XXI

N’essa noite, já muito tarde, encontrava-se Ignaty n’um subterraneo, sentado em frente de Vessoftchikof e segredava a este:

—Quatro vezes, na janella do meio...

—Quatro? repetia o bexigoso, com ares de grande concentração.

—Sim; primeiro trez, assim...

E bateu na meza com o dedo dobrado, emquanto contava:

—Uma, duas, trez; e depois, mais uma vez, passado um instantinho...

—Estou percebendo.

—Ha de vir á porta um campónio de cabellos vermelhos, e ha de perguntar-lhe: «Vem por causa da parteira?» E você responde-lhe: «Sim, senhor, venho da parte do senhorio!» E não precisa mais, elle logo percebe do que se trata!

N’este colloquio, approximavam as cabeças; ambos altos e alentados, falavam baixinho, abafando muito a voz. De pé, junto d’uma mesa, com os braços cruzados sobre o peito, Pélagué observava-os. Todos aquelles signaes cabalisticos, aquellas perguntas e respostas convencionadas d’antemão, lhe davam immensa vontade de rir. E pensava:

«Não passam ainda d’umas crianças!»

Um candieiro seguro na parede illuminava as sombrias manchas do bolor e as gravuras recortadas de jornaes. Pelo chão jaziam baldes amolgados, fragmentos de zinco; e divisava-se pela janella, no ceu muito escuro, uma grande estrella scintillante. Reinava em toda a quadra um forte cheiro a ferrugem, tintas d’oleo e humidade.

Ignaty ostentava grosso sobretudo pelludo em que muito se comprazia; Pélagué via-o, volta e meia, acariciar com volupia a manga do espesso casacão e inclinar com custo o largo pescoço, para melhor se admirar. E um pensamento cantava no coração de Pélagué:

«Filhos!... meus queridos filhos!...»

—Ora aqui está! disse Ignaty, levantando-se. Então não se esqueça! Primeiro, ir a casa do Mouratof, perguntar pelo avô...

—Cá estou lembrado! respondia Vessoftchikof.

Mas Ignaty não se dava por crente, repetia-lhe outra vez todos os signaes combinados e todas as palavras de passe. Por fim, estendeu-lhe a mão.

—Agora não falta mais nada! Adeus, camarada! Dê-lhes recommendações minhas! Olhe, diga-lhes assim: «O Ignaty está vivo e passa bem.» É boa gente, verá!...

Mirou-se satisfeito, passou a mão pelo casacão e perguntou a Pélagué:

—Posso ir-me embora?

—E has de atinar com o caminho?

—Está claro que sim!... Até mais vêr, camaradas!

E lá se foi, aprumado, arqueando o peito, de chapeu novo á banda e as mãos enterradas nos bolsos. Na testa e nas fontes, os anneis dos cabellos, loiros e infantis, dansavam-lhe jovialmente.

—Ora até que emfim já tenho tambem trabalho! exclamou Vessoftchikof, approximando-se da velha. Andava aborrecido; perguntava a mim mesmo para que tinha saído da cadeia. Não faço senão andar escondido!... Ao menos, na cadeia, sempre aprendia! O Pavel recheava-nos a cabeça que era um gosto! E o André tambem nos limpava as idéas, sim senhora!... E então, sempre se decidiu a fuga? Arranja-se isso?

—Hei de sabel-o depois d’ámanhã! respondeu. E repetiu, suspirando, mau grado seu.

—Depois d’ámanhã...

O bexigoso approximou-se-lhe, descansou-lhe no hombro a alentada mão e opinou:

—Podes dizer aos chefes que é coisa facil. Elles hão de dar-te ouvidos! Ora vê tu mesma: aqui está a muralha da cadeia, ao pé d’um lampeão. Em frente, ficam umas terras sem cultivo; á esquerda, o cemitério; á direita, uma rua e o resto da cidade. Vem um accendedor de candieiros mesmo de dia, dia claro, para limpar o lampeão; encosta a escada ao muro, sobe, engata ao espigão da muralha os ganchos d’uma escada de corda que ha de ficar para o lado do pateo, e está prompto! Elles, na cadeia, já hão de saber a hora combinada, pedem aos presos de crimes communs que armem qualquer desordem, ou armam-na elles mesmos, e entretanto, os que estiverem na combinação marinham pela escada e está tudo feito! E d’ali vem de passeio até á cidade, emquanto elles lá ficam a procural-os pelo cemitério e nas taes terras de baldio!

Gesticulava com vivacidade, expondo este plano, aos olhos d’elle simples, claro e de extrema habilidade. Pélagué, que nunca conhecera n’elle mais que um rapagão tosco e desageitado, admirava-se de vêr aquelle rosto bexiguento tão cheio de vivacidade e intelligencia. D’antes, os minguados olhos de Vessoftchikof tudo fitavam com irritação e desconfiança; agora, era para crêr que outros os haviam substituido, rasgados e brilhantes de scintillações uniformes e severas que convenciam e emocionavam Pélagué.

