XXV
Alguem acabava de chegar sob o alpendre. Mãe e filho entreolharam-se, estremecendo.
A porta abriu-se e deu entrada a Rybine. Trazia vestida uma capa curta, de pelles, toda manchada de alcatrão, e nos pés sapatos de canhamo; do cinto pendiam-lhe grosseiras luvas de lã preta; na cabeça um boné de pelles.
—Como vão de saúde? Puzeram-te na rua, Pavel? E tu, Pélagué, como vaes?
—Ah! és tu? muito estimo ver-te!
—Olha que vens mesmo lindo! disse Pavel.
Rybine respondeu, tirando vagarosamente a capa:
—Sim. Fiz-me camponez. Tu e os teus vão-se transformando pouco a pouco em senhores; eu ando para traz.
E passando ao quarto, lançou o olhar em roda.
—Não teem mais mobilia do que d’antes. Os livros é que augmentaram. São o melhor bem que se pode possuir hoje. Como vão as coisas por cá? Conta-me.
Sentou-se abrindo muito as pernas, apoiou as palmas das mãos nos joelhos, parecendo satisfeito na espectativa da resposta de Pavel.
—Vão bem.
—Muito me alegro! muito me alegro!
—Queres chá? perguntou a dona da casa.
—Pudera! e um copinho de aguardente... e se me offerecessem de comer, tambem não recusaria. Estou contente por tornar a vêl-os!
—E como vae?
—Bem. Parei em Eguildiévo. Conhecem? É uma bella villa, com duas feiras por anno e mais de dois mil habitantes. Má gente. Não ha terras para cultivar; arrendam-nas, mas são de má qualidade. Entrei como assalariado ao serviço de um explorador do povo; não faltam d’estas sanguesugas; são como as moscas á roda de um cadaver. Fazemos carvão, extraímos alcatrão das bétulas. Trabalho duas vezes mais do que trabalhava aqui, e ganho quatro vezes menos. Ao serviço d’esta sanguesuga somos sete, todos lá da terra, menos eu. Sabem ler e escrever. Um delles, chamado Jéfim, é muito bulhento...
—E fala muito com elles?
—Está claro. Levei comigo todos os meus folhetos. Tenho trinta e quatro. Mas prefiro servir-me da Bíblia: encontra-se lá tudo o que se quer, e é um livro permittido, publicado pelo Santo-Synodo, e no qual se pode crer.
Piscou o olho, malicioso, e continuou:
—O peor é que não basta. Vim cá buscar leitura. Como vamos fazer uma entrega d’alcatrão, o tal Jéfim e eu, combinámos a patuscada de passar por tua casa... Dá cá livros antes que elle appareça... É inutil que elle fique sabendo...
Pélagué observava-o; parecia-lhe que ao largar a capa, largara tambem qualquer coisa da sua pessôa: estava menos grave do que d’antes, e havia no seu olhar mais astucia.
—Mamã, vae buscar os livros. Dize que vão para o campo, que logo sabem o que te hão de dar.
—Irei apenas o samovar esteja pronto.
—Quero livros proíbidos e bem incisivos. Distribuil-os-ei ás escondidas. E se o padre ou alguem da policia os descobrir, imaginarão que os mestres-escolas é que fazem a propaganda. De mim ninguem suspeitará.
Satisfeito por este achado, desatou a rir.
—Olha sabes? disse Pélagué. Tens assim o aspecto de um urso, e afinal és uma raposa!
Pavel ergueu-se, em tom de censura:
—Dar-lhe-emos os livros que deseja, mas o que pensa fazer não lhe fica bem.
—E porquê?
—Porque se deve responder sempre pelo que se faz.
—Não percebo o que dizes!
—Acha bem que os mestres-escolas sejam mettidos na cadeia como suspeitos de fazerem propaganda?
—Então? que tem isso? Essa é boa! Os livros são coisa que lhes dizem respeito, a elles; portanto elles que tenham a responsabilidade!
Pélagué interveio, mostrando-se da opinião de Rybine, ao que Pavel objectou:
—Se qualquer de nós, o André por exemplo, praticasse uma infracção da lei e me mettessem na cadeia, a mim, o que diria a minha mãe?
