SCENA IX

D. HELENA, BARÃO

BARÃO, á porta.

Perdão, minha senhora; eu trazia um livro ha pouco...

D. HELENA, com o livro na mão.

Será este?

BARÃO, caminhando para ella.

Justamente.

D. HELENA

Escripto em sueco, penso eu...

BARÃO

Em sueco.

D. HELENA

Trata naturalmente de botanica.

BARÃO

Das gramineas.

D. HELENA, com interesse.

Das gramineas!

BARÃO

De que se espanta?

D. HELENA

Um livro publicado...

BARÃO

Ha quatro mezes.

D. HELENA

Premiado pela Academia de Stockolmo?

BARÃO, admirado.

É verdade. Mas...

D. HELENA

Que pena que eu não saiba sueco!

BARÃO

Tinha noticia do livro?

D. HELENA

Certamente. Ando anciosa por lel-o.

BARÃO

Perdão, minha senhora. Sabe botanica?

D. HELENA

Não ouso dizer que sim, estudo alguma cousa; leio quando posso. É sciencia profunda e encantadora.

BARÃO, com calor.

É a primeira de todas.

D. HELENA

Não me atrevo a apoial-o, porque nada sei das outras, e poucas luzes tenho de botanica, apenas as que póde dar um estudo solitario e deficiente. Se a vontade supprisse o talento...

BARÃO

Porque não? Le génie, c'est la patience, dizia Buffon.

D. HELENA, sentando-se.

Nem sempre.

BARÃO

Realmente, estava longe de suppôr que, tão perto de mim, uma pessoa tão distincta dava algumas horas vagas ao estudo da minha bella sciencia.

D. HELENA

Da sua esposa.

BARÃO, sentando-se.

É verdade. Um marido póde perder a mulher, e se a amar devéras, nada a compensará neste mundo, ao passo que a sciencia não morre... Morremos nós, ella sobrevive com todas as graças do primeiro dia, ou ainda maiores, porque cada descoberta é um encanto novo.

D. HELENA

Oh! tem razão!

BARÃO

Mas, diga-me V. Ex.: tem feito estudo especial das gramineas.

D. HELENA

Por alto... por alto...

BARÃO

Comtudo, sabe que a opinião dos sabios não admittia o periantho... (D. Helena faz signal affirmativo.) Posteriormente reconheceu-se a existencia do periantho. (Novo gesto de D. Helena.) Pois este livro refuta a segunda opinião.

D. HELENA

Refuta o periantho?

BARÃO

Completamente.

D. HELENA

Acho temeridade.

BARÃO

Tambem eu suppunha isso... Li-o, porém, e a demonstração é clarissima. Tenho pena que não possa lel-o. Se me dá licença, farei uma traducção portugueza e daqui a duas semanas...

D. HELENA

Não sei se deva acceitar...

BARÃO

Acceite; é o primeiro passo para me não recusar segundo pedido.

D. HELENA

Qual?

BARÃO

Que me deixe acompanhal-a em seus estudos, repartir o pão do saber com V. Ex. É a primeira vez que a fortuna me depara uma discipula. Discipula é, talvez, ousadia da minha parte...

D. HELENA

Ousadia, não; eu sei muito pouco; posso dizer que não sei nada.

BARÃO

A modestia é o aroma do talento, como o talento é o esplendor da graça. V. Ex. possue tudo isso. Posso comparal-a á violeta,—viola odorata de Linneo,—que é formosa e recatada...

D. HELENA, interrompendo

Pedirei licença á minha tia. Quando será a primeira licção?

BARÃO

Quando quizer. Póde ser amanhã. Tem certamente noticia da anatomia vegetal...

D. HELENA

Noticia incompleta.

BARÃO

Da physiologia?

D. HELENA

Um pouco menos.

BARÃO

Nesse caso, nem a taxonomia, nem a phytographia...

D. HELENA

Não fui até lá.

BARÃO

Mas ha de ir... Verá que mundos novos se lhe abrem deante do espirito. Estudaremos, uma por uma, todas as familias, as orchideas, as jasmineas, as rubiaceas, as oleaceas, as narciseas, as umbelliferas, as...

D. HELENA

Tudo, desde que se trata de flores.

BARÃO

Comprehendo: amor de familia.

D. HELENA

Bravo! um comprimento!

BARÃO, folheando o livro.

A sciencia os permitte.

D. HELENA, áparte.

O mestre é perigoso. (Alto.) Tinham-me dito exactamente o contrario; disseram-me que o Sr Barão era... não sei como diga... era...

BARÃO

Talvez um urso.

D. HELENA

Pouco mais ou menos.

BARÃO

E sou.

D. HELENA

Não creio.

BARÃO

Porque não crê?

D. HELENA

Porque o vejo amavel.

BARÃO

Supportavel apenas.

D. HELENA

Demais, imaginava-o uma figura muito differente, um velho macillento, melenas caídas, olhos encovados.

BARÃO

Estou velho, minha senhora.

D. HELENA

Trinta e seis annos.

BARÃO

Trinta e nove.

D. HELENA

Plena mocidade.

BARÃO

Velho para o mundo. Que posso eu dar ao mundo senão a minha prosa scientifica?

D. HELENA

Só uma cousa lhe acho inacceitavel.

BARÃO

Que é?

D. HELENA

A theoria de que o amor e a sciencia são incompativeis.

BARÃO

Oh! isso...

D. HELENA

Dá-se o espirito á sciencia e o coração ao amor. São territorios differentes, ainda que limitrophes.

BARÃO

Um acaba por annexar o outro.

D. HELENA

Não creio.

BARÃO

O casamento é uma bella cousa, mas o que faz bem a uns, póde fazer mal a outros. Sabe que Mafoma não permitte o uso do vinho aos seus sectarios. Que fazem os turcos? Extraem o succo de uma planta, da familia das papaveraceas, bebem-no, e ficam alegres. Esse licor, se nós o bebessemos, matar-nos-hia. O casamento, para nós, é o vinho turco.

D. HELENA, erguendo os hombros.

Comparação não é argumento. Demais, houve e ha sabios casados.

BARÃO

Que seriam mais sabios se não fossem casados.

D. HELENA

Não fale assim. A esposa fortifica a alma do sabio. Deve ser um quadro delicioso para o homem que despende as suas horas na investigação da natureza, fazel-o ao lado da mulher que o ampara e anima, testemunha de seus esforços, socia de suas alegrias, attenta, dedicada, amorosa. Será vaidade de sexo? Póde ser, mas eu creio que o melhor premio do merito é o sorriso da mulher amada. O applauso publico é mais ruidoso, mas muito menos tocante que a approvação domestica.

BARÃO, depois de um instante de hesitação e luta.

Falemos da nossa licção.

D. HELENA

Amanhã, se minha tia consentir. (Levanta-se) Até amanhã, não?

BARÃO

Hoje mesmo, se o ordenar.

D. HELENA

Acredita que não perderei o tempo?

BARÃO

Estou certo que não.

D. HELENA

Serei academica de Stockolmo?

BARÃO

Conto que terei essa honra.

D. HELENA, cortejando.

Até amanhã.

BARÃO, o mesmo.

Minha senhora! (D. Helena sae pelo fundo, esquerda, o barão caminha para a direita, mas volta para buscar o livro que ficára sobre a cadeira ou sophá).