XII
Sofia já estava de volta. Atarefada e mexendo-se muito, recebeu a velha, de cigarro na bocca. Deitou o ferido n’um canapé e ligou-lhe com perícia a cabeça, ao mesmo tempo que ia dando ordens. O fumo do cigarro obrigava-a a piscar os olhos:
—Doutor, ahi os tem. Sente-se fatigada, Pélagué? Teve muito medo, não é assim? Está bem, descanse agora um bocado... Nicolao vae-lhe já buscar o chá e um copo de Porto.
Emocionada por taes acontecimentos, Pélagué respirava com difficuldade e resentia-se de uma dolorosa sensação de picada no seio.
—Não se importem commigo, murmurou.
E toda a sua pessôa, transida de medo, supplicava um affago, um pouco de attenção... Nicolao veio do quarto contiguo. Trazia a mão ligada. Atraz d’elle entrou o médico, com os cabellos desgrenhados, como um ouriço. Correu para Ivan, curvou-se a examinal-o e pediu:
—Agua, muita agua! Pannos de linho limpos! Algodão em rama!
Já Pélagué se dirigia á cosinha, mas Nicolao travou-lhe do braço e disse-lhe affectuosamente, levando-a para a casa de jantar:
—Não é comsigo que elle fala, é com a Sofia. A minha querida amiga passou por bastantes commoções, não é verdade?
Aquelle falar apiedado respondeu ella com um soluço mal contido e exclamou:
—Ah! que horrivel coisa!... A espadeirarem o povo... a espadeirarem!
—Eu tambem lá estava, disse Nicolao, com um aceno confirmativo de cabeça. E encheu um copo de vinho quente. Dos dois lados houve egual exaltação... Mas não tenha receio; a polícia aggrediu só com a parte mais larga das espadas; só uma pessoa ficou ferida gravemente, ao que me parece... e essa vi-a eu caír ao pé de mim... Puxei-a até para fóra da batalha.
A fisionomia e a voz com que Nicolao lhe falava, a claridade e o calor que reinavam no aposento, socegaram os nervos de Pélagué. Dispensou ao seu hospedeiro um olhar de reconhecimento e perguntou-lhe:
—Tambem ficou ferido?
—Sim, e creio que por culpa minha... Sem querer, rocei com a mão não sei por quê e fiquei com a pelle arrancada. Beba o seu vinho... Faz frio e vocemecê tem um fato tão leve!...
Ella estendeu as mãos para o copo e reparou que tinha os dedos cheios de sangue coagulado. Em gesto instinctivo, deixou caír os braços sobre os joelhos. Tinha a saia húmida. Esgazeou os olhos, com as sobrancelhas muito erguidas, examinou furtivamente os dedos. A cabeça andava-lhe á roda, uma idéa martelava-lhe no cérebro:
—Ahi está, ahi está o que espera o Pavel um dia!
Voltou o médico. Vinha em mangas de camisa e estas arregaçadas. A uma interrogação muda de Nicolao, respondeu com a sua vozinha delgada:
—A ferida do rosto é insignificante, mas houve fractura do craneo, que tambem não é muito grave... O rapazola é valente, mas ainda assim perdeu muito sangue. Vamos leval-o para o hospital.
—Para quê? Póde ficar aqui! accudiu Nicolao.
—Hoje e ámanhã talvez, mas depois era preferivel que se tratasse no hospital, não tenho tempo para visitas. Encarregas-te do relatório do que se passou no cemitério?
—Bem entendido! respondeu Nicolao.
Pélagué levantou-se então sem fazer bulha e dirigia-se para a cosinha.
—Onde vae? exclamou Nicolao alvoroçado. Deixe lá a Sofia governar-se sósinha!
Com um olhar e um sorriso involuntário, singular, respondeu a tremer:
—Estou toda suja de sangue... Estou toda suja de sangue!
E ao mudar de roupa, no seu quarto, mais uma vez ficou a meditar na serenidade d’aquella gente, n’aquella faculdade de que dispunham de não demorar muito tempo o pensamento no horror dos acontecimentos. Esta reflexão fêl-a caír em si, vencendo o sentimento de terror de que estava possuida. Quando voltou ao quarto onde jazia o ferido, Sofia, curvada sobre este, dizia-lhe:
—Que tolice, camarada!
—Mas eu vou incommodal-os! observou elle em voz debil.
—Cale-se; é o melhor que tem a fazer.
Pélagué parou por detraz d’ella e pousou-lhe a mão no hombro; fitou depois, sorrindo, o rosto muito branco do ferido e pôz-se a contar o medo que lhe tinha causado o seu accesso de delírio, no trem. Ivan escutava-a com os olhos a arder em febre; fazia estalar os beiços e exclamava de vez em quando, como que envergonhado:
—Oh, que tolo que eu sou!
—Bem, agora vamos deixal-o, declarou Sofia compondo-lhe as roupas que o cobriam. Descanse!
E as duas mulheres passaram para a casa de jantar, onde, com Nicolao e o médico, por muito tempo conversaram baixinho sobre os acontecimentos d’esse dia. Já o drama era tratado como coisa remota, já se falava do futuro com tranquillidade; preparava-se a tarefa de ámanhã. Se os rostos exprimiam a fadiga, os pensamentos latejavam vivos. O doutor mexia-se nervosamente na cadeira, esforçando-se por velar a voz, que tinha aguda e esganiçada:
—Ora, a propaganda!... Não basta; os operários têem razão: é necessario exercer a agitação em terreno mais vasto. Creiam que os operários têem razão!
