XX
Adormecera Pélagué, rápida e socegadamente, quando, de manhãsinha, a despertaram umas pancadas violentas na porta da cosinha. E succediam-se com teimosia. Ainda fazia escuro. Vestiu-se á pressa, correu a perguntar, atravez da porta:
—Quem está ahi?
—Eu! respondeu voz desconhecida.
—Quem?
—Abra! Abra! murmurou a mesma voz, agora sumida e supplicante.
Pélagué puxou o ferrolho e empurrou a porta: E entrou Ignaty, a exclamar alegremente:
—Ah! não me enganei! Cheguei a bom porto!
Vinha coberto de lama até á cintura, o rosto desfigurado, fundas olheiras, e do bonné saíam-lhe em desordem os cabellos annellados.
—Grande desgraça lá por casa! segredou logo ao fechar a porta.
—Já sei...
Ficou espantado e perguntou com um pestanejar de curiosidade:
—Como assim?... Por quem?
Contou-lhe Pélagué em breves palavras o encontro que tivera.
—E os outros dois teus camaradas, tambem os prenderam?
—Não estavam lá: tinham ido á junta d’inspecção. Prenderam cinco, contando com o Rybine.
Fungou, n’um accesso de riso, e explicou:
—Eu, como vê, escapei. Provavelmente andam em minha busca... Pois que procurem! Não volto para lá nem por todo o oiro do mundo! Ainda assim, ainda lá ficaram seis ou sete rapazes e uma rapariga, com quem se póde contar!
—Mas como pudeste escapar?
—Eu? exclamou Ignaty, sentando-se n’um banco e olhando em roda. Os policias vieram de noite, direitinhos á fabrica, mas um minuto antes já o guarda campestre tinha vindo a correr bater-nos na janella: «Attenção, rapaziada, vêm prendel-os!»
Pôz-se a rir e a limpar a cara com a aba da blusa. E proseguiu:
—O tio Rybine não é homem para perder a cabeça... E olhe que o provou!... Disse-me logo: Ignaty, corre á cidade! Lembras-te das duas mulheres que aqui estiveram? E escreveu qualquer coisa n’um papel, muito depressa... Toma, vae, adeus, meu irmão! disse-me elle. E deu-me um empurrão nas costas. Eu atirei-me para fóra da cabana, escondi-me entre umas moitas, puz-me a andar de gatas e ouvi chegar os guardas! Eram muitos, appareciam por todos os lados! Cercaram a fabrica. Eu estava por detraz d’uma sebe... passaram-me mesmo na frente. Depois, levantei-me e entrei a andar, a andar... Andei um dia e duas noites, sem parar. Estou estafado para uma semana; nem sinto as pernas!
Mostrava-se satisfeito de si mesmo; illuminava-lhe um sorriso os grandes olhos escuros; tinha um tremor nos beiços grossos e vermelhos.
—Vou-te fazer uma gôta de chá n’um pronto! disse Pélagué sollicita, agarrando no samovar. Mas emquanto esperas, vae-te lavando. Ficas melhor depois!
—O que eu queria era dar-lhe o bilhete.
Levantou com difficuldade uma das pernas, dobrou-a, collocou o pé sobre o banco, isto com innumeras caretas e gemidos, e começou a desenrolar uma das ligaduras, que lhe envolviam ambos os pés.
Nicolao appareceu á porta. Ignaty, confuso, tornou a pôr o pé no chão; tentou levantar-se, mas cambaleou e caíu desamparadamente em cima do banco, ao qual se agarrou ás mãos ambas.
—Ai, que cançado que eu estou!
—Bom dia, camarada! disse-lhe Nicolao em tom amigavel e com um signal de cabeça. Espere, que eu o ajudo.
Ajoelhou-se diante do operario e desenrolou rapidamente a ligadura, emporcalhada e húmida.
—É necessario esfregar-lhe os pés com alcool. Ha de fazer-lhe bem, disse Pélagué.
—Isso mesmo! approvou Nicolao.
Ignaty fungou de novo, muito atrapalhado.
Finalmente, achou Nicolao o bilhete; alisou-o, mirou-o um instante e apresentou-o á velha.
—Aqui tem! É para si.
—Leia.
Elle approximou dos olhos o pedaço de papel sujo e amarrotado e leu:
«Mãesinha: não deixes que se perca o nosso negocio. Diz a essa senhora que não se esqueça de fazer que se escreva sempre e muito, a respeito das nossas coisas. Peço-te. Adeus. Rybine.»
