais, nota-se de certo muita espontaneidade, viveza de dialogo, graça de estylo, variedade de situações, e certo conhecimento de scena; mas a alma de todas ellas não é grande; vive-se alli de enredo e de apparato. Se ao poeta foi estranha a invenção dos caracteres e a pintura dos vicios, não menos o foi a transcripção dos costumes locaes. Salvo o Alecrim e Mangerona, todas as suas peças são inteiramente alheias á sociedade e ao tempo; a Esopaida tem por base um assumpto antigo; a Vida de D. Quixote põe em scena o personagem de Cervantes; as outras peças são todas mythologicas. Podiam estas, não obstante o rotulo, conter a pintura dos costumes e da sociedade cujo producto eram; mas, comquanto em taes composições influa muito o moderno, não se descobre nellas nenhuma intenção daquella natureza.
Ao contrario, a intenção quasi exclusiva do poeta era a galhofa, e tal galhofa que transcendia muita vez as raias da conveniencia publica. Nenhuma de suas peças,—operas é o nome classico,—nenhuma é isenta de expressões baixas e até obscenas, com que elle, segundo lhe arguia um prelado, «chafurdou na immundicie.» Tinha razão o prelado, mas não basta ter razão; cumpre saber tel-a. Ora, a baixeza e a obscenidade das locuções não eram novidade na scena portugueza, nem na de outros paizes; e, deixando de ir agora a exemplos estranhos á nossa lingua, basta lembrar que o Cioso, de Ferreira, do culto autor da Castro, foi dado por Figueiredo com a declaração de ter sido «expurgado segundo o melindre dos ouvidos do nosso seculo.» Gil Vicente, sem embargo de se representarem suas peças na côrte de D. João III e D. Manuel, adubava-as ás vezes de especies que nos parecem hoje bem pouco exquisitas. As operas do judeu eram dadas num theatro popular; não as ouvia a côrte de D. João V, mas o povo e os burguezes de Lisboa, cujas orelhas não teriam ainda os melindres que mais tarde lhes attribuiu Figueiredo. A differença entre Antonio José e os outros era afinal uma questão de quantidade; mas, se o tempo lh'o permittia e, com o tempo, a censura, que muito é que o poeta reincidisse? Não é isto escusal-o, mas explical-o. Deixemos os trocados e equivocos, que são um chiste de mau gosto, mácula de estylo, que o poeta exagerou até á puerilidade, cedendo a si mesmo e ao riso das platéas. Outro defeito que se lhe argúe, é o tom guindado e os arrebiques de conceito, que se notam em muitas falas de certos personagens, os deuses, principes e heróes. Um de seus biographos, comparando o estylo de taes personagens com o dos criados e pessoas infimas, que são simples e naturaes, suppõe que houve no poeta intenção satyrica, opinião que me parece carecer de fundamento, entre outras razões porque não ha sempre aquella differença de estylo, e não é raro falarem os principaes personagens do mesmo modo natural e recto, que os de condição inferior. Guindam-se muita vez, mas era achaque do tempo e exageração na maneira de empregar o estylo nobre, porque havia então um estylo nobre; e, se o judeu teve alguma vez intenção satyrica, arrebicando ou empolando a expressão, tal intenção foi sómente literaria e nenhuma outra. Que diremos dos anachronismos de linguagem? Esses são constantes e excessivos. Os dobrões de Alcmena, a alcunha de alfacinha dada a Amphytrião, Juno chrismada em Felizarda, um criado antigo «de corpo á ingleza,» outro com «relogio de pendurucalhos,» deviam promover a gargalhada franca do povo. Esse fugir do meio e da acção para a realidade presente vae algumas vezes além, como na Esopaida, em que o heróe, falando de sua vida, diz que anda em livros pelo mundo—«e agora me dizem que se está representando no Bairro-Alto.» Já na Vida de D. Quixote havia o poeta posto a mesma cousa na boca de Sancho, quando o cavalleiro, vendo um barco amarrado, pergunta ao escudeiro:—«Sabes onde estamos?—Sei bem.—Aonde?—No Bairro-Alto.» O judeu podia responder que tal séstro foi o de Regnard e o de Boursault, por exemplo, que poz o seu Esopo a tomar café e metteu com elle esposas de tabelliães; podia citar muitos outros exemplos anteriores e contemporaneos, e a critica se incumbiria de apontar os que vieram depois delle; mas não vale a pena.
