XXVIII
Quando na rua ella ia ouvindo o murmurio das vozes, quando via por toda a parte, nas janellas, ás portas das casas, grupos que seguiam com o olhar André e Pavel, o coração ora parecia brilhar-lhe, ora toldar-se de uma nuvem opaca.
Ouviam-se frases soltas:
—Ali vem os commandantes do exercito!
—Sabemos lá quem são os commandantes?!...
—Isto não foi por mal.
—Se a policia os agarra, estão perdidos!
—Isso agarra ella!
Um grito agudo, de mulher, partiu d’uma janella.
—Estás doido? És pae de familia!... Elles são solteiros!
Ao passarem defronte da casa de um tal Zossimof, operario inhabilitado que vivia d’uma pensão da fabrica, elle chegou á janella e berrou:
—Ó Pavel, olha que te cortam a cabeça, como a um salteador!
André e Pavel pareciam não ver, não ouvir nada. Caminhavam, calmos, sem pressa, falando em voz alta de varios assuntos.
Encontrando Mironof, homem d’idade, modesto, respeitado pela vida exemplar que levava:
—Tambem não trabalha hoje, Danilo Mironof? perguntou Pavel.
—A minha mulher está com as dôres do parto... e depois... anda uma coisa no ar... Dizem que os srs. querem fazer escandalo, partir os vidros da fabrica...
—Não somos uns bebados! exclamou Pavel.
André explicou:
—Atravessaremos apenas as ruas, levando bandeiras e cantando o hymno da liberdade. Oiça o nosso hymno, que elle lhe ensinará as nossas crenças.
—Já as conheço...
E vendo Pélagué:
—Tambem tu?
—Devemos caminhar com a verdade, mesmo á beira da cova.
—É isso! Aqui está porque dizem que tu levas folhetos proíbidos para a fabrica.
—E quem o diz? perguntou Pavel.
—Toda a gente. Adeus... adeus... Não façam algum disparate.
Pélagué poz-se a rir baixinho: envaidecia-a que assim falassem d’ella. O filho disse-lhe:
—Mettem-te na cadeia, mamã.
—Quem me dera!
Á esquina d’uma pequena praça, á entrada de uma rua estreita, umas cem pessoas cercavam Vessoftchikof, que discursava.
—Espremem-nos para nos tirarem o sangue, como espremeriam um limão para lhe tirarem o succo.
—É verdade! responderam algumas vozes que se confundiram depois no confuso ruido.
—Faz o que pode, o pobre rapaz! disse André. Vou ajudal-o.
Approximou-se do grupo, abaixou-se, penetrou n’elle como um sacca-rôlhas e começou:
—Companheiros! Dizem que ha na terra toda a especie de povos: judeus e allemães, francezes, inglezes, tartaros. Mas não creio que assim seja. Ha só duas raças, dois povos irreconciliaveis: os ricos e os pobres. Os vestuarios são differentes, as linguas tambem; mas quando se vê como os senhores tratam o povo, compreende-se que elles são verdadeiros carrascos para os miseraveis, uma especie de espinha atravessada na garganta.
Rebentou uma gargalhada.
O ajuntamento augmentou; os ouvintes estendiam o pescoço, punham-se nos bicos dos pés.
—No estrangeiro, os operarios já compreenderam esta simples verdade. E hoje todos confraternisam n’este luminoso dia primeiro de maio. Deixam o trabalho, e saem para a rua, para se verem, para medirem a sua grande força. Hoje formam um coração unico, porque todos os corações têem a consciencia da força do povo operario, porque a amisade os une, estando cada qual disposto a sacrificar a vida luctando pela felicidade de todos, pela liberdade, pela justiça a todos!
—A policia! gritou alguem.
Dez guardas a cavallo voltaram a esquina proxima e dirigiram-se para o ajuntamento, de chicote no ar, e intimando:
—Nada de ajuntamentos!
—Girem!
—Que conversas eram essas?
—Quem falava?
As fisionomias annuviaram-se: todos davam passagem aos cavallos; alguns treparam a uns tapumes.
Depois veio a troça.
—Olhem: montaram uns porcos a cavallo, e elles grunhem: «Nós tambem damos ordens!»
André ficou sósinho no meio da rua. Dois cavallos avançaram para elle, ao mesmo tempo que Pélagué o agarrava, dizendo-lhe:
—Prometteste não abandonar o Pavel, e vens expôr-te assim!...
...Chegaram afinal á grande praça, ao centro da qual se erguia a egreja. No largo havia umas quinhentas pessoas, movendo-se impacientes.
—Mitia! supplicava uma voz feminina. Tem cuidado em ti!
—Deixa-me em paz!
A voz amiga e grave de Sizof dizia, calma e persuasiva:
—Não! não devemos abandonar os rapazes. Teem mais juizo do que nós, e mais audacia. Quem foi que se metteu no caso do kopeck para o pantano? Foram elles. Não nos esqueçamos. Estiveram na cadeia por causa d’isso, mas todos nós aproveitámos da sua coragem!
O rugido do apito da fabrica supplantou o ruido das conversas. A multidão estremeceu; muitos empallideceram.
—Companheiros! gritou Pavel.