—Bello rapaz! disse Pélagué com melancolia. Estavam a esganal-o e ainda elle se lembrava dos outros!
Lentamente, Nicolao deixou descaír o braço em que tinha o bilhete, e a meia voz:
—É espantoso!
Ignaty olhava para um e outro, vermiculando devagar com os dedos emporcalhados do pé descalço. Pélagué, procurando occultar o rosto inundado de lagrimas, foi para elle com uma celha com agua. Sentou-se no chão e estendeu a mão para tomar a perna do homem.
—Que quer fazer?... Não é preciso...
—Deixa ver o pé, depressa.
—Eu vou buscar o alcool, disse Nicolao.
O rapaz mettia sempre mais a perna debaixo do banco, murmurando:
—Não quero!... Então isso é coisa que se faça?
Sem lhe responder, ella tratou de lhe desembaraçar das ligaduras o outro pé. O rosto redondo de Ignaty distendeu-se de espanto. Pélagué entrou a lavar o rapaz.
—Sabes? disse ella com voz chorosa. O Rybine foi espancado!...
—Palavra? exclamou Ignaty assustado.
—É verdade. Quando chegou a Nikolsky, já elle vinha moído de pancada, e ainda alli, o sargento e o commissario lhe deram murros, pontapés... Estava todo coberto de sangue!
—Ah, lá quanto a isso, é o officio d’elles, e conhecem-no a valer! exclamou o operario, sentindo um calafrio percorrer-lhe as espáduas. Tenho medo d’elles como do diabo! E os camponezes não lhe bateram?
—Um só, á ordem do commissario. Os outros fizeram o seu dever; até não consentiram que continuassem a maltratal-o.
—Sim... O campónio começa a compreender...
—Tambem lá os ha muito intelligentes, n’essa villa...
—E onde é que os não ha? Ha-os por toda a parte! Sim, sempre é forçoso que os haja; o difficil é descobril-os. Mettem-se ahi pelos cantos e ficam a remoer aquillo lá por dentro, cada um para seu lado. Não teem a coragem de se reunir!
Nicolao trouxe uma garrafa d’alcool, deitou uns pedaços de carvão no samovar e saíu sem dizer palavra. Ignaty, que o seguira com a vista, curioso, perguntou em voz baixa:
—É nosso mestre?
—Na causa do povo não ha mestres, só ha camaradas!
—É caso para pasmar! disse o operario, sorrindo entre perplexo e incredulo.
—O quê?
—Tudo isto!... D’um lado, dão bofetadas na gente, do outro, lavam-nos os pés... Haverá um meio-termo?
A porta do aposento abriu-se de par em par e Nicolao respondeu:
—Ha, sim, senhor! E esse meio-termo são os que lambem as mãos d’aquelles que os maltratam e sugam o sangue dos maltratados. Aqui tem o que é esse meio-termo!
Ignaty fitou-o com deferencia e disse, após reflexão:
—Isso agora é verdade!
—Pélagué! instou Nicolao. Deve estar cansada... Deixe isso, que eu continúo.
O rapaz encolheu as pernas com inquieto acanhamento.
—Está pronto! respondeu ella, erguendo-se. Vá, Ignaty: levanta-te agora!
O outro obedeceu, conservou-se um bocado n’um pé, ora no outro, firmando-se fortemente no sobrado, e declarou:
—Até parece que ficaram novos! Obrigado!... Muito obrigado!
Fez uma pausa e ainda murmurou, a olhar para a celha com a agua suja:
—Nem sei como hei-de agradecer-lhe sufficientemente...
Os trez passaram para a casa de jantar e almoçaram. Ignaty poz-se a contar em voz muito séria:
—Fui eu que distribui os periodicos. Eu gosto muito de andar. O Rybine tinha-me dito: «Vae tu leval-os sósinho! Se fôres apanhado, não suspeitam de mais ninguem».
—E ha muita gente que os leia? perguntou Nicolao.
—Todos os que sabem lêr.
Pensativo, Nicolao reflectiu:
—Mas como havemos de arranjar que o fasciculo a propósito da prisão do Rybine chegue de pressa ás aldeias?...
Ignaty apurára logo o ouvido.
—Pois eu me encarrego d’isso hoje mesmo! Já ha prontos esses fasciculos?
—Ha, sim.
