XI

Na manhã seguinte, apinhavam-se ao portão de ferro do hospital algumas duzias de homens e de mulheres, á espera que saísse o enterro do companheiro. Pelo meio d’elles, cautelosamente, giravam varios espiões, escutando cada exclamação, retendo de memoria rostos, gestos e palavras; no passeio fronteiro, estava um grupo de policias, de revolvers á cinta. A imprudencia dos primeiros e os risos irónicos dos segundos, a fazerem alarde da força, irritavam o povo.

Uns disfarçavam a ira que os possuia e gracejavam; outros, ficavam-se cabisbaixos, olhando para o chão, para não verem aquelle apparato ultrajante; outros ainda, incapazes de conter o seu furor, zombavam dos poderes públicos e do seu medo de gente que por armas só tinha o dom da fala. Um ceu de outono, de azul muito pallido, illuminava a rua calcetada a seixos redondos, semeada de folhas mortas, que as lufadas erguiam em remoinhos diante dos pés dos transeuntes.

Entre a multidão, estava Pélagué. Ia contando as caras conhecidas e pensava tristemente:

—Não são bastantes!... não são bastantes!

O portão rodou nos gonzos. Trouxeram para a rua a tampa do caixão, enfeitada com corôas de fitas encarnadas. Silenciosos, os homens tiraram a um tempo os seus chapeus: dir-se-ia uma revoada de passaros pretos que se tivesse levantado das cabeças. Um official da policia, de avantajada estatura, de grossos bigodes escuros atravessados n’um rosto vermelhaço, cercado de policias e soldados, precipitou-se por entre o povo, empurrando todos sem cerimonia, e gritou com voz roufenha e autoritaria:

—Tenham a bondade de tirar as fitas!

N’um prompto viu-se rodeado de homens e mulheres, em circulo compacto, falando todos á uma, gesticulando, empurrando-se uns aos outros. Perante o olhar turvado de Pélagué, agitaram-se em confusão rostos lividos e excitados, com os beiços a tremer de ira; e pelas faces d’uma mulher corriam pesadas lagrimas d’humilhação.

—Abaixo a prepotencia! gritou uma voz juvenil que se sumiu, desacompanhada, no borborinho da discussão.

Pélagué sentia referver-lhe a amargura; voltou-se para o seu visinho, rapaz pobremente vestido, e disse-lhe:

—Até não nos deixam enterrar um camarada, como entendermos!...

Augmentava a hostilidade, a tampa do esquife vacillava por sobre as cabeças, as fitas agitadas pelo vento envolviam os rostos e as cabeças; ouvia-se-lhes o crepitar nervoso e secco da seda.

Pélagué, tomada de terror gelido por uma desordem possivel, dirigia aos que lhe ficavam proximos e a meia voz, frases rapidas:

—Que importa!... Uma vez que tem de ser... tirem-se as fitas... é melhor ceder... Para que serve resistir?

Resoou uma voz aspera e sonora, que dominou o tumulto:

—Queremos que nos deixem acompanhar á sua ultima morada um companheiro que vocês martyrisaram!

Alguem,—alguma rapariga com certeza—poz-se a entoar n’uma voz aguda e fina:

E vós caístes, victimas, na lucta...

—Façam favor de tirar as fitas! Jakovlef! corta essas fitas!

Ouviu-se o tinido d’uma espada a saír d’uma bainha. Pélagué fechou os olhos, na espectativa d’um grito. Mas tudo socegou; o povo rosnava, mostrava os dentes como os lobos perseguidos. Depois, de cabeça baixa, em silencio, esmagados sob o sentimento da impotencia, puzeram-se a caminho, fazendo ecoar pela rua o ruido dos passos.