Nicolao acrescentou com ar desconsolado:
—Por toda a parte se queixam da insufficiencia dos livros e ainda não conseguimos montar uma bôa imprensa... A Lioudmila está esgotada de forças, vae nos caír doente, se não lhe arranjarmos collaboradores.
—E o Vessoftchikof? perguntou Sofia.
—Esse não póde residir na cidade. Ha de entrar para o serviço da nova imprensa... mas falta-nos ainda alguem...
—E se eu pudesse servir? propôz a velha com brandura.
Os trez fitaram-na um momento.
—É uma bôa idéa! exclamou Sofia de repente.
—Não; é muito difficil para você, creia, Pélagué, contestou Nicolao com secura. Era preciso que fôsse viver para fóra da cidade, que não pensasse mais em ver o Pavel, e em geral...
Ella replicou, suspirando:
—Olhe que não faria grande falta ao Pavel... e pela minha parte, tambem essas visitas me partem o coração. É proibido falar seja do que fôr! Até pareço uma idiota aos olhos do meu filho! Estão ali mesmo, sempre a espiar-nos!
Os recentes acontecimentos haviam-na fatigado, e agora, quando se lhe apresentava ensejo de afastar a idéa dos dramas da cidade, era quando se agarrava a esse assunto com todas as forças.
Mas Nicolao mudou o curso da conversa.
—Em que pensas? perguntou elle ao doutor.
Este, mal humorado, respondeu:
—Somos poucos! Aqui tens em que penso... É absolutamente necessario trabalhar com mais energia. É necessario decidir o André e o Pavel a evadirem-se; são dois trabalhadores preciosos de mais para estarem na inacção.
Nicolao franziu o sobrolho, meneou a cabeça em ar de dúvida e lançou um rápido olhar para a mãe de Pavel. Percebeu que se constrangiam em falar do filho diante d’ella e foi para o seu quarto, levemente irritada contra quem tão pouco se preoccupava com os seus desejos.
Deitou-se e, de olhos abertos, embalada pelo ciciar das vozes, sentiu-se tomada de inquietação. Parecia-lhe incompreensivel o dia que acabava de decorrer, cheio de allusões ameaçadoras; mas porque este genero de reflexão lhe fôsse penoso, afastou-as do cérebro e entrou de pensar no seu filho. Queria vel-o em liberdade e, ao mesmo tempo, tal idéa assustava-a; sentia que tudo se lhe agitava em torno; a situação tornava-se cada vez mais tensa, andavam imminentes violentas collisões. A paciencia do povo dera logar a enervada espectativa; crescia visivelmente a irritação publica, ouviam-se com frequencia frases rancorosas, de toda a parte soprava um hálito novo, um vento d’excitação. As proclamações eram discutidas animadamente no mercado, nas lojas, entre a criadagem e os artifices; cada prisão que na cidade se effectuasse despertava ecos tímidos, mas inconscientemente simpaticos e as suas causas eram commentadas. Pélagué ouvia agora com mais frequencia a gente do povo pronunciar as palavras que outrora a amedrontavam tanto: «socialistas, política, revolta». Taes palavras eram repetidas com ironia, mas esta ironia não chegava a disfarçar o fim principal, que era o de se informarem das opiniões; com colera, mas sob esta colera transparecia o medo, e todos andavam pensativos, entre alternativas de esperança e de ameaça... Em vastos circulos, lentamente, ia-se propagando a agitação na vida sombria e estagnada do povo; despertava o pensamento adormecido; os acontecimentos diarios já não eram tratados com o socego habitual e a antiga placidez dos fortes. Pélagué notava tudo isto mais distinctamente do que os seus companheiros, pois que melhor do que elles conhecia o aspecto desconsolador da vida, d’ella vivia mais proxima e n’ella divisava simtomas de reflexão e de irritação, uma sêde vaga de alguma coisa nova, o que a regosijava e assustava-a um tempo. Regosijava-se porque tudo considerava obra de seu filho; assustava-se porque sabia que elle, mal saísse da cadeia, logo iria collocar-se no posto mais perigoso, á frente dos companheiros... e que ali havia de morrer.
Sentia muitas vezes Pélagué agitarem-lhe o espirito os grandes ideaes indispensaveis á humanidade e experimentava o desejo de falar da verdade, mas quasi nunca conseguia realisar o seu desejo. N’esta mudez forçada, os seus secretos pensamentos acabrunhavam-na. Por vezes, a imagem do filho tomava a seus olhos as proporções giganteas d’um heroe de lenda; n’elle resumia todas as maximas fortes e leaes que ouvira, todos os seus affectos, todas as coisas grandes e luminosas que o seu espirito abraçava. Contemplava-o então com mudo entusiasmo; ufana, enternecida, nadando em esperança, dizia comsigo:
—Tudo ha de ir bem!... tudo!
O seu amor materno exaltava-se, comprimia-lhe o coração até fazel-o sangrar, mas impedia que n’elle o amor pela humanidade se desenvolvesse, chegando a destruil-o de todo; e no logar d’este grande sentimento só ficava uma minúscula idéa fixa a palpitar timidamente nas cinzas frias da inquietação:
—Vae morrer... Vae morrer!...
Adormeceu tardíssimo em profundo somno, mas accordou logo muito cedo, com o corpo dorido e a cabeça pesada.