XXI

A vida ia decorrendo rapida, de dias variados. Cada qual trazia novas a Pélagué, que não se perturbava com ellas. Cada vez eram mais os desconhecidos que vinham á noite conversar com André, e que, sempre desconfiados e cautelosos, se retiravam no meio das trevas, com a gola do casaco levantada, a pala do bonet sobre os olhos.

Para Pélagué todos aquelles rostos, novos ou velhos, fundiam-se em um só rosto magro, calmo e decidido, de olhar profundo, carinhoso e severo ao mesmo tempo, como o de Jesus a caminho de Emmaús.

Contava-os e imaginava-os cercando Pavel, como para tornal-o menos visivel aos seus inimigos.

Uma noite, uma rapariga esperta, de cabello encaracolado, chegou da cidade, com um embrulho para André; e, ao saír, disse para Pélagué com um olhar brilhante e cheio d’alegria:

—Até á vista, companheira!

—Até á vista.

—E foi á janella para vêr a sua «companheira» pela rua abaixo, em passinhos meudos, fresca como uma flôr de primavera, ligeira como uma borboleta.

—«Companheira»!... Ah! minha queridinha! Deus te dê um bom companheiro por toda a vida.

Notava por vezes nos que vinham da cidade aspectos variegados que lhe despertavam a simpatia; mas o que principalmente a impressionava era a sua simplicidade, o seu bello e tão generoso esquecimento de si proprios.

Compreendia já muitas coisas que os visitantes discutiam; sentia, que de facto, elles tinham descoberto a verdadeira origem da desgraça dos homens, e ia-se acostumando a approvar as suas opiniões. Mas não acreditava que elles podessem transformar a existencia á sua maneira, nem que tivessem a sufficiente força de attraír a si todos os operarios.

Regularmente, continuava levando folhetos para a fabrica, com o sentimento do dever cumprido; imaginava toda a especie de astucias; e os guardas, acostumados a vél-a, nem já lhe prestavam attenção. Todavia, revistavam-na por vezes, mas sempre nos dias seguintes a ter havido distribuição de folhetos. Quando não os levava, Pélagué sabia fazer-se notada, excitar a curiosidade dos guardas, que a detinham, ficando afinal com caras de tolos.

Vessoftchikof não tornou a ser acceite na fabrica; metteu-se como operario n’uma estancia de madeira, e de manhã á noite guiava os carretos de traves, lenha, taboas. Os cavallos que puxavam a carroça iam como ás cegas, em risco de atropellarem quem passava, de irem de encontro ás outras carroças; o rapaz era perseguido por uma chuva de doestos e de imprecações. Sem levantar a cabeça, sem responder, assobiava estridentemente, e chicoteava, nos intervallos, resmungando:

—Toma! toma!...

Sempre que havia reuniões em casa de André para a leitura d’um folheto ou do ultimo numero d’um jornal estrangeiro, Vessoftchikof apparecia, sentava-se e escutava sem dizer palavra, durante uma ou duas horas. Concluida a leitura, os novos discutiam; elle porem não entrava na conversa, e era o ultimo a saír.

A sós com André, falava então com o seu modo sórna.

—Quem é o mais culpado de todos?

—Aquelle que foi o primeiro a dizer: «Isto é meu!» Mas como já morreu ha milhares d’annos, não vale a pena zangarmo-nos com elle! respondia André, gracejando.

—Mas os ricos e os poderosos? e os que os defendem? teem razão?

O russo-menor apertava a cabeça entre as mãos, retorcia o bigode e falava durante muito tempo acerca da vida dos homens, com palavras simples e claras.

Elle porém volvia:

—Não! Ha de haver culpados! Existem! Digo-te que é preciso revolvermos a vida toda, sem piedade, como um campo coberto de más hervas!...

—Foi o que o Isaías disse uma vez, falando do sr.... observou Pélagué.

—O Isaías?

—Sim. Que mau homem! Espia toda a gente... Vem até espreitar ás nossas janellas.

—Ás suas janellas?...

Ella estava já deitada e não lhe podia vêr a cara. Mas percebeu que tinha falado de mais, quando André disse, em tom conciliador:

—Pouco importa que elle venha espreitar-nos. Não tem que fazer a essa hora: passeia.

—Qual! exclamou o rapaz! Ora ahi tens o culpado?

—Culpado de quê? de ser parvo?

Mas o bexigoso não respondeu e saíu.

Pélagué não dormia.

—Tenho medo d’elle! exclamou. Parece um fogão levado ao rubro: não dá calor, mas queima.

—Sim... é um garôto irascivel. Nunca lhe fale do Isaías, mãesinha. Esse tal Isaias é em verdade um espião... Pagam-lhe até para isso.

—Que admira? O seu melhor amigo é um agente de policia!

—O Vessoftchikof ainda acaba por torcer-lhe o pescoço! Veja que sentimentos os que mandam na nossa vida fazem nascer nas camadas inferiores. O que succederá quando aquelles que se parecem com este rapaz tiveram a consciencia da sua situação humilhante e perderem a paciencia? O ceu raiar-se-á de sangue, e a terra cobrir-se-á d’espuma, como se a tivesse invadido um musgo vermelho.

—É terrivel, meu André!

—Os nossos inimigos não terão o que merecem. Todavia, mãesinha, cada gottinha do seu sangue terá sido lavado préviamente pelos lagos de lagrimas que o povo chorou.

E accrescentou, rindo:

—É justo, mas não é consolador!