—Dê-mos, que eu os levo! propôz Ignaty com os olhos scintillantes, e a esfregar as mãos. Eu sei bem onde e como os hei-de levar!... Dê-os cá!
Pélagué sorria, ouvindo-o falar assim.
—Mas tu estás cansado e tens medo; fôste tu mesmo que disseste não querer voltar lá!...
Elle produziu com os beiços um estalido, e, ao mesmo tempo que alisava com a alentada mão os caracoes do cabello, declarou em tom de seriedade e sangue-frio:
—Estou cansado... Melhor, depois descansarei!... Quanto a ter medo, isso é verdade!... Pois se vocemecê acabou de contar que elles batem na gente até nos pôrem a escorrer sangue!... Quem é que tem vontade de ficar estropiado? Eu me arranjarei:—vou de noite... Sempre hei-de achar maneira de fazer o recado! Dê cá... Parto esta noite mesmo.
Ficou um momento calado, de sobrolho franzido, e logo:
—Vou d’aqui esconder-me na floresta. Depois, aviso os companheiros e digo-lhes: «Vão lá ter comigo e sirvam-se». É o melhor que ha a fazer! Se eu mesmo distribuisse os jornaes e fôsse apanhado, era uma pena por causa dos jornaes... Já ha tão poucos, que é preciso ter muita cautella com elles.
—E o medo? Que fazes tu a elle? Inquiriu de novo Pélagué.
Divertia-a deveras aquelle alentado rapagão de caracoes, pela sinceridade que vibrava na menor das suas palavras, pela sua fisionomia franca e pelas suas maneiras teimosas.
—O medo é o medo e negocios são negocios! replicou elle, mostrando muito os dentes. Para que está a mangar comigo? Então, já viram?... Talvez não seja coisa de metter medo a uma pessôa?... Mas já que é preciso, atira-se a gente ao lume! Quando se trata d’um negocio d’estes...
—Ah! meu filho! exclamou involuntariamente Pélagué, vencida pelo entusiasmo e o contentamento que elle lhe inspirava.
Elle sorriu acanhado:
—Ainda mais esta: eu, seu filho! Alguma criancinha, talvez?...
Nicolao, que não deixára de observar o rapaz, com olhar amigo, interveio então:
—Você não vae, homem!
—Então, que devo fazer? Onde é preciso que vá? interrogou elle com inquietação.
—Outro irá em seu logar e você ha de explicar-lhe meudamente como elle deve proceder. Quer fazer isto?
—Está bem! respondeu Ignaty de má vontade, apóz um instante de hesitação.
—Nós nos encarregamos de lhe fornecer documentos, para lhe arranjarmos um logar de guarda-matto.
—E se fôr lá gente do campo apanhar lenha ou caçar clandestinamente, de os prender? Para isso não sirvo eu!...
Os dois puzeram-se a rir, o que acabou por de todo atrapalhar o campónio, muito desgostoso.
—Não tenha medo! disse-lhe Nicolao. Não ha de ter occasião para tal, creia!
—Isso agora é differente! commentou Ignaty.
E já mais tranquillo, sorriu-se para Nicolao, confiado e alegremente.
—Eu sempre gostava mais de ir á fabrica; dizem que ha por lá camaradas bastante intelligentes...
Parecia que no vasto peito lhe ardia um fogo, intermittente ainda e que se extinguia por alternativas, não deixando ver mais que o fumo da perplexidade e de inquietação.
Pélagué levantou-se da mesa e foi á janella, dizendo, pensativa:
—Como a vida é singular!... Por cada cinco vezes que rimos, choramos outras tantas!... Que coisa pouco agradavel!... Já acabaste, Ignaty? Vae dormir.
—Não, senhora, não quero.
—Vae dormir, já te disse.
—Vocemecê é muito severa! Está bem, lá vou! E muito obrigado pelo seu chá, pelo assucar... e pela sua amisade!
Deitou-se na cama de Pélagué. Resmungava coçando a cabeça:
—Agora fica tudo a cheirar a alcatrão cá em casa... Olhe que faz mal em me amimar tanto, creia!... Eu não tenho somno... São ambos bôas pessoas... Já não percebo nada... parece que estou a cem mil kilometros da aldeia... E como elle falou bem a proposito no meio-termo... No meio-termo estão os que lambem as mãos dos que maltratam os outros... Demónio!
E subitamente, com um ronco sonoro, arqueando muito as sobrancelhas e de bôca entreaberta, adormeceu.