XX

Uma noite, estando Pélagué a fazer meia e André lendo em voz-alta a historia da revolta dos escravos romanos, alguem bateu violentamente á porta. O russo-menor foi abrir, e Vessoftchikof entrou, com um embrulho debaixo do braço, o boné descaído para os olhos, e todo elle enlameado até aos joelhos.

—Passando na rua, vi luz cá dentro e bati á porta para a cumprimentar. Saí da cadeia agora mesmo!

E apertando a mão de Pélagué:

—O Pavel recommenda-se muito.

Deixando-se caír n’uma cadeira, hesitantemente olhou em volta, como de costume desconfiado.

A sua cabeça angulosa e rapada e os seus olhitos tornavam no antipatico a Pélagué, o que não impedia que estivesse gostando de vel-o e que lhe dissésse, affectuosa:

—Emagreceste!... Ó André, vamos fazer-lhe o chá!

—Já cá estou preparando o samovar! respondeu da cosinha o russo-menor.

—E então como vae o Pavel? Vieram outros para a rua comtigo?

Vessoftchikof respondeu abaixando a cabeça:

—O Pavel continúa preso... Encheu-se de paciencia... Para a rua vim só eu.

E levantando o olhar, continuou vagaroso e com os dentes cerrados:

—É que eu disse-lhes: «Deixem-me ir embora, que já estou farto! senão mato o primeiro que puder, e suicido-me depois!» Ora!... foi logo! E fizeram bem, porque eu cumpria o que promettera!

—Sim, sim, creio!... balbuciou ella, afastando-se, com as palpebras tremulas, como sempre lhe acontecia quando fitava aquelle rosto bexigoso.

—E como vae o Fédia Mazine? perguntou da cosinha André. Continúa fazendo versos?

—Continúa! Quer dizer... não o percebo bem. Parece um pintasilgo: mettem-no na gaiola, e canta. O que sei é que não tenho nenhuma vontade de ir para casa.

—E tens razão. Vaes encontral-a vasia, o fogão apagado, tudo muito frio...

Vessoftchikof calou-se, cerrou os olhos, depois, tirando da algibeira um masso de cigarros, começou a fumar, muito descansadamente. Com o olhar ia seguindo as nuvens de fumo que se esvaía por cima da sua cabeça; e de subito, rindo esganiçadamente como o uivar d’um cão:

—Sim, muito frio... Naturalmente, o chão está, cheio de baratas geladas, os ratos devem estar tambem mortos de fome... Pélagué Nilovna, dás licença que eu durma cá em casa?

—Está dito! respondeu logo. Sentia-se pouco á vontade; por isto não disse mais.

Foi elle que murmurou em tom abatido:

—Estamos agora no tempo em que os filhos teem vergonha dos paes.

—O quê? perguntou ella, estremecendo.

—Não te apouquentes, que não falo de ti. Tu nunca envergonharás o Pavel. Eu é que me envergonho do meu pae... Não quero voltar para casa d’elle. Já não tenho pae, nem casa. Estou sob a vigilancia da policia, agora, se não ter-me-iam mandado para a Siberia. Creio que um homem, que não se poupasse a trabalhos, teria muito que fazer na Siberia... Daria a liberdade aos exilados, ajudal-os-ia a fugir...

Graças ao seu coração sensivel, a velha percebia que o rapaz estava soffrendo, mas a sua dôr não lhe provocava a compaixão.

—Dizes bem. Sendo assim, seria melhor teres ido... André veio da cosinha.

—Que estás tu para ahi a cantar, homem?

A velha ergueu-se.

—Vou arranjar alguma coisa para comer.

Vessoftchikof olhou fixamente para o russo-menor e respondeu com firmeza:

—Digo que é preciso matar umas pessôas!...

—Ih!... E para quê? perguntou, tranquillo.

—Para que deixem de existir!

—Tens então o direito de transformar os vivos em cadaveres?

—Tenho!

