XIX
Veio abrir-lhe Nicolao, despenteado, com um livro na mão.
—Já?! exclamou alegremente. Está bem!... Estou mais contente agora!
Piscava os olhos, amigavelmente, por detraz dos oculos. Ajudou Pélagué a tirar a capa e disse-lhe, fitando-a affectuosamente:
—Sabe? Vieram cá fazer uma busca esta noite. Eu perguntava a mim proprio porquê. Receei que lhe tivesse acontecido alguma coisa... Mas deixaram-me em paz, e logo soceguei: se a tivessem prendido, não me deixavam assim com certeza!
Levou-a para a casa de jantar. Pelo caminho, ia contando animadamente:
—Ainda assim, fui despedido da repartição. Pouco desgosto me dá... Estava já farto da estatistica do gado cavallar que não existe nas herdades!... Tenho mais que fazer!
Attentando-se no aspecto da sala, dir-se-ia que mãos vigorosas, em estupido accesso de furia, haviam saccudido pela parte de fóra as paredes da casa, até tudo ficar em completa desordem. Os retratos jaziam pelo chão, os reposteiros e sanefas arrancados, pendiam em farrapos; em determinado sitio uma taboa do sobrado fôra levantada, o peitoril da janella, arrombado; ao pé do fogão, cinzas espalhadas.
Na mesa, ao lado do samovar sem lume, estava loiça suja, presunto e queijo em cima d’um pedaço de papel, nacos de pão, livros e carvão, Pélagué sorriu. Nicolao mostrou-se confundido.
—Fui eu que completei a desordem... mas não faz mal. Parece-me que voltam cá hoje, e tanto que nem ainda comi nada. E então fêz boa viagem?
Esta pergunta como que a magoou pesadamente em pleno peito: de novo a imagem de Rybine se ergueu na sua memoria; sentiu-se culpada por não ter falado d’elle logo ao chegar. Approximou-se de Nicolao e entrou a contar-lhe tudo, deligenciando permanecer calma e não omittir pormenor algum.
—Foi preso!
Nicolao teve um sobresalto.
—Preso! Mas como?
Ella com um gesto, fêl-o calar e proseguiu, como se, face a face, o rosto da propria justiça se encontrasse na sua frente e a ella estivesse reclamando contra o supplício a que assistira. Nicolao, reclinado na cadeira escutava-a, fazia-se pallido e mordia os beiços. A certa altura, lentamente, tirou os oculos, pousou-os na meza, passou a mão pela cara, como se estivesse a limpal-a d’uma invisivel teia d’aranha. As feições accentuaram-se-lhe, as maçãs do rosto tornaram-se-lhe singularmente salientes, palpitaram-lhe as narinas. Era a primeira vez que Pélagué o via n’aquella excitação, o que não deixou de a assustar.
Quando acabou a narrativa, viu-o levantar-se em silencio e pôr-se a caminhar em grandes passadas, de punhos cerrados nas algibeiras. Por fim, murmurou, comprimindo os dentes:
—Deve ser um homem extraordinario!... Que heroismo! E vae soffrer n’uma prisão como soffrem todos os que a elle se assemelham!
Depois, parou em frente da sua narradora; ajuntou com voz vibrante:
—Evidentemente todos esses commissarios, esses officiaes, não passam d’uns instrumentos, d’uns cacetes de que sabe servir-se um patife intelligente, um domesticador de animaes! Mas urge dar cabo do animal, para o castigar de se ter deixado transformar em féra! Eu cá, matava-o logo, esse cão damnado!
Enterrava mais profundamente os punhos nas algibeiras, tentando, mas de balde, reprimir aquella commoção de que Pélagué tambem se resentia. Tinha os olhos contraídos como laminas de facas. Entrou de novo a passear e ao mesmo tempo ia dizendo com frio rancor:
—Ora vejam que coisa horrivel! Uma meia duzia d’homens espancam, suffocam e opprimem toda a gente, para defenderem o funesto poderio de que gozam sobre o povo! A ferocidade recrudesce, a crueldade torna-se lei universal! É para meditar!... Uns batem e procedem como bestas, porque estão certos da impunidade, porque os morde o desejo voluptuoso de torturar, como a repugnante volupia dos escravos a quem se permittia que manifestassem os instinctos servis e os habitos besteaes, em toda a sua hediondez! Os outros envenena-os a vingança, e ainda os terceiros, bestificados sob os maus tratados, tornam-se cegos, tornam-se mudos!... E assim pervertem o povo, um povo inteiro!