Venhamos ao Amphytrião. Um erudito escriptor, o Sr. Theophilo Braga, suppõe que a intenção do poeta, nessa comedia, foi pintar em Jupiter a pessoa de D. João V, supposição que detidamente examinei e me parece inteiramente gratuita. Cuido que o critico faz de uma coincidencia um proposito, e fundamenta a sua suspeita na possivel analogia das aventuras do deus pagão e do rei christão. A analogia podia ser um elemento de prova, mas desacompanhada de outras não faz chegar a nenhum resultado definitivo. Ora, basta ler o Amphytrião, basta comparar a situação do poeta e o tempo para varrer do espirito semelhante hypothese. Certo, não faltava audacia ao poeta; ahi está, como exemplo, a definição da justiça, feita por Sancho, na Vida de D. Quixote; mas entre a generalidade desse trecho e a satyra pessoal do Amphytrião vae um abysmo. Occorre-me que do Amphytrião de Molière tambem se disse ser allusão a Luiz XIV, com a differença que em França não se attribuiu a Molière a intenção de ferir, mas de ser agradavel ao rei, que lhe havia encommendado aquella apotheose de suas proprias aventuras, opinião esta que foi de todo condemnada. Não, não ha motivo para attribuir a Antonio José a intenção que lhe suppõe o Sr. Theophilo Braga; e, se tal intenção existisse, o desenlace da comedia, quando Jupiter se declara acima da lei, viria a ser de um sarcasmo tão crú que não alcançariamos comprehendel-o naquelle seculo.
Evidentemente, o judeu achou na aventura pagã o mesmo que lhe acharam Plauto, Molière e Camões,—um assumpto prestadio ás combinações scenicas, e, demais, singularmente proprio para as chufas do Bairro-Alto. Desnecessario é dizer os tramites dessa travessura de Jupiter, que, namorado de Alcmena, toma a figura do marido e vae á casa della, acompanhado de Mercurio, que copia as feições de Sosias, criado de Amphytrião. O nosso poeta seguiu no principal a fabula que encontrou nos antecessores, fazendo-lhe todavia as alterações suscitadas pelo gosto proprio e das platéas. Assim, o Sosias de Plauto, de Molière e de Camões é na peça de Antonio José um Saramago. Não lhe mudou elle o essencial; trocando-lhe o nome, obedeceu ao systema de dar aos criados nomes burlescos. O de Jason, nos Encantos de Medéa, chama-se Sacatrapos; ha nas outras operas um Carangueijo, um Esfusiote, um Chichisbéu. São nomes, não valem mais que nomes. Nem Molière chamou Dandin ao principal personagem de uma de suas comedias sinão para o caracterisar desde logo de um modo jovial; não pretendeu outra cousa. Comtudo, a observação em relação a Antonio José tem o valor de um rasgo significativo.
Cotejando o Amphytrião de Antonio José com os de seus antecessores, vê-se o que elle imitou dos modelos, e o que de sua casa introduziu. Já disse que no principal os seguiu a todos; mas nem sempre soube escolher, e darei disso um exemplo claro. Camões, que não sendo poeta comico, era todavia homem de tacto e gosto, corrigiu, antes de Molière, o desenlace do Amphytrião de Plauto. Na comedia deste, logo depois de explicar Jupiter os equivocos da situação e de annunciar ao marido de Alcmena que o filho desta é seu, mostra-se Amphytrião inteiramente satisfeito e glorioso com o desenlace. Camões supprimiu tão singular contentamento, e o mesmo fez Molière; em ambos os poetas Amphytrião ouve silencioso as declarações do pae dos deuses, sem que Alcmena assista a ellas. Antonio José não só não seguiu nessa parte os modelos recentes, mas até carregou a mão sobre o que imitou de Plauto. A alegria do seu Amphytrião e da sua Alcmena é tão franca, tamanho é o alvoroço dos dous esposos, que realmente chega a offender as leis da verosimilhança, ainda tratando-se de um caso divino. Neste ponto Antonio José foi antes inadvertido do que obrigado do gosto publico. Outro caso. Nas comedias anteriores não ha nenhum logar em que Alcmena veja ao mesmo tempo os dois Amphytriões, e isto não só era necessario para prolongar e justificar os equivocos, mas até o exigia a verosimilhança, porque, desde que Alcmena chegasse a ver juntos os dous exemplares exactos do marido, saía da boa fé que serve de fundamento á sua illusão, para cair no maravilhoso e no inextricavel. E é justamente o que acontece na comedia do judeu.
