EDUARDO PRADO
A ultima vez que vi Eduardo Prado foi na vespera de deixar o Rio de Janeiro para recolher a S. Paulo, dizem que com o germen do mal e da morte em si. Naquella occasião era todo vida e saúde. Quem então me dissesse que elle ia tambem deixar o mundo, não me causaria espanto, porque a injustiça da natureza acostuma a gente aos seus golpes; mas, é certo que eu buscaria maneira de obter outras horas como aquella, em que me detivesse ao pé delle, para ouvil-o e admiral-o.
Só falámos de arte. Ouvi-lhe noticias e impressões, senti-lhe o gosto apurado e a critica superior, tudo envolvido naquelle tom ameno e simples, que era um relevo mais aos seus dotes. Não tinhamos intimidade; faltou-nos tempo e a pratica necessaria. Antes daquella vez ultima, apenas falámos tres ou quatro, o bastante para consideral-o bem e cotejar o homem com o escriptor. Eduardo Prado era dos que se deixam penetrar sem esforço e com prazer. O que agora li a seu respeito na primeira mocidade, na escola e nos ultimos annos, referido por amigos que parecem não o esquecer mais, confirma a minha impressão pessoal. Aliás, os seus escriptos mostravam bem o homem. Apanhava-se o sentimento da harmonia que ajustava nelle a vida moral, intellectual e social.
Principalmente artista e pensador, possuia o divino horror á vulgaridade, ao logar commum e á declamação. Se entrasse na vida politica, que apenas atravessou com a penna, em dias de luta, levaria para ella qualidades de primeira ordem, não contando o humour, tão diverso da chalaça e tão original nelle. Mas a erudição e a historia, não menos que a arte, eram agora o seu maior encanto. Sabia bem todas as cousas que sabia.
Naturalmente remontei commigo, durante aquella boa hora, e ainda depois della, ao tempo das cartas de viagem que nos deu tão rica amostra de um grande talento que viria a crescer e subir. A materia em si convidava ao egotismo, mas elle não padecia desse mal. Tambem faria correr o risco da repetição de cousas vistas e pintadas, que se não acha aqui. A faculdade de ver claro e largo, a arte de dizer originalmente a sensação pessoal, elle as possuia como os principaes que hajam andado as terras ou rasgado os mares deste mundo. Invenção de estylo, observação aguda, erudição discreta e vasta, graça, poesia e imaginação produziram essas paginas vivas e saborosas. Aquella partida de Napoles, sob um céo chuvoso e de chumbo, não se esquece. Relê-se com encanto essa explicação do tempo aspero, durante o qual o céo napolitano se recompõe, para começar novamente a opera «com os córos de pescadores e as barcarolas, a musica de luz e de azul». Assim a Africa, assim todas as partes onde quer que este brasileiro levou a ancia de ver homens e cousas, cidades e costumes, a natureza vária entre ruínas perpetuas, através de regiões remotas...
Conta-se que elle chorou, quando morreu Eça de Queiroz. Agora, que ambos são mortos, alguem que imaginasse e escrevesse o encontro das duas sombras, á maneira de Luciano, daria uma curiosa pagina de psychologia. As confabulações de taes espiritos são dignas de memoria. Sterne escreveu que «um dia, conversando com Voltaire...» e imagina-se o que diriam elles. Imagina-se o que diriam, todas as noites, Stendhal e Byron, passeando no solitario foyer do theatro Scala. Quando Montaigne ouvia as historias que Amyot lhe ia contar, podemos ver a delicia de ambos e admittir que as visitas continuam no outro mundo. Assim se podia dizer do Eça e do Eduardo, por um texto que exprimisse o talento, o amor das cousas finas e bellas, e, emfim, a grande sympathia que um inspirava ao outro.
Quando me despedi de Eduardo Prado, naquelle dia, vim perguntando a mim mesmo se teria vida bastante para ler e admirar as obras-primas que esse talentoso brasileiro levava no cerebro em gestação, ou em germen, e durante muitos annos viriam abastecer a nossa lingua e a nossa terra. Seis dias depois, era elle que morria. Chamei injusta á natureza; bastaria dizer—indifferente.