Á frente, a tampa do caixão despojada dos seus ornatos, com as corôas esfrangalhadas, lá ia erguida no ar; depois, vinham os agentes de policia, balançando-se d’um e outro lado, em cima dos cavallos. Pélagué seguia pelo passeio; não podia enxergar o caixão, devido á muita gente que o cercava; augmentava sem cessar o número dos manifestantes, que occupavam já toda a largura do calcetamento. Atraz da multidão, alteavam-se tambem os vultos uniformes e cinzentos dos guardas de cavalaria; de cada lado, polícias, com a mão nos copos das espadas; e, por toda a parte, divisava Pélagué caras de espiões com os agudos olhares a prescrutarem as fisionomias.

Adeus, companheiro, adeus! cantaram suavemente duas vozes bonitas.

—Silencio! gritou alguem. Calem-se, amigos! Calem-se por emquanto!

Havia n’esta exclamação uma rudeza tão suggestiva de ameaçador conselho, que o povo calou-se. O canto funebre ficou interrompido, e o ruido das vozes socegou; só se ouviam agora passos amortecidos, n’um tropel que se elevava muito alto, que se perdia na transparencia do ceu, agitando a atmosfera, assim como o ecco do primeiro trovão de tempestade ainda longinqua. O vento, cada vez mais frio, atirava aos rostos, com animosidade, poeira e lama entumecia os vestidos, entorpecia as pernas, vergastava os peitos...

Aquelle funeral silencioso, sem um sacerdote, sem um cantico, aquellas fisionomias oppressas e carrancudas, aquelle ruido de passos energicos, tudo provocava em Pélagué pungente angustia; o pensamento redemoinhava-lhe indeciso, revestindo de frases tristes as suas impressões:

—Ah! que não sois bastantes... luctadores da liberdade, não sois bastantes! E comtudo teem-vos medo!

Afigurava-se-lhe não ser aquelle mesmo Iégor seu conhecido que ia a enterrar, mas sim uma coisa habitual, que lhe fôsse intima e indispensavel. Dominava-a um sentimento de violenta revolta: não estava d’accordo com aquella gente. Pensava:

—Sei-o bem: Iégor não cria em Deus, como estes tambem não crêem...

Mas não conseguia concluir a sua idéa e suspirava, como a querer desembaraçar a alma de pesado fardo:

—Ó Senhor! Senhor!... Jesus!... Será possivel que tambem eu vá a enterrar assim?...

Chegaram ao cemiterio. Depois de muitas voltas por entre os sepulcros, parou o cortejo n’um vasto espaço livre, semeado de cruzinhas brancas. A multidão agrupou-se em torno d’uma cova e estabeleceu-se silencio. E este austero silencio dos vivos, entre tumulos, presagiava alguma coisa terrivel que sobresaltava o coração de Pélagué. Immobilisou-se então na espectativa. O vento uivava por entre as cruzes; em cima do caixão adejavam tristemente flôres murchas.

A gente da policia, vigilante, tinha-se alinhado, seguindo com os olhares os movimentes do chefe. Então, um rapaz alto, pallido, com a cabeça descoberta, negras sobrancelhas e comprido cabello negro, foi postar-se junto do coval. No mesmo instante, ouvia-se a voz roufenha do official da policia.

—Meus senhores!...

—Companheiros! começou o rapaz com voz sonora.

—Perdão! gritou o official. Tenho a declarar-lhes que não consinto discursos.

—Limitar-me-ei a dizer algumas palavras, observou socegadamente o orador: «Companheiros! Juremos sobre a sepultura do nosso mestre e amigo nunca esquecermos os seus ensinamentos, juremos trabalhar cada qual toda a nossa vida e sem descanso, para destruir a origem de todos os infortunios da nossa patria, a forca damninha que a opprime, a autocracia!»

—Prendam-no! gritou o official.

Mas logo teve a voz coberta por uma explosão de gritos:

—Morra a autocracia!

Afastando a multidão, ás cotovelladas, os polícias atiraram-se para o orador, a quem o povo formava estreito circulo, emquanto elle bradava:

—Viva a liberdade! É por ella que devemos viver e morrer!

