X
O dia seguinte passou-o Pélagué a dispôr tudo para o enterro de Iégor. Á noite, quando tomava o chá, com Nicolao e Sofia, appareceu Sachenka, animada e expansiva, o que era para admirar. Vinha com as faces córadas, os olhos brilhantes, e Pélagué percebeu que ella trazia qualquer esperança risonha. Este radiante estado de espírito veio fazer uma irrupção barulhenta e tumultuosa no curso melancolico das recordações, mas sem o distraír era como uma viva claridade que tivesse brilhado de súbito n’aquellas trevas e que vinha incommodar a pequena reunião. Nicolao, pensativo, bateu na mesa:
—Acho-a mudada hoje, Sachenka!...
—Deveras! Póde ser! respondeu com uma risadinha de contentamento.
Pélagué lançou-lhe um mudo olhar de censura. Sofia fez notar, accentuando as palavras:
—Estavamos falando do Iégor.
—Que bello homem! não é verdade? exclamou Sachenka. Sempre tinha prontos nos labios um sorriso e um gracejo... Trabalhava tão bem! Era o artista da revolução; possuia em alto grao a idéa revoluccionaria, como um verdadeiro mestre! Com que simplicidade mas ao mesmo tempo com que veemencia elle sabia descrever-nos o homem—o homem falso, perverso e violento! Muito lhe devo eu!
Dizia isto a meia voz, com um sorriso de reflexão, mas que não lhe extinguia no olhar o brilho de alegria que era bem visivel e que nenhum dos trez compreendia. É que nos acontece ás vezes sentirmos prazer com um pezar, fazermos d’elle um brinquedo torturante que nos roe o coração. Mas Nicolao, Sofia e Pélagué, esses, não queriam deixar que se dissipasse a sua tristeza, nem abandonal-a aos sentimentos despreoccupados que Sachenka viera ali trazer; sem d’isso terem consciencia, defendiam o seu melancolico direito de se acolherem á dôr, e tentavam fazer entrar a recemchegada no circulo das suas preoccupações.
E, afinal, está morto! insistiu Sofia, fitando-a com attenção.
Ella vagueou pelos presentes interrogador olhar e baixou a fronte.
—Está morto?... repetiu em voz alta. Custa-me conformar-me com este facto.
Entrou a passear a todo o comprimento da sala, e em seguida, estacando de súbito, proseguiu em tom singular:
—Mas que significa isso: «Está morto?» O que foi que morreu? A minha estima pelo Iégor, a minha affeição por esse camarada, a memoria do que a sua intelligencia praticou, tudo isso morreu? A opinião que eu tinha d’elle—a d’um homem valente e leal—ficou por ventura aniquilada? Morreu tudo isso? Para mim, tudo isso, a melhor parte d’elle proprio, nunca ha de morrer, sei-o bem! Parece-me que ha sempre pressa de mais em se dizer que um homem morreu! Se os seus labios morreram, as suas palavras estão vivas no coração dos que as escutaram.
Muito commovida, tornou a sentar-se, encostou-se á mesa e continuou com mais brandura:
—Talvez sejam tolices o que digo, mas olhem, camaradas: creio na immortalidade da gente de bem!
—Teve alguma novidade? Está tão alegre! perguntou-lhe Sofia, amavel.
—Tive! respondeu Sachenka, confirmando a resposta com um aceno. Uma novidade muito agradavel, ao que julgo. Falei toda a noite com o Vessoftchikof. Antigamente não gostava d’elle; achava-o muito grosseiro, muito ignorante, o que realmente era verdade. Havia n’elle um mau humor, uma irritação indefinida e continua para com todos; estava sempre a antepôr-se a tudo com uma insistencia que chegava a aborrecer, sempre a falar de si mesmo... Aquelle homem tinha o que quer que fôsse de maldade, que enervava.
Interrompeu-se para sorrir e relanceou em torno um olhar radiante:
—E agora, não: fala já dos seus «companheiros». E se ouvissem como elle pronuncia esta palavra! Com uma veneração tão terna, com tanta meiguice, que ninguem o póde intimar! Caíu em si, sabe a força de que dispõe, sabe o que lhe falta... e hoje, o que sente sobre todas as coisas é o verdadeiro sentimento de camaradagem, uma immensa dedicação, capaz de ir ao encontro das maiores provações.
