II

De manhã tinha o relogio parado. Chegando á cidade, desci a rua do Ouvidor, até á da Quitanda, e indo a voltar á direita, para ir ao escriptorio do meu advogado, lembrou-me ver que horas eram. Não me acudiu que o relogio estava parado.

—Que massada! exclamei.

Felizmente, naquella mesma rua da Quitanda, á esquerda, entre as do Ouvidor e Rosario, era a officina onde eu comprára o relogio, e a cuja pendula usava acertal-o. Em vez de ir para um lado, fui para outro. Era apenas meia hora; dei corda ao relogio, acertei-o, troquei duas palavras com o official que estava ao balcão, e indo a sair, vi á porta de uma loja de novidades que ficava defronte, nem mais nem menos que a senhora de escuro que encontrára em casa do commendador. Comprimentei-a, ella correspondeu depois de alguma hesitação, como se me não houvesse reconhecido logo, e depois seguiu pela rua da Quitanda fóra, ainda para o lado esquerdo.

Como tivesse algum tempo ante mim (pouco menos de trinta minutos), dei-me a andar atraz de Maria Cora. Não digo que uma força violenta me levasse já, mas não posso esconder que cedia a qualquer impulso de curiosidade e desejo; era tambem um resto da juventude passada. Na rua, andando, vestida de escuro, como na vespera, Maria Cora pareceu-me ainda melhor. Pisava forte, não apressada nem lenta, o bastante para deixar ver e admirar as bellas fórmas, mui mais correctas que as linhas do rosto. Subiu a rua do Hospicio, até uma officina de ocularista, onde entrou e ficou dez minutos ou mais. Deixei-me estar a distancia, fitando a porta disfarçadamente. Depois saiu, arrepiou caminho, e dobrou a rua dos Ourives, até á do Rosario, por onde subiu até ao largo da Sé; dahi passou ao de S. Francisco de Paula. Todas essas reminiscencias parecerão escusadas, senão aborreciveis; a mim dão-me uma sensação intensa e particular, são os primeiros passos de uma carreira penosa e longa. Demais, vereis por aqui que ella evitava subir a rua do Ouvidor, que todos e todas buscariam áquella ou a outra hora para ir ao largo de S. Francisco de Paula. Foi atravessando o largo, na direcção da Escola Polytechnica, mas a meio caminho veiu ter com ella um carro que estava parado defronte da Escola; metteu-se nelle, e o carro partiu.

A vida tem suas encruzilhadas, como outros caminhos da terra. Naquelle momento achei-me deante de uma assaz complicada, mas não tive tempo de escolher direcção,—nem tempo nem liberdade. Ainda agora não sei como é que me vi dentro de um tilbury; é certo que me vi nelle, dizendo ao cocheiro que fosse atraz do carro.

Maria Cora morava no Engenho Velho; era uma boa casa, solida, posto que antiga, dentro de uma chacara. Vi que morava alli, porque a tia estava a uma das janellas. Demais, saindo do carro, Maria Cora disse ao cocheiro (o meu tilbury ia passando adeante) que naquella semana não sairia mais, e que apparecesse segunda-feira ao meio-dia. Em seguida, entrou pela chacara, como dona della, e parou a falar ao feitor, que lhe explicava alguma cousa com o gesto.

Voltei depois que ella entrou em casa, e só muito abaixo é que me lembrou de ver as horas; era quasi uma e meia. Vim a trote largo até á rua da Quitanda, onde me apeei á porta do advogado.

—Pensei que não vinha, disse-me elle.

—Desculpe, doutor, encontrei um amigo que me deu uma massada.

Não era a primeira vez que mentia na minha vida, nem seria a ultima.