Pélagué foi arrebatada para longe. Transida de terror, agarrou-se a uma cruz e fechou os olhos, á espera do golpe que havia de feril-a. Ensurdecia-a um turbilhão impetuoso de sons discordantes; sentia faltar-lhe o solo debaixo dos pés; opprimiam-lhe a respiração o vento e o medo. Os apitos da policia rasgavam o ar; resoavam vozes roucas, de commando; mulheres soltavam gritos nervosos; estralejavam madeiras das divisorias de covaes; no terreno, secco, resoava lugubremente o pesado tropel de toda aquella gente. Durou isto muito tempo.

Pélagué não podia conservar por maior espaço os olhos fechados; era demasiado lancinante o seu horror. Olhou em volta, e soltando uma exclamação entrou a correr, de braços estendidos. Não longe, em estreito carreiro, entre tumulos, estavam os policias cercando o rapaz de cabello preto e defendendo-se dos ataques da populaça. Scintillavam pelo ar com brancos e frios reflexos, as laminas desembainhadas; elevavam-se acima das cabeças e caíam rapidamente. Bengalas, destroços dos tapumes surgiam, para logo desapparecerem; em selvagem torvelinho, cruzavam-se os gritos da multidão amotinada; de vez emquando, divisava-se o rosto pallido do rapaz; com voz forte que dominava a tempestade das iras, bradava:

—Camaradas! Para que serve sacrificarem-se inutilmente?

Acabaram por lhe obedecer. Atiraram para longe os cacetes e uns apóz outros, foram-se afastando. Pélagué continuava a caminhar, arrastada por força invencivel. Viu Nicolao, com o chapeu para a nuca, a repellir os manifestantes, cegos de colera; ouviu-o dirigindo-lhes censuras:

—Endoideceram?... Soceguem!

Pareceu-lhe que trazia uma das mãos toda ensanguentada.

—Vá-se d’aqui Nicolao! gritou, atirando-se-lhe ao encontro.

—Onde vae a correr? Olhe que lhe fazem mal!

Sentiu-se agarrar por um hombro. Voltou-se. Era Sofia, sem chapeu, os cabellos em desalinho, sustendo nos braços um rapaz, quasi uma criança, que limpava á mão o rosto tumefacto e balbuciava com os beiços a tremer:

—Deixem-me... não é nada!

—Veja se trata d’elle. Leve-o para nossa casa.

Aqui tem um lenço... amarre-lhe a cabeça! disse Sofia rapidamente.

E introduzindo entre as mãos de Pélagué a mão do rapaz, deitou a correr, com um ultimo conselho:

—Vão se depressa, se não são presos!

Os manifestantes precipitavam-se por todas as saídas do cemitério; atraz d’elles, os polícias marchavam pesadamente por entre as sepulturas. Embaraçados com as compridas abas das fardetas, praguejavam e brandiam as espadas. O rapaz seguia-os de longe, com a vista.

—Vamos, depressa! disse-lhe Pélagué com brandura. E limpou-lhe o rosto.

O pequeno lançou um escarro de sangue e ciciou:

—Não lhe dê cuidado... não sinto nada. O polícia bateu-me com o punho da espada, na cara e na cabeça... E eu dei-lhe com o meu pau... Sempre apanhou uma sova!... Até uivava!

—Depressa! instava Pélagué, dirigindo-se rapida, para uma pequena aberta do muro do cemitério.

Pareceu-lhe distinguir para além do muro dois policias á espreita, disfarçados com a verdura e que os esperavam, para lhes saltarem em cima á pancada, tão depressa elles apparecessem. Mas depois de ter empurrado a portinha com precaução, espraiou a vista pelo campo, todo envolvido no tecido pardacento d’aquelle crepusculo outonal. O silencio e a quietação que n’elle reinavam tranquillisaram-na de súbito.

—Espere, deixe-me ligar-lhe a cabeça, propôz.

—Não senhora; não tenho que me envergonhar das minhas feridas.

Pélagué pensou-o summariamente.