Escutava-a Pélagué, encantada com a alegria d’aquella rapariga, por hábito tão triste. Mas, ao mesmo tempo, no recondito do seu coração brotava secreto pensamento de inveja: «E o Pavel, que faz elle no meio de tudo isto?»
—Só pensa nos camaradas, continuava Sachenka; e sabem o que elle me persuadiu que fizesse? Que arranjasse uma fuga geral dos presos... É verdade! Diz que é facil.
Sofia ergueu a cabeça e, em tom de animação:
—E que lhe parece, Sachenka? É uma boa idéa.
A chavena de Pélagué entrou a tremer-lhe na mão; pousou-a sobre a meza. Sachenka ficou-se um instante calada, de sobrolho franzido, reprimindo o entusiasmo; depois, muito séria mas com um sorriso radiante, respondeu com alguma hesitação:
—Certo é que se as coisas são realmente como elle diz, devemos tentar... é o nosso dever.
Córou, deixou-se caír n’uma cadeira e nada mais acrescentou.
A mãe de Pavel esboçou um sorriso de muita meiguice, dizendo comsigo: «Querida! Querida da minha alma!» Sofia sorriu tambem; Nicolao soltou uma gargalhadinha, e attentou na rapariga, bondosamente. Então, ella ergueu a fronte, olhou em torno com severidade, e, pallida, com os olhos a faiscar, disse seccamente:
—Riem-se... Percebo porque é. Pensam que sou pessoalmente interessada no resultado da evasão, não é isto?
—Mas porquê, Sachenka? interrogou Sofia hypocritamente.
E, levantando-se d’onde estava, foi pôr-se ao lado d’ella. Pélagué achou a pergunta futil e humilhante para Sachenka e assim lho fez sentir com um olhar.
—Mas, então, não quero tratar de nada! exclamou Sachenka. Não quero tomar parte na discussão, desde o momento que consideram este projecto...
—Cale-se, Sachenka! disse Nicolao sem se exaltar.
A mãe de Pavel foi para a rapariga e afagou-lhe brandamente os cabellos. Sachenka agarrou-lhe logo a mão e voltando para ella o rosto, onde o sangue affluira, fitou-a, confusa. Sofia arrastou uma cadeira, sentou-se ao lado de Sachenka, passou-lhe o braço em volta da cinta e disse-lhe, ao passo que a fitava com curiosidade:
—Que caracter singular o seu!
—Sim, parece-me que disse tolice... mas é que eu gosto das coisas claras...
Nicolao interrompeu-a para dizer em tom sério e preoccupado:
—Se a evasão é possivel, trate-se d’isso, não temos que hesitar!... Mas antes de mais nada, é preciso saber se os companheiros encarcerados estarão d’accordo.
Sachenka curvou a fronte.
—Como se elles pudessem recusar! disse Pélagué, suspirando. O que eu não creio é que isso se possa fazer!
Todos ficaram calados.
—Deixem me falar com o Vessoftchikof, disse Sofia.
E Sachenka annunciou em voz baixa:
—Bem! amanhã lhe digo onde e quando póde encontral-o.
Nicolao approximou-se da velha, que estava lavando as chavenas.
—Vocemecê vae depois d’amanhã á cadeia; é preciso fazer chegar um bilhete ás mãos do Pavel. Compreende? É preciso que a gente saiba...
—Compreendo. Compreendo! interrompeu ella com vivacidade. Eu me encarrego de lho entregar.
—Vou-me embora! declarou Sachenka e, tendo distribuido pelos companheiros vigorosos apertos de mão, foi-se, sem mais uma palavra.
Poisou Sofia a mão no hombro de Pélagué e a sorrir:
—Queria ter uma filha como esta, Pélagué?
—Meu Deus! Se eu pudesse vel-os casados, ainda que não fôsse senão um dia! exclamou a bôa mulher quasi a chorar.
—Sim, a felicidade de cada um consiste em ser-se um bocadinho feliz... Quando essa felicidade é demasiada, tambem é de qualidade inferior.
E Sofia foi para o piano tocar uma musica triste.