IV

Não importa dizer o tempo que despendi nos inicios da minha paixão, mas não foi grande. A paixão cresceu rapida e forte. Afinal senti-me tão tomado della que não pude mais guardal-a commigo, e resolvi declarar-lh'a uma noite; mas a tia, que usava cochilar desde as nove horas (accordava ás quatro) d'aquella vez não pregou olho, e, ainda que o fizesse, é provavel que eu não alcançasse falar; tinha a voz presa e na rua senti uma vertigem egual á que me deu a primeira paixão da minha vida.

—Sr. Corrêa, não vá cair, disse a tia quando eu passei á varanda, despedindo-me.

—Deixe estar, não caio.

Passei mal a noite; não pude dormir mais de duas horas, aos pedaços, e antes das cinco estava em pé.

—É preciso acabar com isto! exclamei.

De facto, não parecia achar em Maria Cora mais que benevolencia e perdão, mas era isso mesmo que a tornava appetecivel. Todos os amores da minha vida tinham sido faceis; em nenhuma encontrei resistencia, a nenhuma deixei com dôr; alguma pena, é possivel, e um pouco de recordação. Desta vez sentia-me tomado por ganchos de ferro. Maria Cora era toda vida; parece que, ao pé della, as proprias cadeiras andavam e as figuras do tapete moviam os olhos. Põe nisso uma forte dose de meiguice e graça; finalmente, a ternura da tia fazia d'aquella creatura um anjo. É banal a comparação, mas não tenho outra.

Resolvi cortar o mal pela raiz, não tornando ao Engenho Velho, e assim fiz por alguns dias largos, duas ou tres semanas. Busquei distrair-me e esquecel-a, mas foi em vão. Comecei a sentir a ausencia como de um bem querido; apesar d'isso, resisti e não tornei logo. Mas, crescendo a ausencia, cresceu o mal, e emfim resolvi tornar lá uma noite. Ainda assim póde ser que não fosse, a não achar Maria Cora na mesma officina da rua da Quitanda, aonde eu fôra acertar o relogio parado.

—É freguez tambem? perguntou-me ao entrar.

—Sou.

—Vim acertar o meu. Mas, porque não tem apparecido?

—É verdade, porque não voltou lá á casa? completou a tia.

—Uns negocios, murmurei; mas, hoje mesmo contava ir lá.

—Hoje não; vá amanhã, disse a sobrinha. Hoje vamos passar a noite fóra.

Pareceu-me ler naquella palavra um convite a amal-a de vez, assim como a primeira trouxera um tom que presumi ser de saudade. Realmente, no dia seguinte, fui ao Engenho Velho. Maria Cora acolheu-me com a mesma boa vontade de antes. O poeta lá estava e contou-me em verso os suspiros que a tia dera por mim. Entrei a frequental-as novamente e resolvi declarar tudo.

Já acima disse que ella provavelmente percebera ou adivinhára o que eu sentia, como todas as mulheres; referi-me aos primeiros dias. D'esta vez com certeza percebeu, nem por isso me repelliu. Ao contrario, parecia gostar de se ver querida, muito e bem.

Pouco depois d'aquella noite escrevi-lhe uma carta e fui ao Engenho Velho. Achei-a um pouco retrahida; a tia explicou-me que recebera noticias do Rio Grande que a affligiram. Não liguei isto ao casamento, e busquei alegral-a; apenas consegui vel-a cortez. Antes de sair, perto da varanda, entreguei-lhe a carta; ia a dizer-lhe: «Peço-lhe que leia», mas a voz não saiu. Vi-a um pouco atrapalhada, e para evitar dizer o que melhor ia escripto, comprimentei-a e enfiei pelo jardim. Póde imaginar-se a noite que passei, e o dia seguinte foi naturalmente egual, á medida que a outra noite vinha. Pois, ainda assim, não tornei á casa d'ella; resolvi esperar tres ou quatro dias, não que ella me escrevesse logo, mas que pensasse nos termos da resposta. Que estes haviam de ser sympathicos, era certeza minha; as maneiras della, nos ultimos tempos, eram mais que affaveis, pareciam-me convidativas.

