XXVI

Pélagué tinha saído. Pouco depois alguem entrava.

—É o Jéfim! informou Rybine. Entra! Anda cá. Este homem, que vês aqui, chama-se Pavel. Foi d’elle que eu te falei.

Jéfim era um rapagão de cara ampla, cabellos ruivos, olhos pardos, robusto e bem talhado, trajando uma capa curta. Avançou até Pavel, de boné na mão e olhar baixo.

—Ora viva! resmungou, apertando a mão de Pavel, e tendo percorrido o quarto com o olhar, demorando-o na estante dos livros, poz-se a alisar com a mão os cabellos asperos.

—Já os viu! exclamou Rybine.

Jéfim foi ver os livros mais de perto.

—Ih! quantos ha por cá! E naturalmente lê-os muito. No campo, não temos tempo...

—E pouca vontade, não? perguntou Pavel.

—Ao contrario! Hoje somos obrigados a pensar, se não, não nos resta mais do que deitarmo-nos e esperarmos a morte. Como o povo não quer morrer, poz-se a trabalhar com o cerebro. «Geologia?...» O que é isto?

Pavel explicou.

—Não precisamos d’isso! concluiu Jéfim pondo o livro no seu logar.

Rybine commentou:

—O camponez não tem curiosidade de saber d’onde veio a terra, mas sim como foi distribuida, como os proprietarios a arrancaram de sob o dominio do povo. Que ella se mova ou não, que importa! comtanto que dê de comer!

—«Historia da escravatura!» Isto é com a gente?

—Aqui tem um acerca da servidão.

—É já muito velho.

—Possue algumas terras?

—Somos trez irmãos, e temos quatro hectares... terreno de areia fina. Coisa fresca, para limpar metaes! mas para cultivar o trigo... Eu cá libertei-me da terra. Não sustenta o homem, antes o traz manietado. Ha quatro annos que me alugo como manufactor... Para o outomno vou para a tropa.

O Mikhaíl diz-me que não vá, porque obrigam os soldados a baterem no povo. Mas vou, por força! É tempo de acabar com isto. Que lhe parece?

—É tempo, é... respondeu Pavel, sorrindo. Mas o difficil está em saber falar aos soldados.

—Aprende-se!

—Mas se o apanham em flagrante, podem fuzilal-o.

—Sim... não me perdoarão... respondeu tranquillamente, voltando a vêr os livros.

—Vamos ao chásinho, companheiro, que temos que abalar! disse Rybine.

André entrou muito vermelho, encalorado e taciturno. Apertou a mão de Jéfim, sem falar, assentou-se ao lado de Rybine, e, depois d’olhar para elle, sorriu.

—Pareces triste, homem! Porquê? perguntou aquelle dando-lhe uma palmada no joelho.

—Porque sim!

Jéfim, observava attentamente André, até que disse:

—Os trabalhadores das cidades e villas são magrizellas, teem os ossos a romper a pelle. Nós cá, os do campo, somos mais roliços...

Rybine completou:

—O camponez tem mais firmeza nas pernas. Sente a terra debaixo dos pés, ainda que não lhe pertença. Mas o operario é como um passaro: não tem patria, nem lar; um dia aqui, outro dia ali.

Pélagué entrou. Jéfim tinha-se approximado de Pavel a quem pediu:

—Poderia dar-me um livro?

—Da melhor vontade.

O jubilo brilhou-lhe no olhar.

—Eu restituo depois. Obrigado! Hoje, os livros são tão precisos como á noite uma candeia.

Rybine tinha posto a capa.

—Vamos, que são horas.

—Olha: já tenho que ler! exclamou Jéfim, mostrando-lhe o livro, com um sorriso muito aberto.

Quando elles saíram, Pavel dirigiu-se a André.

—Que me dizes áquelles diabos?

—Parecem nuvens á hora do crepusculo: grossos, sombrios, arrastando-se lentamente...

—Tenho pena de que não chegasses mais cedo. Terias observado um coração, tu, que estás sempre a falar de coração. Rybine disse das suas... Não soube que responder-lhe. A minha mãe tem razão: aquelle homem traz em si uma força terrivel!

—Conheço isso! Essa gente do campo anda envenenada! Quando se revoltarem, derrubarão tudo, sem distincção. Querem a terra absolutamente sua, e arrancarão tudo o que a cobre.

Falava de vagar; percebia-se que pensava n’outra coisa. Pélagué disse-lhe com blandicia:

—Deves espairecer, André!

—Deixe, mãesinha, deixe... Embora eu não quizesse tel-o feito, a acção foi abominavel!

E voltando ao assumpto da conversa:

—O nosso camponez queimará tudo, como se tivesse havido uma peste, para que todos os vestigios das suas humilhações vôem com as cinzas.

—E levantar-se-á depois contra nós... continuou Pavel.

—O nosso dever é não lho consentir, reprimindo-o! Somos nós quem se encontra mais perto d’elle. Acreditar-nos-á... seguir-nos-á!

—Sabes? O Rybine pediu-me que fizessemos um jornal para os camponezes.

—Apoiado! É tratar d’isso.

E depois de commentar as ultimas palavras de Rybine, ergueu-se, dizendo:

—Vou dar um passeio ao campo.

—Depois do banho? Olha que faz muito vento... Vaes arranjar uma irritação na pelle! accudiu Pélagué.

—Deixal-o! Quero saír.

Vestiu-se e foi-se sem dizer palavra.

—Soffre! suspirou a velha.

—Tens um bello coração, mamã!

—Oxalá assim seja! Se ao menos podesse ajudal-os!... se eu soubesse!...

—Não te dê cuidado: has-de saber.

O russo-menor voltou tarde; estava fatigado; deitou-se logo, dizendo:

—Parece-me que andei uns dez kilometros...

—Isso vae melhor?

—Não sei... Não faças barulho... Deixa-me dormir.

Pouco depois, Vessoftchikof appareceu, sujo, esfarrapado e de mao-humor como sempre.

—Não sabes quem matou o Isaías?

—Não! respondeu Pavel.

—Até que houve um homem que não achou antipatico esse feito! E eu que me preparava para torcer-lhe o pescoço!...

—Não digas essas coisas, companheiro!

Pélagué interveio:

—És bom e tens sempre palavras tão crueis!... Para quê?

Era-lhe então agradavel tornar a vêl-o; o seu rosto bexigoso chegava até a parecer-lhe bonito; sentia mais piedade por elle.

—Eu não sirvo para nada, senão para taes emprezas! Pergunto constantemente qual é o meu logar. Não o encontro. Se é preciso falar... não sei... Vejo tudo, sinto todas as humilhações dos homens, e não posso exprimil-as. Tenho uma alma muda. Irmãos, dêem-me um trabalho penoso, seja qual fôr. Não posso viver assim, sem fazer nada em favor da nossa causa.

Pavel pegou-lhe n’uma das mãos.

—Havemos de pensar em ti, descansa.

—André disse lá da cama:

—Ensinar-te-ei a conhecer as letras d’imprensa, e serás um dos nossos compositores; queres?

—Se me ensinares, dar-te-ei de presente uma navalha.

—Vae para o diabo mais a tua navalha!

—Uma navalha bôa! insistia.

André e Pavel riram á larga. Elle parou no meio do quarto, perguntando:

—Estão a rir-se de mim?

—Então de quem?

E o russo-menor saltou da cama.

—Se fossemos dar um passeio pelo campo? A noite está bôa, ha luar. Vamos?

—Pois vamos! apoiou Pavel.

—E eu tambem vou. Gosto de ouvir rir o André!

—E eu gosto que me promettas presentes!