Deteve-se novamente, agarrou a cabeça entre as mãos.
—É para bestialisar, mesmo sem se querer, essa vida feroz! concluiu em voz baixa.
Depois, dominou-se. Brilhava-lhe agora no olhar uma expressão decidida. E foi quasi com tranquillidade que fitou a velha, cujo rosto as lagrimas inundavam.
—Não temos tempo a perder, Pélagué. Onde está a sua mala?
—Na cosinha.
—Está a casa cercada de espiões, não é possivel passar para fóra tal quantidade de impressos, sob pena de sermos vistos... Não sei onde os hei de occultar... Parece-me que a policia ha de voltar esta noite... Não quero que seja presa. Ainda que muito nos custe, vamos queimar tudo isso.
—O quê? perguntou ella.
—O que está dentro da mala.
Foi então que ella compreendeu e, por grande que fôsse a sua tristeza, a ufania do bom exito da sua viagem fez-lhe aflorar ao rosto um sorriso.
—Mas a mala não tem nada! Nem uma folha de papel! declarou, animando-se gradualmente.
E, narrou a continuação das suas aventuras. Nicolao ouviu-a primeiro com inquietação, depois com surpresa. Por fim, interrompeu-a para exclamar:
—É simplesmente maravilhoso! Tem uma sorte espantosa!
Entrou a mover-se d’um lado para o outro, pasmado, e foi apertar-lhe a mão.
—Chega a commover-me pela confiança que tem no povo! Que bella alma a sua!... Amo-a como nunca amei minha propria mãe!
Ella tomou-o nos braços e por entre soluços de contentamento, approximou dos seus labios a cabeça de Nicolao.
—Talvez me tivesse exprimido nesciamente, ha pouco! murmurou, commovido e desconcertado pela novidade do sentimento que experimentava.
Pélagué, convencida de que Nicolao se sentia profundamente feliz, seguia-o com um olhar em que transparecia affectuosa curiosidade; queria compreender por que se mostrára tão apaixonadamente vibrante.
—Em geral, tudo corre ás mil maravilhas! declarou elle, a esfregar as mãos, com um risinho caricioso. Sabe? Passei singularmente bem estes ultimos dias. Estive sempre com operarios; fiz-lhes umas leituras, conversámos, deram-me ensejo a que os observasse... Juntei no meu coração sensações admiraveis, tão puras e sãs!... Que bella gente! Tão francos, tão claros como os dias de maio! Falo dos operarios mais novos; são robustos, são sensiveis, teem sede de compreender tudo!...
Ao vêl-os, adquire-se a certeza de que a Russia ha de vir a ser a mais brilhante democracia do mundo!
Erguera o braço como para firmar um juramento. Passado um instante, continuou:
—Como sabe, eu era funccionario n’uma repartição do estado. Foi ali que o meu feitio se azedou: no meio de algarismos e de papelada. Um anno d’aquella vida bastou para me deturpar o caracter. Porque eu estava habituado a viver entre o povo e quando me separo d’elle, sinto-me pouco á vontade. Sempre propendi com todas as minhas forças para a vida popular. E agora já posso viver de novo em liberdade, confraternisar com os operarios, ensinar-lhes o que sei! Compreende? Assim, estarei junto do proprio berço do ideal que vem surgindo, junto da propria energia creadora nascente. É o que me parece admiravelmente simples e bello e tambem terrivelmente excitante! Torna-se um homem mais novo, mais decidido, mais calmo, e disfructa de uma existencia integra!
Aqui, riu, expansivo. E d’aquelle contentamento partilhava Pélagué.
—E depois, que creatura excessivamente bôa a senhora é! declarou elle ainda. Tem em si uma força tão poderosa e tão seductora! Attrae a si as almas com tal persuasão! Sabe descrever tão completamente as pessoas! Sabe vêl-as tão bem!
—Vejo a sua existencia e compreendo-o, meu amigo!
—Todos a estimam... E que maravilhosa coisa é estimar uma creatura humana!... É tão bom! Se soubesse!