—Pensa bem: de dia é que ha de ser!... Sim, de dia! Quem ha de imaginar que um preso se atreva a fugir de dia, á vista de todo o pessoal da prisão?

—E se os fusilassem? lembrou a mãe, horrorisada.

—Quem? Se não ha soldados, e os carcereiros servem se dos revólvers para pregar pregos!

—Quasi que estou achando tudo isso simples de mais!...

—Pois é como te digo; tu verás! Fala n’isso aos outros. Eu já arranjei tudo: a escada de corda, os ganchos... Já falei cá com o meu hospedeiro; é elle que ha de fazer de limpa-candieiros.

Para além da porta, mexia-se alguem entre accessos de tosse; ouvia-se um ruido de ferros velhos.

—Ahi está elle, o hospedeiro! annunciou o bexigoso.

Pela abertura da porta appareceu uma banheira de zinco, e uma voz encatarroada praguejou:

—Entra, diabo!

Depois, surgiu uma cara redonda e barbuda, de cabellos grisalhos, sem chapeu, d’expressão bonacheirona e grandes olhos esbogalhados.

—Vessoftchikof foi ajudar o homem a fazer passar a banheira pela porta; depois, o recemchegado, grande latagão corcovado, poz-se a tossir com um grande entumecimento nas faces imberbes, escarrou e disse na mesma voz rouca:

—Bôa noite!

—Pois agora, pergunta-lhe! convidou o rapaz.

—O quê? Que querem perguntar-me?

—É a respeito da fuga da cadeia.

—Ah, sim! disse o velho, limpando o bigode com os dedos sujos.

—Quer saber, Jacob? Ella não acredita que seja facil arranjar!

—Ah, não acredita? Pois se não acredita, é porque não quer a coisa. Mas nós dois, que queremos que isso se faça, acreditamos que seja facil! respondeu serenamente o homem.

Foi tomado d’um accesso de tosse que o dobrou em anglo recto, e em seguida esteve muito tempo no meio da quadra a aspirar com força o ar e a esfregar o peito. Fitava Pélagué com olhos de espanto.

—Mas não sou eu quem decide esta questão! observou ella.

—Mas fala lá com os outros; dize-lhes que está tudo arranjado! Ah! se eu pudesse falar com elles, eu os convenceria! exclamou o bexigoso.

Estendeu os braços em largo gesto e depois apertou-os como para abraçar qualquer coisa. Vibrava-lhe na voz um sentimento cuja energia assombrava Pélagué.

—Vejam que mudança fez! pensou ella.

E contestou em voz alta:

—O Pavel e os companheiros é que hão de decidir.

Meditativo, o outro ficou-se de cabeça baixa.

—Quem é esse Pavel? interrogou o velho, tomando logar n’um banco.

—É o meu filho.

—Qual é o nome da familia?

—Vlassof.

Elle abanou a cabeça, puxou pela bolsa do tabaco e, emquanto enchia o cachimbo:

—Tenho ouvido falar. O meu sobrinho conhece-o. O meu sobrinho tambem está na cadeia; chama-se Evetchenko. Conhece? Eu chamo-me Gadoune. D’aqui a pouco, está na cadeia! Então é que a gente ha de viver feliz e socegada, nós, os velhos! Um, da policia, prometteu que me havia de pregar com o sobrinho na Sibéria... E ha de cumprir a promessa, o excommungado!

Entrou de fumar, escarrando para o chão de vez em quando.

—Ah! ella não quer? continuou, virado para o rapaz. Isso é com ella!... O homem é livre! Quem está cansado, que se sente; quem estiver cansado de estar sentado, passeie!... Quem fôr roubado, que se cale; quem fôr tosado, soffra com resignação! E se o matarem, que se deixe caír!... Sempre é certo isto. Mas eu cá hei de fazer saír o meu sobrinho da cadeia. Olá, se hei-de!...

Estas expressões incisivas, parecidas com latidos, tornaram Pélagué perplexa. As ultimas palavras do velho haviam até excitado n’ella uma tal ou qual inveja.

Pela rua fóra, ao vento gélido e á chuva, ia pensando no Vessoftchikof.

—Como elle está mudado!... Vejam aquillo!

E ao lembrar-se de Gadoune, meditou com um sentimento quasi de religiosa piedade:

—Ao que parece, não sou só eu que ando n’esta vida de promissão!

Depois, a imagem de seu filho accudiu-lhe ao espirito:

—Se elle consentisse, ao menos!...