Vamos agora ao que o judeu imitou directamente de Molière. Ha na comedia daquelle um caracter, o de Cornucopia, mulher de Saramago, que não tem equivalente na de Plauto, nem na de Camões, e que só na de Molière existe. «Molière (é observação de La Harpe), fazendo de Cleanthis mulher de Sosias, inventou uma situação parallela á de Amphytrião e Alcmena, dando-lhe porém differente aspecto; Cleanthis pertence ao numero das esposas que, por serem honestas, cuidam ter o direito de ser insupportaveis». Ora bem, a situação e o caracter de Cleanthis transportou-os o judeu para o seu Amphytrião, e não se póde dizer encontro fortuito, senão deliberado proposito. Basta cotejal-os com espirito advertido; a differença é de tom, de estylo; substancialmente, a invenção é a mesma; as proprias idéas reproduzem-se ás vezes na obra do judeu. Assim, logo na scena em que Mercurio transformado em Saramago (Sosias) encontra a mulher deste, achamos o traço commum aos dois poetas.
Na comedia de Molière:
CLEANTHIS
Regarde, traitre, Amphytrion;
Vois comme pour Alcmène il étale de flamme;
Et rougis là-dessus du peu de passion
Que tu témoignes pour ta femme.
MERCURIO
Hé! mon Dieu! Cléanthis, ils sont encore amants.
Il est certain âge où tout passe;
Et ce qui leur sied bien dans ces commencements,
En nous, vieux mariés, aurait mauvaise grâce.
Il nous ferait beau voir, attachés face à face,
A pousser les beaux sentiments!
CLEANTHIS
Mérites-tu, pendard, cet insigne bonheur
De te voir pour épouse une femme d'honneur?
MERCURIO
Mon Dieu! tu n'es que trop honnête;
Ce grand honneur ne me vaut rien.
Ne sois point si femme de bien,
Et me romps un peu moins la tête.
Agora Antonio José:
CORNUCOPIA
Tambem nosso amo trazia bastante fome, e comtudo está dizendo á nossa ama tanta cousa galantinha que faria derreter uma pedra
MERCURIO
Com que é o mesmo nossos amos do que nós? Elles casadinhos de um anno, e nós ha um seculo? Elles senhores e rapazes, e nós velhos e moços?[1] Elles dous jasmins e nós dous lagartos? E finalmente elles com amor, e nós, ou pelo menos eu, sem nenhum?
[1] Criados.
CORNUCOPIA
Ora o certo é que peior é fazer festa a villões ruins; por estas, que se tu conheceras a mulher que tens, que outra cousa fôra; talvez que se eu fôra alguma dessas bonecrinhas enfeitadas que me quizeras mais; porém a culpa tenho eu em não aceitar o que me davam nas tuas costas.
MERCURIO
Pois ainda estás em tempo...
Trata-se, como se vê, de um caracter e de uma situação integralmente transcriptos, embora de outro geito, cedendo o poeta aos seus habitos literarios, á sua indole e ao seu meio. Nem é sómente na introducção do caracter de Cornucopia, e na situação dos dous personagens, que Antonio José revela ter deante de si ou na memoria a peça de Molière, ha ainda outro vestigio; ha uma idéa na scena em que Jupiter se despede de Alcmena,—idéa que o judeu expressa deste modo:
ALCMENA
Este amor nasce da obrigação.
JUPITER
Pois quizera que esta fineza nascera mais do teu amor que da tua obrigação.
ALCMENA
A obrigação de amar ao esposo supera toda a obrigação.
JUPITER
Pois mais devera que me quizeras como a amante que como a esposo.
ALCMENA
Não sei fazer esta differença, pois não posso amar-te como a esposa, sem que te ame como a amante.
Na comedia de Molière:
JUPITER
En moi, belle et charmante Alcmène,
Vous voyez un mari, vous voyez un amant;
Mais l'amant seul me touche, à parler franchement;
Et je sens près de vous que le mari me gêne.
Cet amant, de vos vœux jaloux au dernier point,
Souhaite qu'à lui seul votre amour s'abandonne.
ALCMENA
Je ne sépare point ce qu'unissent les dieux;
Et l'époux et l'amant me sont fort précieux.