—É o meu amigo que sabe ressuscitar os entes humanos d’entre os mortos! murmurou a anciã com calor, acariciando-lhe a mão. Meu amigo, quanto mais penso, mais vejo quanto ha a fazer e de quanta paciencia precisamos! E o que eu quero é que não perca a coragem. Oiça o resto... A mulher, ia eu dizendo, a mulher do tal camponez...
Nicolao sentára-se ao lado d’ella. Tinha desviado o rosto prazenteiro, e passava a mão devagar pelos cabellos. Mas d’ahi a pouco tornava a dirigir o olhar para Pélagué, escutando avidamente a narrativa.
—Que sorte admiravel! exclamou. Com effeito, era muito possivel que fôsse presa... Mas não! O que parece é que essa gente do campo tambem se vae mexendo. Não é para admirar, afinal! E essa tal mulher, parece que a estou vendo d’aqui. Sim, compreendo esse coração accêso em ira. E tem razão em dizer que uma dôr tão profunda jamais se extinguirá!... Precisavamos de quem se occupasse especialmente de animar essa gente do campo!... Gente! Muita gente! É o que nos falta e por toda a parte! A vida exige milhares de braços!
—Para isso era necessario que o Pavel estivesse em liberdade... e o André tambem, aventou ella em voz baixa.
Elle lançou-lhe rapido olhar e curvou a cabeça.
—Olhe, sabe? Vou dizer-lhe a verdade, ainda que lhe custe: conheço bem o Pavel e estou certo de que vae recusar-se a fugir. O que elle pretende é ser julgado, quer exibir-se em todo o seu prestigio... e não renuncia a isso. É trabalho escusado!... Depois, fugirá da Sibéria...
A mãe de Pavel murmurou:
—Que se ha de fazer?... Elle sabe melhor do que eu o que deve decidir.
Nicolao ergueu-se de chofre, novamente tomado de contentamento. Inclinou-se para ella e disse:
—Graças a si, passei hoje instantes melhores... os melhores da minha vida, talvez!... Obrigado! Dê-me um abraço!
E apertaram-se, silenciosos.
—Como isto é bom! exclamou elle baixo.
Pélagué deixára caír os braços e sorria em estos de felicidade.
—Hum! murmurou Nicolao, fitando-a muito por detraz dos seus oculos. Ainda se esse tal camponez não tardasse em vir!... Porque é absolutamente preciso escrever um artigosinho ácerca do Rybine e distribuil-o pelas aldeias, o que não pode prejudicar o Rybine, visto que elle trabalha abertamente, por si mesmo, e que a causa do povo tem tudo a ganhar. Vou escrevel-o agora mesmo. A Lioudmila imprime-o ámanhã... Sim, mas como se hão de expedir os fasciculos?
—Irei eu leva-los.
—Não, obrigado! exclamou Nicolao com vivacidade. Não crê que o Vessoftchikof pudesse tomar esse encargo?
—Quer que lhe fale n’isso?
—Experimente e ensine-lhe como elle se ha de haver n’esse negocio.
—E eu então, que faço?
—Não lhe dê isso cuidado!
E pôz-se a escrever. Emquanto desembaraçava a mesa das loiças e dos outros objectos, Pélagué não tirava a vista d’elle, seguindo a penna, que lhe tremia na mão e traçava no papel longas séries de palavras. Por vezes, um arrepio perpassava pela nuca do mancebo; outras vezes, projectava elle a cabeça para traz e ficava-se de olhos fechados. Pélagué sentiu-se emocionada.
—Castigue-os! murmurou. Não os poupe, áquelles assassinos!
—Aqui está! Está pronto! disse elle, levantando-se. Esconda este papel comsigo. Mas olhe que se a policia vem, hão de tambem querer revistal-a...
—Leve-os o diabo! respondeu com o maior socego.
Á noite, veio o doutor.
—Porque anda a autoridade tão agitada? inquiriu elle, passeando pelo quarto. A noite passada fizeram-se sete buscas!... Onde está o doente?
—Foi-se embora hontem! respondeu Nicolao. É sabbado hoje e não podia faltar á sessão de leitura, compreendes?
—É uma estupidez ir para uma conferencia quando se tem a cabeça aberta!
