XXIX
Pélagué distinguiu á entrada da rua um como pequeno muro, cinzento baixo, composto de seres humanos sem fisionomia e que tapavam a saída da praça.
Era este muro que infundia o receio em toda aquella gente.
—Companheiros! continuava Pavel. A vida inteira está na nossa frente! Não temos outro caminho! Cantemos! P’rá frente!
Respondeu-lhe um silencio esmagador. A bandeira ergueu-se, balouçou, e agitando-se por sobre as cabeças, apontou para o muro cinzento dos soldados. Pélagué estremeceu, fechou os olhos e suspirou: apenas quatro pessôas se tinham destacado da multidão e avançavam: Pavel, André, Samoílof e Mazine.
Ouviu-se a voz trémula de Fédia, cantando:
—«Sois as victimas prostradas!...»
—Na grande lucta fatal! continuaram duas vozes como dois suspiros abafados.
E uma voz de commando chegou aos ouvidos de alguns:
—Cruzar baionetas!
O muro cinzento agitou-se, as baionetas fuzilaram no ar, na direcção da bandeira.
—Marche!
—Ahi veem elles! exclamou um vesgo que estivera proximo de Pélagué; e mettendo as mãos nas algibeiras, afastou-se com grandes pernadas.
Os soldados avançavam em fila, de baioneta calada. Pélagué approximou-se do filho, com as mãos no peito e viu André collocar-se na frente d’elle, como para protegel-o.
—Ao meu lado, companheiro! ordenou Pavel.
Com as mãos nas costas, André cantava, de cabeça erguida, avançando sempre. Pavel deu-lhe um encontrão com o hombro, exclamando:
—Aqui! ao meu lado! Não tens o direito de ir á minha frente! O primeiro deve ser o porta-bandeira!
—Dis... per... sae!... gritava um officialsito com voz aguda, de sabre no ar, marchando sem dobrar os joelhos e batendo com os tacões, raivoso.
A seu lado, um pouco atraz, marchava pesadamente um homem muito alto de farto bigode branco, com uma grande capa cinzenta, debruada de vermelho, e as amplas calças listradas de amarello. Como o russo-menor, caminhava com as mãos nas costas. Tinha os olhos cravados em Pavel.
Os da bandeira e os soldados iam-se approximando; estes, no seu caminho, iam fazendo dispersar a multidão sem lhe tocar.
—Salve-se quem puder!
—Vem, Vlassof!
—Para traz, Pavel!
—Dá cá a bandeira, Pavel! dizia Vessoftchikof. Eu a escondo.
E deitou-lhe a mão.
—Deixa! berrou Pavel.
O bexigoso retirou logo a mão, como se se tivesse queimado. O hymno cessára de todo. Os rapazes pararam, envolvendo Pavel n’um circulo, que elle acabou por transpor.
Sob a bandeira haveria, quando muito, uns vinte homens; mas firmes.
—Tenente, prenda aquelle! ordenou o velho alto apontando para Pavel.
O officialsito accorreu logo, e agarrou no pao da bandeira.
—Dá cá isso!
—Não! Abaixo os oppressores do povo!
A bandeira tremia; inclinava-se ora para a direita, ora para a esquerda, ficando depois erecta. Vessoftchikof passou pela frente de Pélagué, com o braço erguido, de punho cerrado, e com uma rapidez que ella não lhe conheceu.
—Agarrem todos! berrou o velho, batendo com o pé.
Alguns soldados avançaram, um d’elles com a coronha no ar; a bandeira estremeceu, baixou e desappareceu no grupo cinzento.
Pélagué soltou um grito, um rugido que não tinha nada de humano. Aos ouvidos chegou-lhe a voz do filho:
—Até á vista, mãe! até á vista!
«Está vivo! não se esqueceu de mim!» taes foram os seus dois rapidos pensamentos.
Poz-se nos bicos dos pés e conseguiu ver a cara de André.
—Meus filhos, meus queridos filhos! André! Pavel!
E elles iam dizendo:
—Até á vista, companheiros!
Algumas vozes lhes responderam, mas não em unisono; vinham das janellas, dos telhados, não se sabia d’onde.