Se, neste ponto, já se não trata de uma situação, de um caracter novo, mas de uma idéa entrelaçada no dialogo, importa repetir que, ainda imitando ou recordando, o judeu se conserva fiel á sua physionomia literaria; póde ir buscar a especiaria alheia, mas ha de ser para temperal-a com o molho da sua fabrica. Dessa inclinação ao baixo-comico achamos outro exemplo na Esopaida, cujo assumpto fôra tratado, antes delle, por Boursault. O caracter tradicional de Esopo era pouco apropriado á comedia: é um moralista, um autor de apologos, mas Boursault trouxe-o assim mesmo para a scena, unico modo de lhe conservar a côr original. O Esopo de Antonio José parece antes um exemplar apurado daquelles lacaios argutos e atrevidos da comedia classica; salvo dous ou tres logares, é outro genero de Sacatrapos ou Chichisbéo; figura alli com agudezas e trocadilhos. Ha destes extremamente bufões, como o da bacia das almas, e disso e de pouco mais se compõe a philosophia de Esopo. Não obstante essa côr geral, notam-se alli toques de bom comico, embora leves e a espaços. Ha tambem, e principalmente, a veia satyrica, na scena que quasi todos os seus biographos transcrevem,—a das theses dos philosophos, scena extremamente chistosa, e que o proprio Diniz, com toda a sua veia do Hyssope e do Falso Heroismo, não sei se chegaria a fazer mais acabada. Compare-se essa scena com a da invasão do Parnaso pelos maus poetas, na Vida de D. Quixote, e ver-se-ha que havia no talento de Antonio José uma forte dóse de satyra,—o que, de certa maneira, lhe diminuia a força comica. Nessas duas peças é, aliás, sensivel a habilidade theatral do poeta, que não tinha propriamente uma acção em nenhuma dellas, e, não obstante, logrou condensar a vida dos episodios, manter a unidade do interesse e angariar o applauso publico. Accresce que o seu D. Quixote não tem o defeito capital do seu Esopo; o poeta soube dar-lhe alguns toques da ingenuidade sublime, que caracterisa o typo de Cervantes: é o que se vê logo, na exposição, quando D. Quixote responde ao barbeiro acerca da armada que se prepara para combater o turco:—«Para que se cançam com tantas machinas? diz elle. Eu lhes déra um bom arbitrio com que, em menos de uma hora, vençam quantas armadas e armadilhas o turco tiver.» É ocioso dizer que o arbitrio seria a cavallaria andante.
De todas as comedias, porém, a que goza as honras da primazia, é a das Guerras do Alecrim e Mangerona, e com razão; é a mais acabada e a mais comica. Tem o gosto do tempo, e até um resaibo da maneira de Calderon, que de si mesmo escrevia:
Es comedia de Don Pedro
Calderon, d'onde hade haber,
Por fuerza, amante escondido
Y rebozada mujer.
Ha alli com effeito mulheres rebuçadas e amantes escondidos, e tanta vida como nas peças de Calderon.
Não trato aqui do facto que poderia ter dado logar á obra do judeu, nem das duvidas de Costa e Silva sobre se os dois ranchos do alecrim e da mangerona existiam antes da comedia, ou se esta os fez nascer; é investigação que não vale a pena de um minuto, e aliás o texto do poeta é claro. Em tudo se avantaja o Alecrim e mangerona, até na linguagem, que é ahi muito menos obscena que nas outras, differença que se póde attribuir ao progresso do talento, porquanto já no Labyrintho de Creta se dá o mesmo phenomeno. Não direi, como Garrett, que essa peça teria hoje todo o valor de uma comedia historica; mas assim mesmo, quem lhe vê as figuras, a seculo e meio de distancia, parece contemplar uma gravura em que ellas conservam as feições e o vestuario do tempo,—os namorados pobres, o velho avarento que arde por se ver livre das sobrinhas, e que, ao annunciarem-lhe a chegada do pretendente provinciano, manda deitar «mais um ovo nos espinafres,» D. Tiburcio, as duas damas, o Semicupio e a velha Fagundes, todo o pessoal da antiga farça.
Superior ás outras composições, como estylo e originalidade, não menos o é como viveza, graça e movimento: e, se a farça domina, não é tanto que não appareça a comedia. Basta apontar, por exemplo, a scena da consulta medica, por occasião do desastre de D. Tiburcio, que é uma das melhores do theatro do judeu, e não ficaria vexada si a puzessemos ao lado das de Molière e Gil Vicente. Para não faltar nada, ha tambem aphorismos latinos, e até uma copla latina, digna de Molière. Podemos considerar o Alecrim e Mangerona como uma das melhores comedias do seculo XVIII.