—Ah! ah! É um caso melindroso!... exclamou Rybine. Mas assumindo uns ares doutoraes:
—Ainda és muito ingenuo, irmão! Não nos devemos preoccupar com casos de honra, quando trabalhamos por uma causa secreta. Reflecte: quem primeiro caírá na cadeia será a pessoa a quem forem encontrados os livros, e não o mestre. Depois, o texto dos livros auctorisados que os mestres distribuem é o mesmo dos livros proíbidos, com simples differenças de palavras e com menos coisas verdadeiras do que os nossos. Portanto os mestres teem o mesmo fim que eu, mas servem-se de rodeios, ao passo que eu vou por caminho direito; e assim, aos olhos das auctoridades, somos igualmente culpados; não achas? Em terceiro logar, que tenho eu a ver com os mestres-escolas? Não procederia da mesma maneira com um camponez. O mestre-escola é um filho de padre; a mestra uma filha de proprietario; não sei porque se põem a querer levantar o povo. Eu, camponez, não posso conhecer os seus pensamentos de pessôas instruidas. Sei o que faço, mas ignoro o que elles querem. Durante milhares d’annos, os grandes eram verdadeiros senhores e tiravam a pelle do povo; de repente accordam e começam a abrir os olhos ás suas victimas. Nunca tive predilecção por contos de fadas, e este é um d’elles. Para mim, a gente rica e instruida, seja qual fôr, fica afastada de nós. No inverno, quando atravessamos os campos e vemos ao longe alguma coisa a mexer, perguntamos a nós mesmos: será uma raposa, um lobo, um cão? Sabe-se lá o que é!
E, passando a mão pela barba:
—Não tenho tempo para delicadezas. O momento é grave. Trabalhe cada qual, segundo a sua consciencia... Todas as aves teem o seu canto especial.
—Mas ha ricos que se sacrificam pelo povo, que passam toda a vida na cadeia... observou a velha, recordando-se de pessoas amigas.
—Com esses o caso é outro. Quando o homem do povo enriquece, acotovella-se com os senhores. Estes, quando empobrecem, tornam-se amigo do povo. Quando a algibeira está vasia, a alma torna-se pura, á força.
Ergueu-se e continuou, sombriamente:
—Durante cinco annos, desacostumei-me do campo, andando errante de fabrica em fabrica. Quando para lá voltei e vi o que se passava, disse comigo que não podia viver como vivem os camponezes. Percebes? Parecia-me impossivel. Por cá não se conhece a fome, nem a muita humilhação. Mas na aldeia a fome segue o homem como uma sombra durante toda a vida, sem nunca lhe dar a esperança de obter pão que chegue. A fome devorou as almas, apagou as feições humanas; não se vive: apodrece-se irremediavelmente na miseria. E as auctoridades vigiam, cuidadosas; como os corvos, espreitam, não se dê o caso de que o camponez tenha um bocado de pão a mais. Quando o descobrem, arrancam-lho da mão, e ainda lhe dão com elle na cara!
Encostado á mesa, de pé, falando muito perto de Pavel, proseguiu:
—Julguei que não poderia supportar semelhante vida. Todavia, dominei-me. Disse com os meus botões: «Não devo consentir que a minha alma me faça partidas! Ficarei aqui, e, não podendo dar pão aos camponezes, farei a zaragata!»
Com a fronte coberta de suor, exclamou:
—Dá-me livros que não deixem mais em descanso aquelles que os lerem. Ajuda-me! É preciso metter ouriços dentro da cabeça d’aquella gente. Dize aos que escrevem folhetos para os da cidade, que os escrevam tambem para os do campo. Que os escrevam de maneira a regar o campo de agua a ferver, para que os cultivadores, depois de lel-os, caminhem para a morte sem protestarem!
As frases vigorosas de Rybine impressionavam Pélagué. Havia n’aquelle homem o que quer que fosse que lhe recordava o marido: um e outro mostravam os dentes e arregaçavam as mangas, com a mesma irritação impaciente. Ao menos, Rybine falava.
—Sim! é indispensavel! disse Pavel. É indispensavel organisar um jornal para o campo. Dê-nos o assumpto, narre-nos os factos, e nós lhe daremos um jornal.
Ao que Rybine respondeu.
—Está dito! Mas escrevam com simplicidade, para que até os vitellos os entendam!