Não cheguei, porém, aos quatro dias; mal pude esperar tres. Na noite do terceiro fui ao Engenho Velho. Se disser que entrei tremulo da primeira commoção, não minto. Achei-a ao piano, tocando para o poeta ouvir; a tia, na poltrona, pensava em não sei qué, mas eu quasi não a vi, tal a minha primeira allucinação.

—Entre, Sr. Correia, disse esta; não caia em cima de mim.

—Perdão...

Maria Cora não interrompeu a musica; ao ver-me chegar, disse:

—Desculpe, se lhe não dou a mão, estou aqui servindo de musa a este senhor.

Minutos depois, veiu a mim, e estendeu-me a mão com tanta galhardia, que li nella a resposta, e estive quasi a dar-lhe um agradecimento. Passaram-se alguns minutos, quinze ou vinte. Ao fim desse tempo, ella pretextou um livro, que estava em cima das musicas, e pediu-me para dizer se o conhecia; fomos alli ambos, e ella abriu-m'o; entre as duas folhas estava um papel.

—Na outra noite, quando aqui esteve, deu-me esta carta; não podia dizer-me o que tem dentro?

—Não adivinha?

—Posso errar na adivinhação.

—É isso mesmo.

—Bem, mas eu sou uma senhora casada, e nem por estar separada do meu marido deixo de estar casada. O senhor ama-me, não é? Supponha, pelo melhor, que eu tambem o amo; nem por isso deixo de estar casada.

Dizendo isto, entregou-me a carta; não fôra aberta. Se estivessemos sós, é possivel que eu lh'a lesse, mas a presença de extranhos impedia-me este recurso. Demais, era desnecessario; a resposta de Maria Cora era definitiva ou me pareceu tal. Peguei na carta, e antes de a guardar commigo:

—Não quer então ler?

—Não.

—Nem para ver os termos?

—Não.

—Imagine que lhe proponho ir combater contra seu marido, matal-o e voltar, disse eu cada vez mais tonto.

—Propõe isto?

—Imagine.

—Não creio que ninguem me ame com tal força, concluiu sorrindo. Olhe, que estão reparando em nós.

Dizendo isto, separou-se de mim, e foi ter com a tia e o poeta. Eu fiquei ainda alguns segundos com o livro na mão, como se devéras o examinasse, e afinal deixei-o. Vim sentar-me defronte della. Os tres conversavam de cousas do Rio Grande, de combates entre federalistas e legalistas, e da varia sorte delles. O que eu então senti não se escreve; pelo menos, não o escrevo eu, que não sou romancista. Foi uma especie de vertigem, um delirio, uma scena pavorosa e lucida, um combate e uma gloria. Imaginei-me no campo, entre uns e outros, combatendo os federalistas, e afinal matando João da Fonseca, voltando e casando-me com a viuva. Maria Cora contribuia para esta visão seductora; agora, que me recusára a carta, parecia-me mais bella que nunca, e a isto accrescia que se não mostrava zangada nem offendida, tratava-me com egual carinho que antes, creio até que maior. Disto podia sair uma impressão dupla e contraria,—uma de acquiescencia tacita, outra de indifferença, mas eu só via a primeira, e sai de lá completamente louco.

O que então resolvi foi realmente de louco. As palavras de Maria Cora: «Não creio que ninguem me ame com tal força»—soavam-me aos ouvidos, como um desafio. Pensei nellas toda a noite, e no dia seguinte fui ao Engenho Velho; logo que tive occasião de jurar-lhe a prova, fil-o.

—Deixo tudo o que me interessa, a começar pela paz, com o unico fim de lhe mostrar que a amo, e a quero só e santamente para mim. Vou combater a revolta.

Maria Cora fez um gesto de deslumbramento. Daquella vez percebi que realmente gostava de mim, verdadeira paixão, e se fosse viuva, não casava com outro. Jurei novamente que ia para o Sul. Ella commovida, estendeu-me a mão. Estavamos em pleno romantismo. Quando eu nasci, os meus não acreditavam em outras provas de amor, e minha mãe contava-me os romances em versos de cavalleiros andantes que iam á Terra-Santa libertar o sepulcro de Christo por amor da fé e da sua dama. Estavamos em pleno romantismo.