A seu lado, a mãe tremia. Decorridos instantes, quando tudo caíra em silencio:
—Irmãos! Chegou a hora de renegarmos d’esta vida cheia d’aridez, de trevas e de odio, esta vida de oppressão em que não ha um logar para nós, em que não somos homens! Companheiros! resolvemos declarar hoje, abertamente, quem somos, desfraldando a nossa bandeira, a bandeira da razão, da verdade, da liberdade!
Um pao de bandeira comprido e branco for levantado ao ar, tremulando n’elle, como uma ave vermelha, a bandeira do povo operario.
Pavel estendeu o braço, gritando:
—Viva o povo operario!
Centenares de vozes lhe responderam em unisono.
—Viva o nosso partido, companheiros! Viva a liberdade do povo russo!
Mazine, Samoílof, os dois Goussef tinham-se postado junto de Pavel; Vessoftchikof ia empurrando quem lhe impedia o caminho até elle. Pélagué, trémula, com os olhos cheios de lagrimas, agarrou-lhe novamente n’uma das mãos, balbuciando:
—Sim!... é a verdade!... meus amigos!
Elle contemplava a bandeira, rugindo palavras vagas, e com a outra mão estendida para o símbolo da liberdade. Depois abraçou-se a Pélagué, rindo.
—Companheiros! começou então André, dominando o sussurro com a sua voz meiga, potente e cantante. Erguemo-nos em honra d’um novo Deus, do Deus da luz e da verdade, da razão e da bondade! Partimos para a cruzada, companheiros, e o caminho será comprido e difficil. O fim está distante, e os espinhos estão proximo. Queremos ao nosso lado os que vejam o fim e creiam no bom exito; os outros não, porque só os esperam o pezar e o soffrimento. Entrae nas fileiras, companheiros! Viva o primeiro de maio, a festa da humanidade livre!
Pavel ergueu a bandeira.
—Reneguemos do velho mundo! cantou Fédia Mazine com voz sonora.
A resposta veio logo como uma enorme vaga potente:
—Saccudamos a poeira dos pés!
Pélagué, com um sorriso ardente, via por cima da cabeça de Fédia, o filho e a bandeira. No meio das vozes mais proximas que entoavam o hymno, chegava-lhe aos ouvidos a de André:
Ergue-te, ergue-te, ó povo operario!
Revoltae-vos, esfomeados!...
E o povo corria, apertava-se, avançando para a bandeira, proseguindo no hymno, que em voz baixa tinha sido aprendido em casa.
Corramos para aquelles que soffrem...
Um rosto de mulher, meio jubiloso e meio assustado, surgiu ao lado de Pélagué.
—Mitia, onde vaes?
E a velha respondeu:
—Deixe-o lá! Não lhe dê cuidado! Eu tambem tinha mêdo, d’antes. O meu está á frente de todos. Aquelle que tem na mão a bandeira é o meu filho!
A outra porem continuava:
—Ó desgraçado! que fazes? Os soldados estão ali adiante!
—Não se assuste! Isto é uma missão sagrada! Até Jesus não teria existido, se não houvesse homens que morreram por sua causa!
Sizof appareceu perto d’ella, agitando no ar o boné, ao compasso do hymno:
—Isto é que é bem ás claras! ãn? Inventaram um hymno que é mesmo lindo! ãn?
O tzar quer soldados na tropa:
Vossos filhos lhes daes...
—Não teem medo de nada! exclamou Sizof. O meu filho está na cova... Foi a fabrica que o matou!
Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido!
A multidão, allucinada, nem olhava para traz de si, com os olhos fitos na bandeira vermelha, que balouçava ao vento.
—Bello côro! bravo, rapaz! berrava um entusiasta; e invadido por um sentimento, que não sabia exprimir, desatou a rogar pragas.
D’uma janella partiu uma voz de canna rachada:
—Hereticos! Revoltarem-se contra Sua Majestade o Imperador! contra o tzar!
Mas o hymno continuava, firme, altivo.
Pélagué, que no meio dos encontrões, fôra sendo empurrada para distante do centro do grande ajuntamento, ouvia então frases soltas:
—Perto da escola está uma companhia de soldados, e outra na fabrica...
—O governador já chegou...
—O quê? é verdade?
—Vi-o com os meus olhos!
—Ainda bem! Começam a ter medo de nós! Já nos mandam soldados, e o governador.
As vozes do côro foram enfraquecendo; dir-se-ia um movimento de recúo. Alguns iam-se calando. Aqui e ali havia quem tentasse animar de novo o hymno moribundo.
Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido!
Ao inimigo, ó gente esfaimada!
Pélagué não podia ver o que se passava no centro; abrindo á força caminho, notou que a multidão tendia a dispersar, de cabeça baixa, sobrolhos franzidos, com as narinas contrafeitas. Ouviam-se já alguns assobios trocistas.
—Companheiros! gritava Pavel. Os soldados são homens como nós. Não nos farão mal. Porque haviam de fazel-o? Porque levamos a liberdade a todos? Mas precisam tambem da nossa verdade. Não compreendem ainda, mas tempo virá, e muito em breve, em que entrarão nas nossas fileiras, em que já não marcharão sob o estandarte dos gatunos e dos assassinos, mas sim á sombra da nossa bandeira da liberdade e do bem! E para que elles compreendam mais depressa a nossa liberdade, caminhemos para a frente! Ávante! companheiros! ávante!
A sua voz era firme, mas o rebanho dispersava.