III

Fiz-me encontradiço com Maria Cora, na casa do commendador, primeiro, e depois em outras. Maria Cora não vivia absolutamente reclusa, dava alguns passeios e fazia visitas. Tambem recebia, mas sem dia certo, uma ou outra vez, e apenas cinco a seis pessoas da intimidade. O sentimento geral é que era pessoa de fortes sentimentos e austeros costumes. Accrescentae a isto o espirito, um espirito agudo, brilhante e viril. Capaz de resistencias e fadigas, não menos que de violencias e combates, era feita, como dizia um poeta que lá ia á casa della, «de um pedaço de pampa e outro de pampeiro.» A imagem era um verso e rima, mas a mim só me ficou a idéa e o principal das palavras. Maria Cora gostava de ouvir definir-se assim, posto não andasse mostrando aquellas forças a cada passo, nem contando as suas memorias da adolescencia. A tia é que contava algumas, com amor, para concluir que lhe saia a ella, que tambem fôra assim na mocidade. A justiça pede que se diga que, ainda agora, apezar de doente, a tia era pessoa de muita vida e robustez.

Com pouco, apaixonei-me pela sobrinha. Não me pesa confessal-o, pois foi a occasião da unica pagina da minha vida que merece attenção particular. Vou narral-a brevemente; não conto novella nem direi mentiras.

Gostei de Maria Cora. Não lhe confiei logo o que sentia, mas é provavel que ella o percebesse ou adivinhasse, como todas as mulheres. Se a descoberta ou adivinhação foi anterior á minha ida á casa do Engenho Velho, nem assim deveis censural-a por me haver convidado a ir alli uma noite. Podia ser-lhe então indifferente a minha disposição moral; podia tambem gostar de se sentir querida, sem a menor idéa de retribuição. A verdade é que fui essa noite e tornei outras; a tia gostava de mim e dos meus modos. O poeta que lá ia, tagarella e tonto, disse uma vez que estava afinando a lyra para o casamento da tia commigo. A tia riu-se; eu, que queria as boas graças della, não podia deixar de rir tambem, e o caso foi materia de conversação por uma semana; mas já então o meu amor á outra tinha attingido ao cume.

Soube, pouco depois, que Maria Cora vivia separada do marido. Tinham casado oito annos antes, por verdadeira paixão. Viveram felizes cinco. Um dia, sobreveiu uma aventura do marido que destruiu a paz do casal. João da Fonseca apaixonou-se por uma figura de circo, uma chilena que voava em cima do cavallo, Dolores, e deixou a estancia para ir atraz della. Voltou seis mezes depois, curado do amor, mas curado á força, porque a aventureira se namorou do redactor de um jornal, que não tinha vintem, e por elle abandonou Fonseca e a sua prataria. A esposa tinha jurado não acceitar mais o esposo, e tal foi a declaração que lhe fez quando elle appareceu na estancia.

—Tudo está acabado entre nós; vamos desquitar-nos.

João da Fonseca teve um primeiro gesto de accordo; era um quadragenario orgulhoso, para quem tal proposta era de si mesma uma offensa. Durante uma noite tratou dos preparativos para o desquite; mas, na seguinte manhã, a vista das graças da esposa novamente o commoveram. Então, sem tom implorativo, antes como quem lhe perdoava, entendeu dizer-lhe que deixasse passar uns seis mezes. Se ao fim de seis mezes, persistisse o sentimento actual que inspirava a proposta do desquite, este se faria. Maria Cora não queria aceitar a emenda, mas a tia, que residia em Porto Alegre e fôra passar algumas semanas na estancia, interveiu com boas palavras. Antes de tres mezes estavam reconciliados.

—João, disse-lhe a mulher no dia seguinte ao da reconciliação, você deve ver que o meu amor é maior que o meu ciume, mais fica entendido que este caso da nossa vida é unico. Nem você me fará outra, nem eu lhe perdoarei nada mais.

João da Fonseca achava-se então em um renascimento do delirio conjugal; respondeu á mulher jurando tudo e mais alguma cousa. Aos quarenta annos, concluiu elle, não se fazem duas aventuras daquellas, e a minha foi de doer. Você verá, agora é para sempre.