Aquelle sangue fresco e vermelho apiedou-a immenso; ao sentir-lhe com os dedos a quente humidade, toda a percorreu um estremecimento de terror. Em seguida, conduziu o ferido pelo braço, pelo campo fóra, sem proferir uma palavra. Elle libertou os lábios da ligadura para dizer alegremente:

—Para que vae a puxar por mim, camarada? Eu posso bem caminhar sósinho!

Mas Pélagué sentia-o cambaliar, o andar vacillava-lhe. A voz ia-lhe enfraquecendo emquanto falava, interrogando-a sem esperar as respostas.

—Chamo-me Ivan, sou funileiro... e a senhora quem é? Eramos trez no club do Iégor... trez funileiros; ao todo, eramos onze! Gostavamos muito d’elle.

Na rua mais proxima, Pélagué tomou um trem e para elle fez subir Ivan, segredando-lhe:

—Agora, cale-se.

E para mais segurança, puxou-lhe outra vez a ligadura para a bocca. Elle levou logo a mão á cara, mas não conseguiu libertar os lábios; o braço recaíu inerte sobre os joelhos. Ainda assim, continuava a murmurar atravez do lenço:

—Nunca me esquecerei d’estas pancadas, amiguinhos da policia!... Antes do Iégor, era um estudante que nos dirigia... Ensinava-nos economia politica... Era muito rigoroso, muito aborrecido... Afinal, prenderam-no.

Ella passou-lhe o braço em volta e descansou no seio a cabeça do rapaz. De súbito, sentiu que lhe pesava mais, ao mesmo tempo que se tinha calado. Transida de medo, Pélagué olhava para todos os lados; parecia-lhe ver a cada esquina um polícia, pronto a agarrar Ivan e a matal-o.

O cocheiro voltou-se na almofada, com um sorriso:

—Bebeu, an?

—É verdade, até caír! respondeu ella, suspirando.

—É teu filho?

—É, sim. É sapateiro... Eu sou cosinheira...

—Ah, sim! É duro officio!

Descarregou uma chicotada no cavallo e logo tornou a voltar-se. Baixou a voz.

—Sabes? Houve ha pouco grande desordem no cemitério. Era o enterro d’um d’esses políticos, d’essa gente que está contra a autoridade... que tem questões com a polícia. Havia amigos do defunto no acompanhamento... Elles então puzeram-se a gritar: «Morram as autoridades, que arruinam o povo»!? A polícia bateu-lhes. Dizem que alguns ficaram mortos... Mas a policia tambem apanhou pancada.

Calou-se o cocheiro, abanou a cabeça com ares de desconsolo e proseguiu n’um tom de voz estranho:

—Assim se vão incommodar os mortos... accordar os cadaveres que dormem!

O trem ia aos salavancos pela calçada, chiando muito; a cabeça de Ivan rolava suavemente no peito da sua enfermeira. O cocheiro, virado para elles, continuou, pensativo:

—Anda a agitação entre o povo... As desordens parece que se levantam debaixo dos pés... É verdade! Esta noite veio a polícia a casa d’uns visinhos. Fizeram lá não sei o quê até pela manhã e depois, quando se foram, levaram preso um que é ferreiro. Dizem que uma noite d’estas vão leval-o ali á beira no rio e afogam-no em segredo. E todavia, era um homem intelligente, aquelle ferreiro.

—Como se chama elle? perguntou a velha.

—O ferreiro? Chama-se Savyl, mas tem um outro nome: Evetchenko. É muito mocinho ainda, mas já compreendia muitíssimas coisas, e é proíbido compreendel-as, ao que parece...

Ás vezes, apparecia lá pelas estações de carroagens e dizia-nos: «Que vida que vocês levam cocheiros!»

—É verdade, respondiamos-lhe nós, o nosso officio é peor que o dos cães!»

—Pára ahi! ordenou Pélagué.

O sobresalto produzido fez então que Ivan voltasse a si. Entrou a gemer devagarinho.

—Esse rapaz está muito doente, observou o cocheiro.

Vacillante, Ivan atravessou o páteo, custando-lhe collocar um pé adiante do outro.

—Não é nada, dizia. Ando perfeitamente...