XXII
Um domingo, quando a velha, voltando da mercearia, abriu a porta e appareceu no limiar, foi invadida por subita alegria, pois ouvira lá para o interior da casa, a voz de Pavel.
—Cá está elle! gritou André.
Pélagué notou a rapidez com que o filho se voltou para ella e o brilho que lhe assomou ao rosto.
—Eis-te afinal na nossa casa! murmurou.
Pavel avançou, muito palido, com pequeninas lagrimas bailando-lhe nos olhos, com os labios tremulos. Em silencio, os dois contemplavam-se.
—Obrigado, mamã! exclamou por fim, apertando-lhe a mão que estremecia. Obrigado, minha querida mãe!
Commovida por aquellas palavras, ella acariciava-lhe os cabellos, e reprimindo as pulsações do coração, disse com doçura:
—Deus seja comtigo! O que me agradeces?
—O teu auxilio na nossa grande obra! Obrigado! É uma honra enorme para o homem poder dizer que sua mãe tambem é sua parenta pelo espirito.
Não respondeu, aspirando, soffrega, as palavras do filho, contemplando-o, como em extasi perante aquelle rosto que lhe parecia tão luminoso.
—Eu calava-me, mamã, porque percebia que certas coisas da minha vida te impressionavam; tinha piedade da tua alma, e nada podia fazer que lhe fosse agradavel. Imaginava que nunca te juntarias a nós, que nunca seguirias as nossas opiniões, que continuarias a supportar tudo, em silencio, como o tinhas feito em toda a tua vida. E isto custava-me muito.
—O André deu-me a compreender tantas coisas!... observou, desejando chamar André ao sentimento do filho.
—Contou-me tudo o que tu fazias! disse, rindo.
—O Iégor tambem. Somos da mesma aldeia. Olha o André quiz ensinar-me a ler.
—E tu tiveste vergonha e pozeste-te a estudar sósinha, ás escondidas.
—Espreitou-me, então! notou, contrafeita. Mas que é d’elle? Foi-se d’aqui, para nos deixar á vontade. Chama-o, que elle... não tem mãe.
—André! Onde estás tu?
—Aqui. Vou rachar lenha.
—Tens tempo. Anda cá.
—Lá vou.
Não veio logo; e á porta, observou, dando importancia ao caso:
—É preciso dizer a Vessoftchikof que traga lenha, que já ha pouca. Vê como a cadeia fez bem ao Pavel? Em logar de punir os revoltados, o governo engorda-os.
—Ainda não comeste!... Vamos jantar, Pavel! propoz ella.
—Não. O guarda vigilante informou-me hontem de que tinham resolvido pôr-me em liberdade, e logo perdi a vontade de comer. A primeira pessoa que encontrei por cá foi o velho Sizof. Apenas me viu, atravessou a rua para me falar. Aconselhei-o a ser mais prudente, porque eu estou sob a vigilancia da policia. «Que tem isso?» foi a sua resposta. E sabes o que me perguntou acerca do sobrinho? «O Fédor tem-se portado bem na cadeia?» E eu: O que entende por isso de portar-se bem? «Ora!... não dar com a lingua nos dentes a respeito dos companheiros!» Quando lhe disse que elle era um bom rapaz e intelligente, passou a mão pela barba, e disse com altivez: «Nós, os Sizof, não temos patifes na familia!»
—Não tem nada de tolo, esse velho. E o Fédia vem para a rua por estes dias?
—Provavelmente. Creio mesmo em que virão todos. Não ha provas contra nós. Apenas o depoimento do Isaías... Mas o que pode elle saber?
—Sentemo-nos! disse Pélagué, servindo o jantar.
Comendo, André referiu-se a Rybine. Quando acabou de contar o que se tinha passado, Pavel murmurou, com muito pezar:
—Se eu cá estivesse, não o teria deixado partir assim. O que leva na sua alma? Um sentimento de revolta e umas idéas embrulhadas...
—Ora! disse André, sorrindo. Quando um homem tem quarenta annos e luctou durante muito tempo contra as dúvidas e as hesitações da sua alma, é difficil transformal-o.
Discutiam, empregando termos que a velha não compreendia, até ao fim do jantar, embora por vezes falassem mais a claro.
—Devemos continuar no nosso caminho, sem nos desviarmos d’elle nem uma linha! exclamou Pavel com firmeza.
—E esbarrarmos no caminho com dezenas de milhões de homens que nos consideram seus inimigos.
Pélagué poude concluir que Pavel não gostava dos camponezes, ao passo que André os defendia, entendendo ser preciso ensinar-lhes o bem. Compreendia melhor André. Sempre que elle dizia qualquer coisa a Pavel, prestava muita attenção, deixando mesmo de respirar, esperando com impaciencia a resposta do filho, para ver se o russo-menor o teria offendido. Mas os dois continuavam discutindo sem se zangarem.
De quando em quando, perguntava:
—É assim, Pavel?
E elle respondia, sorrindo:
—É.
—Com que então o senhor, dizia André, em tom de malicia, comeu bem, não mastigou bastante e ficou embatocado?...
—Não digas tolices!
—Eu. Estou mais serio do que n’um enterro!
E a velha ria...