—Foi o que eu tentei demonstrar-lhe; mas nada consegui!
—Era a vontade de ir fazer-se valente diante dos camaradas, disse Pélagué; de lhes mostrar que tambem já derramou o seu sangue pela grande causa!
O doutor lançou-lhe um olhar, tomou uns ares de ferocidade e exclamou com os dentes cerrados:
—Que sanguinárias creaturas vocês são!
—Pois então, meu amigo, já nada tens a fazer aqui, e nós esperamos umas visitas. Vae-te embora! Pélagué, dê-lhe o papel.
—Outra vez! exclamou o medico.
—Vá! Toma e leva isto á imprensa.
—Está dito; lá o levarei. Mais nada?
—Sim... Está ali um espião defronte da casa.
—Já o vi. E em minha casa tambem. Bem, até mais vêr! Até á vista, mulher cruel! Sabem, meus amigos? A desordem do cemitério veio mesmo a calhar, positivamente! Não se fala n’outra coisa em toda a cidade. Isto impressiona o povo e obriga-o a reflectir. O teu artigo a esse respeito estava muito bom e foi publicado em bella occasião. Eu sempre fui de opinião que uma bôa desordem era mais util do que uma má concordia...
—Está bom, vae-te!
—Estás hoje pouco amavel, homem! A sua mão, tiasinha! O pequeno andou como um pateta. Não sabes onde elle mora?
Nicolao deu-lhe o endereço.
—É preciso ir a casa d’elle amanhã... É um bello rapaz, não é verdade?
—É verdade!... Excellente coração!
—É preciso não o perder de vista, que elle não é tolo! disse o medico, ao saír. É justamente essa rapaziada que ha de formar o verdadeiro proletariado instruido, e occupar os nossos logares, quando nós nos fôrmos para o sitio onde não ha, segundo creio, differenças de castas...
—Sempre estás um tagarella!
—Sinto-me contente; por isso dou á lingua!... Cá vou, cá vou... Então, sempre contas ir para a cadeia? Desejo que descanses bem por lá.
—Obrigado, mas não me sinto cansado.
Pélagué escutava-os satisfeita por vêr os cuidados, em que ambos estavam, no ferido.
Logo que saíu o médico, Nicolao e Pélagué sentaram-se á mesa e ficaram esperando as suas visitas nouturnas. Por muito tempo, em voz baixa, Nicolau esteve falando dos companheiros que viviam no exilio, dos que tinham fugido e continuavam trabalhando com nomes suppostos. As paredes nuas do aposento reflectiam-lhe o som abafado da voz, como se duvidassem d’aquellas singulares historias de heroes modestos e desinteressados, que haviam sacrificado todas as suas forças á grande obra do rejuvenescimento humano. Pélagué, mergulhada n’uma sombra de agradavel tepidez, sentia o coração encher-se-lhe de amôr por aquelles desconhecidos, que á sua imaginação se resumiam n’um sêr unico e immenso, dotado de máscula e inexgotavel força. Lentamente, mas sem nunca parar, tal sêr extraordinario caminhava pela terra, arrancando o bolor secular da mentira, descobrindo aos olhos do homem a verdade simples e positiva da vida, a qual a todos promettia libertar da avidez, do odio e da falsidade, trez monstros que haviam subjugado pelo horror o mundo inteiro. Esta visualidade gerava no intimo de Pélagué impressão identica á resentida n’outros tempos, quando ella, ajoelhada perante as imagens pias, terminava com uma oração de reconhecimento o seu dia, que lhe ficava assim parecendo menos árduo do que os outros. Agora, que o seu passado ia longe, este sentimento ampliava-se, fazia-se mais luminoso e mais jovial, penetrava mais fundo na sua alma, robustecia-se e exaltava-se mais e mais.
—A policia não vem! exclamou Nicolao, interrompendo o fio das suas narrativas.
Ella fitou-o um instante e após curto silencio:
—Que vão para o inferno!
—Está claro!... Vocemecê deve estar fatigada a valer, precisa de deitar-se. É robusta, ainda assim todos estes cuidados, todas estas inquietações... supporta-as admiravelmente. Só os cabellos é que lhe enbranqueceram muito depressa... Vá descansar, vá...
Apertaram-se as mãos e separaram-se.