A vida recomeçou tão feliz, como d'antes,—elle dizia que mais. Com effeito, a paixão da esposa era violenta, e o marido tornou a amal-a como outr'ora. Viveram assim dous annos. Ao fim desse tempo, os ardores do marido haviam diminuido, alguns amores passageiros vieram metter-se entre ambos. Maria Cora, ao contrario do que lhe dissera, perdoou essas faltas, que aliás não tiveram a extensão nem o vulto da aventura Dolores. Os desgostos, entretanto, appareceram e grandes. Houve scenas violentas. Ella parece que chegou mais de uma vez a ameaçar que se mataria; mas, posto não lhe faltasse o preciso animo, não fez tentativa nenhuma, a tal ponto lhe doia deixar a propria causa do mal, que era o marido. João da Fonseca percebeu isto mesmo, e acaso explorou a fascinação que exercia na mulher.

Uma circumstancia politica veiu complicar esta situação moral. João da Fonseca era pelo lado da revolução, dava-se com varios dos seus chefes, e pessoalmente detestava alguns dos contrarios. Maria Cora, por laços de familia, era adversa aos federalistas. Esta opposição de sentimentos não seria bastante para separal-os, nem se póde dizer que, por si mesma, azedasse a vida dos dous. Embora a mulher, ardente em tudo, não o fosse menos em condemnar a revolução, chamando nomes crús aos seus chefes e officiaes; embora o marido, tambem excessivo, replicasse com egual odio, os seus arrufos politicos apenas augmentariam os domesticos, e provavelmente não passariam dessa troca de conceitos, se uma nova Dolores, desta vez Prazeres, e não chilena nem saltimbanca, não revivesse os dias amargos de outro tempo. Prazeres era ligada ao partido da revolução, não só pelos sentimentos, como pelas relações da vida com um federalista. Eu a conheci pouco depois, era bella e airosa; João da Fonseca era tambem um homem gentil e seductor. Podiam amar-se fortemente, e assim foi. Vieram incidentes, mais ou menos graves, até que um decisivo determinou a separação do casal.

Já cuidavam disto desde algum tempo, mas a reconciliação não seria impossivel, apesar da palavra de Maria Cora, graças á intervenção da tia; esta havia insinuado á sobrinha que residisse tres ou quatro mezes no Rio de Janeiro ou em S. Paulo. Succedeu, porém, uma cousa triste de dizer. O marido, em um momento de desvario, ameaçou a mulher com o rebenque. Outra versão diz que elle tentára esganal-a. Quero crer que a veridica é a primeira, e que a segunda foi inventada para tirar á violencia de João da Fonseca o que pudesse haver deprimente e vulgar. Maria Cora não disse mais uma só palavra ao marido. A separação foi immediata; a mulher veiu com a tia para o Rio de Janeiro, depois de arranjados amigavelmente os interesses pecuniarios. Demais, a tia era rica.

João da Fonseca e Prazeres ficaram vivendo juntos uma vida de aventuras que não importa escrever aqui. Só uma cousa interessa directamente á minha narração. Tempos depois da separação do casal, João da Fonseca estava alistado entre os revolucionarios. A paixão politica, posto que forte, não o levaria a pegar em armas, se não fosse uma especie de desafio da parte de Prazeres; assim correu entre os amigos delle, mas ainda este ponto é obscuro. A versão é que ella, exasperada com o resultado de alguns combates, disse ao estancieiro que iria, disfarçada em homem, vestir farda de soldado e bater-se pela revolução. Era capaz disto; o amante disse-lhe que era uma loucura, ella acabou propondo-lhe que, nesse caso, fosse elle bater-se em vez della; era uma grande prova de amor que lhe daria.

—Não te tenho dado tantas?

—Tem, sim; mas esta é a maior de todas, esta me fará captiva até á morte.

—Então agora ainda não é até á morte? perguntou elle rindo.

—Não.

Póde ser que as cousas se passassem assim. Prazeres era, com effeito, uma mulher caprichosa e imperiosa, e sabia prender um homem por laços de ferro. O federalista, de quem se separou para acompanhar João da Fonseca, depois de fazer tudo para rehavel-a, passou á campanha oriental, onde dizem que vive pobremente, encanecido e envelhecido vinte annos, sem querer saber de mulheres nem de politica. João da Fonseca acabou cedendo; ella pediu para acompanhal-o, e até bater-se, se fosse preciso; elle negou-lh'o. A revolução triumpharia em breve, disse; vencidas as forças do governo, tornaria á estancia, onde ella o esperaria.

—Na estancia, não, respondeu Prazeres; espero-te em Porto Alegre.