SCENA IV
CAVALCANTE e MAGALHÃES
MAGALHÃES
Entra. Como passaste a noite?
CAVALCANTE
Bem. Dei um bello passeio; fui até ao Vaticano e vi o papa. (Magalhães olha espantado.) Não te assustes, não estou doudo. Eis o que foi: o meu cavallo ia para um lado e o meu espirito para outro. Eu pensava em fazer-me frade; então todas as minhas idéas vestiram-se de burel, e entrei a ver sobrepelizes e tochas; emfim, cheguei a Roma, apresentei-me á porta do Vaticano e pedi para ver o papa. No momento em que Sua Santidade appareceu, prosternei-me, depois estremeci, despertei e vi que o meu corpo seguira atraz do sonho, e que eu ia quasi caindo.
MAGALHÃES
Foi então que a nossa prima Carlota deu comtigo ao longe.
CAVALCANTE
Tambem eu a vi, e, de vexado, piquei o cavallo.
MAGALHÃES
Mas, então ainda não perdeste essa idéa de ser frade?
CAVALCANTE
Não.
MAGALHÃES
Que paixão romanesca!
CAVALCANTE
Não, Magalhães; reconheço agora o que vale o mundo com as suas perfidias e tempestades. Quero achar um abrigo contra ellas; esse abrigo é o claustro. Não sairei nunca da minha cella, e buscarei esquecer deante do altar...
MAGALHÃES
Olha que vaes cair do cavallo!
CAVALCANTE
Não te rias, meu amigo!
MAGALHÃES
Não; quero só accordar-te. Realmente, estás ficando maluco. Não penses mais em semelhante moça. Ha no mundo milhares e milhares de moças eguaes á bella Dolores.
CAVALCANTE
Milhares e milhares? Mais uma razão para que eu me esconda em um convento. Mas é engano; ha só uma, e basta.
MAGALHÃES
Bem; não ha remedio se não entregar-te á minha tia.
CAVALCANTE
Á tua tia?
MAGALHÃES
Minha tia crê que tu deves padecer de alguma doença moral,—e adivinhou,—e fala de curar-te. Não sei se sabes que ella vive na persuasão de que cura todas as enfermidades moraes.
CAVALCANTE
Oh! eu sou incuravel!
MAGALHÃES
Por isso mesmo deves sujeitar-te aos seus remedios. Se te não curar, dar-te-ha alguma distracção, e é o que eu quero. (Abre a charuteira, que está vazia). Olha, espera aqui, lê algum livro; eu vou buscar charutos. (Sae; Cavalcante pega num livro e senta-se.)