—E onde foste buscal-o?

—Foram os homens que mo deram!

O russo-menor, alto, magro, parou no meio do quarto, bamboleando o corpo; com as mãos nas algibeiras, observava dos pés á cabeça o bexigoso. Este, sentado e envolto n’uma nuvem de fumo, tinha n’aquelle momento o rosto palido salpicado de manchas vermelhas.

—Foram os homens que mo deram! repetiu, de punho cerrado. Desde que me dão pontapés, tenho o direito de responder, atirando-me aos focinhos, aos olhos... Se não me tocarem, eu não toco em ninguem. Deixem-me viver como quero, que eu viverei quieto, sem incommodar os mais. Juro! Supponhamos que quero viver n’uma floresta, construir uma cabana n’uma ravina, na margem d’um regato... e viver ali, sósinho...

—Pois faz isso! respondeu, encolhendo os hombros.

—Agora? Não! É impossivel! Estou ligado estreitamente aos homens até á morte! Ligaram o meu coração com o odio, prenderam-me a elles com o mal. É um laço muito solido. Odeio-os, e vá por onde fôr não os deixarei viver tranquillos. Incommodam-me, e eu incommodal-os-ei. Respondo por mim, só por mim; não posso responder por mais ninguem. E se o meu pae é um ladrão...

—Ah! exclamou repreensivamente André, em voz baixa, approximando-se.

—Ainda acabo por arrancar a cabeça ao Isaías Gorbof, verás!

—E porquê?

—Porque anda a espiar-me. Foi por causa d’elle que o meu pae se perdeu, é com elle que o meu pae conta para entrar para a policia secreta!

—Olhem o grande mal! Mas quem te censura, a ti, pela vida do teu pae? Isso é para os tolos!

—Para os tolos e para os não tolos! Olha: tu és intelligente, o Pavel tambem. Dize lá: teem por mim consideração igual á que teem pelo Fédia Mazine ou pelo Samoílof, ou um pelo outro? Não mintas, que não te acreditaria. Atiram-me para o canto!

—Tens a tua alma doente, amigo! respondeu André, affectuosamente, sentando-se ao lado d’elle.

—A vossa tambem soffre. Mas imaginam que as suas ulceras são mais nobres do que as minhas. Procedemos uns para os outros como canalhas! é o que te digo! O que respondes a isto, an?

Fitou o olhar penetrante em André e esperou, com os dentes á mostra. O seu rosto palido estava impassivel; apenas lhe tremiam os labios grossos como se tivessem sido queimados e contraídos por algum liquido caustico.

—Nada te responderei! disse André acariciando o olhar hostil de Vessoftchikof com o sorriso luminoso e triste dos seus olhos azues. Sei demais que querer discutir com alguem, cujo coração está sangrando, é o mesmo que irrital-o. Sei, irmão.

—Não se pode discutir comigo; não sei discutir! resmungou, abaixando os olhos.

—Estou certo de que todos nós caminhámos como tu agora, com os pés descalços por cima de vidros partidos; que todos nós respirámos essas mesmas evaporações de horas sombrias...

—Não podes dizer coisa alguma que me socegue. Nada! A minha alma uiva como um lobo!

—Nem tenho tal intuito. O que sei é que isso ha de passar. Talvez não muito depressa; mas ha-de passar.

E pôz-se a rir, batendo no hombro do rapaz:

—É uma doença de creanças, no genero da escarlatina, irmão. Todos nós fomos atacados do mesmo mal, com maior ou menor violencia, conforme eramos fortes ou fracos. Ataca a gente da nossa condição, quando nos encontramos sósinhos, quando não compreendemos ainda a vida, quando não vemos o logar que nos foi destinado. Parece-nos que somos o unico homem n’este mundo e que ninguem se importa comnosco, a não ser para nos devorar. Mais tarde, quando vires que ha tambem boas almas n’outros peitos alem do teu, consolar-te-ás... e envergonhar-te-ás de ter acreditado que só tu davas a nota afinada, e de ter querido trepar ao campanario sendo o teu sino tão pequeno, que ninguem o ouve na bimbalhada dos dias de festa. Perceberás então que és uma voz apenas perceptivel, mas necessaria, no côro poderoso e magnifico da verdade. Compreendes o que eu quero dizer?