Ler o Alecrim e Mangerona, o Amphytrião, a Esopaida e o D. Quixote, é avaliar todo o poeta, com suas qualidades boas e más, com o geito do seu espirito e influencia do seu tempo. Nicolau Luiz, Figueiredo, Diniz e Garção, no mesmo seculo, tiveram talvez mais intenção comica do que Antonio José, mas os meios deste eram maiores, possuiam outra virtualidade, outra espontaneidade, outra abundancia. Dir-se-ha que, se a Inquisição o deixára viver, Antonio José produziria alguma obra de esphera superior? Repito: não creio que elle subisse muito acima do Alecrim e Mangerona; iria talvez ao ponto de fazer alguma cousa parecida com o Avaro, mas não faria todo o Avaro.
Agora, a seculo e meio de distancia, podemos affirmar que Antonio José foi um destino decapitado. Qualquer que fosse a natureza do seu engenho, é fóra de duvida que o auto da fé em que elle pereceu, devorou com a mesma flamma assaz de paginas alegres e vivazes. A prova de que o theatro poderia ainda esperar muito de Antonio José, está na comparação das obras delle com a vida delle. Era um christão novo, como tal suspeitado e perseguido; aos vinte e um annos padeceu um primeiro processo, e sabe-se que terriveis eram os processos inquisitoriaes; basta dizer que o delinquente revelou todos os seus complices em judaismo, com a maior franqueza e minuciosidade, o que se póde explicar pela tenra edade do poeta, mas tambem pelo terror que o tribunal infundia, não menos que pela exhortação mansa com que os inquisidores extorquiam a confissão de todos os erros e a denuncia de todos os complices,—sem prejuizo, aliás, do carcere e da polé. Pois bem, não obstante os vestigios e as lembranças desse primeiro acto da Inquisição, não obstante o espectaculo do que padeciam os seus, as operas de Antonio José trazem o sabor de uma mocidade imperturbavelmente feliz, a facecia grossa e petulante, tal como lh'a pedia o paladar das platéas, nenhum vislumbre do episodio tragico, salvo uns versos do Amphytrião que se creem, (e, quanto a mim, sem outro fundamento além da conjectura) como applicaveis a elle mesmo. Mas ainda suppondo que a conjectura tenha razão, admittindo mais que a allegoria da justiça na Vida de D. Quixote seja o resumo das queixas pessoaes do poeta (supposição tão fragil como aquella), a verdade é que os successos da vida delle não influiram, não diminuiram a força nativa do talento, nem lhe torceram a natureza, que estava muito longe da hypocondria. Molière, que, se nem sempre teve flores no caminho, não conheceu o infimo dos padecimentos de Antonio José, foi o creador de Alceste; o nosso judeu, dado que tivesse a mesma intensidade de talento, não escolheria nunca o assumpto do Misanthropo.
Nisto, menos que em nenhuma outra cousa, imitaria elle o grande mestre. Não lhe fossem propôr graves problemas, nem maximas profundas, nem os caracteres, nem as altas observações que formam o argumento das comedias de outra esphera, nem sobretudo as melancolias de Molière e Shakespeare. O nosso judeu era a farça, a genuina farça, sem outras pretenções, sem mais remotas vistas que os limites do seu bairro e do seu tempo. Certo, eu posso hoje, á fina força, arrancar alguma idéa inicial das operas do judeu; por exemplo, ao ver nos Encantos de Medéa a dedicação da feiticeira de Colchos, que tráe os deveres filiaes e põe todas as suas artes ao serviço de Jason, ao ponto de lhe entregar o vellocino e ao ver que, apezar de tudo isto, o principe foge com Creusa, posso, digo eu, attribuir ao poeta a intenção de que o reconhecimento não é o caminho do amor e que um coração póde ser legitimamente ingrato. Seria logico, seria bem deduzido da acção, mas não passaria de obra da critica, inteiramente alheia á intenção do poeta, que achou no assumpto uma farça de tramoias e nada mais. Esta é a ultima conclusão que rigorosamente se póde tirar do poeta. Elle não imitou, não chegaria a imitar Molière, ainda que repetisse as transcripções que fez no Amphytrião; tinha originalidade, embora a influencia das operas italianas. Convenhamos que era um engenho sem disciplina, nem gosto, mas caracterisco e pessoal.