—Compreendo... compreendo... Mas não te acredito!

—Tambem eu não queria acreditar...

O bexigoso pôz-se então a rir com a bôca aberta até ás orelhas.

—Que é isso?

—Pensava que seria um grande parvo aquelle que te insultasse.

—E porque hão-de insultar-me? perguntou ainda André, encolhendo os hombros.

—Sei lá! O que digo é que o homem que te tiver insultado, ha-de ficar depois com uma linda cara de parvo!

—Era a isso que querias chegar!... commentou, rindo.

Ouviu-se a voz de Pélagué:

—Venha, André! venha buscar o samovar.

A sós, Vessoftchikof olhou em volta; estendeu a perna, observou as botas grossas; acurvou-se, palpando a barriga da perna; depois observou attentamente a palma e as costas da mão pelluda; levantou-a, e ergueu-se.

Quando André trazia o samovar, o bexigoso, diante do espelho, acolheu-o com estas palavras:

—Ha quanto tempo eu não via o meu focinha!... Estou feio como o diabo!

—Que te faz isso?

—A Sachenka diz que o rosto é o espelho da alma...

—Qual historia! Tem o nariz de gancho, as faces agudas como bicos de tezoura, e todavia a sua alma é pura como uma estrella!...

Sentaram-se para tomarem o chá e comerem. Vessoftchikof deitou a mão a uma grande batata, salgou um pedaço de pão e começou a comer tranquillamente, vagarosamente, como um lobo.

—E como vão as coisas por cá? perguntou com a bôca cheia.

E, tendo ouvido as informações d’André:

—Tudo isso vae de vagar! É preciso ir mais de pressa.

—A vida não é um cavallo: não a fazemos andar ás chicotadas.

Mas o bexigoso meneava a cabeça, obstinado.

—Vae devagar... vae... Eu não tenho grande paciencia... Que é preciso que eu faça?

—Devemos aprender a ensinar os outros. É este o nosso dever!

—E quando entraremos em lucta?

—Ignoro. Segundo a minha opinião, antes de pegarmos em armas, deveremos armar o nosso cerebro.

—O rapaz ficou silencioso, voltando a comer. Sem que elle percebesse, a velha observava-lhe o rosto picado das bexigas, tentando descobrir n’elle alguma coisa que a reconciliasse com aquelle caracter aggressivo; mas ao encontrar-lhe o olhar penetrante, ficava na mesma e movia os sobrolhos, desanimada.

No seu intimo, os dois moradores do velho pardieiro sentiam-se como apertados, pouco á vontade, e lançavam de quando em quando olhares furtivos para o hospede.

Até que este ergueu-se.

—Não me saberia mal deitar-me. Estive encarcerado por muito tempo, puzeram-me na rua de repente... vim por ahi adiante... Estou cançado.

Quando elle foi para a cosinha, a velha cochichou a André:

—Tem uns pensamentos terriveis!...

—Não é um rapaz docil, não. Mas ha de passar-lhe. Eu tambem era assim. Quando o coração não aquece a valer, junta-se n’elle muita gordura... Vá deitar-se, mãesinha, que eu ainda vou ler um pouco.

André ouviu-a resar n’um murmurio. Emquanto elle ia lendo, um tanto febrilmente, a pendula do relogio oscilava em cadencia, nas vidraças o vento gemia.

A velha murmurava:

—Ó Senhor! quanta gente por este mundo, queixando-se conforme os seus males! Onde estão os felizes?

—Ha-os, sim; e dentro em breve serão em grande numero! ah! muito grande! respondeu elle.