XXVII

Ao sair do tribunal, ficou Pélagué admiradissima com vêr que já a noite caíra sobre a cidade, os candieiros das ruas accesos; as estrellas scintillando no céu. Nas circumvisinhanças do palácio da justiça, formavam-se pequenos agrupamentos; na gélida atmosfera, ouvia-se o ruído da neve rangendo sob o andar; vozes de gente nova interpellavam-se mutuamente. Approximou-se de Sizof um homem coberto com um capuz cinzento e perguntou em voz rápida:

—Qual foi a sentença?

—O degredo.

—Para todos elles?

—Para todos...

—Obrigado!

O homem afastou-se.

—Bem vês! disse Sizof á mãe de Pavel. Bem vês como isto os interessa.

De súbito, encontraram-se cercados por uma dúzia de rapazes e raparigas. Entraram a chover as exclamações, que attraíam ainda mais gente para o grupo. Sizof e Pélagué tiveram de parar. Todos queriam conhecer a sentença, saber como se tinham comportado os réus, quem tinha pronunciado discursos e sobre que assunto. E em todas estas perguntas vibrava a mesma nota de curiosidade ávida e sincera.

—É a mãe do Pavel Vlassof! gritou uma voz.

Calaram-se todos á uma.

—Permitta que lhe aperte a mão!

E logo uma mão sólida se lhe apoderou da sua, com vigor. A mesma voz continuou, trémula de entusiasmo:

—O seu filho será para nós todos um nobre exemplo!

—Viva o operariado russo! gritou uma voz vibrante.

—Viva a revolução!

—Morra a autocracia!

Multiplicavam-se os brados, cada vez mais violentos; rebentavam pelo ar, cruzando-se; accudia gente de todos os lados e apinhava-se em torno de Sizof e Pélagué. Os apitos dos policias rasgavam o ar, mas sem conseguirem dominar o borborinho. O velho ria. Quanto a Pélagué, parecia-lhe tudo aquillo um bello sonho. Sorria, apertava centenas de mãos, cumprimentava. Comprimiam-lhe a garganta lagrimas de felicidade; vergavam-lhe as pernas de cansadas, mas o seu coração, transbordando de triumfante alegria, reflectia as suas impressões como o claro espelho da água d’um lago.

Perto d’ella, uma voz clara exclamou em tom enervado:

—Companheiros! amigos! O monstro que devora o povo russo, satisfez hoje mais uma vez os seus appetites!...

—Vamo-nos embora! disse Sizof.

N’esse mesmo instante, appareceu Sachenka. Agarrou Pélagué por um braço e puxou-a para o passeio opposto, aconselhando:

—Venha... A policia póde atirar-se para cima de nós e bater-nos... Ou vão prender-nos... E então? Foi o degredo, não foi? Para a Sibéria?

—Sim, é verdade!...

—E elle que fez? Falou? Eu já sei tudo, afinal... É elle o mais valoroso tambem, é certo! É sensivel e terno, mas sempre se acanha quando tem de manifestar os seus sentimentos. É firme e resoluto como a própria verdade!... É um grande homem, e tudo reside n’elle... tudo! Mas a maior parte das vezes, elle próprio se constrange... com o receio de não se entregar todo elle, d’alma e coração, á causa do povo... Eu sei-o bem!

Estas palavras d’amor, segredadas em um desabafo de paixão, acalmaram Pélagué, reanimando-lhe as desfallecidas forças.

—Quando vae encontrar-se com elle? perguntou á rapariga, em voz baixa e affectuosa, puxando-a muito para si.

Sachenka respondeu, com o olhar fito na sua frente, e com tranquilla decisão:

—Tão depressa encontre quem se encarregue do meu trabalho! Porque em breve me tocará a vez de responder em juizo... Hão de mandar-me tambem para a Sibéria. Direi então que desejo ser deportada para o sitio em que elle estiver...

Por detraz das duas mulheres ouviu-se então a voz de Sizof:

—Faça-lhe os meus cumprimentos!... Chamo-me Sizof. Elle conhece-me: sou tio do Fédia Mazine.

Sachenka parou para se voltar e estender-lhe a mão:

—Eu conheço o Fédia. O meu nome é Sachenka.

—E o seu nome de familia?

Ella lançou-lhe um breve olhar, e respondeu:

—Não tenho familia. Já não tenho pae.

—Morreu?

—Não, está vivo! declarou já excitada.

E alguma coisa obstinada, teimosa, lhe vibrou na voz e transpareceu nas feições. É um proprietario rural, e é chefe do districto. Agora, rouba a gente do campo... e maltrata-a!

—Ah! proferiu Sizof arrastadamente.

E apóz silencio, ajuntou, ao mesmo tempo que examinava a rapariga de soslaio:

—Bem, então, adeus, tiasinha! Eu vou por aqui!... Apparece para tomar chá e cavaquear um pedaço... quando quizeres!... Até mais vêr, minha menina!... A menina é muito severa para com o seu pae!... Está claro que isso é lá comsigo!...

—Se seu filho fôsse um homem inutil, prejudicial aos outros, o senhor dizia-o? exclamou Sachenka, com paixão.

—Dizia, sim, senhora! respondeu o velho, depois de hesitar um momento.

—Por consequencia, a verdade merecer-lhe-ia mais apreço do que o seu filho. Pois a mim merece-me mais apreço do que o meu pae...

O outro abanou a cabeça, e em seguida, suspirando:

—Ah! é astucioso, sim, senhora! Se tem assim resposta para tudo, os velhos não pódem resistir-lhe! Sabe atacar pela certa! Até mais vêr! Desejo-lhe todas as felicidades possiveis... Mas seja mais condescendente com as pessôas sim? Que Deus vá comsigo! Adeus, Pélagué! Se falares com o Pavel, diz-lhe que ouvi o seu discurso... Não percebi tudo... Até me metteu medo em certas occasiões, mas o que elle disse é a verdade!

Ergueu o bonné e desappareceu, sem se apressar, na volta da esquina.

—Deve ser um bom homem! observou Sachenka, seguindo-o com olhar risonho.

Parecia a Pélagué vêr no rosto da sua companheira expressão mais meiga e melhor do que de costume...

Chegadas a casa, sentaram-se no canapé, muito uma á outra. Pélagué referiu-se de novo aos planos de Sachenka. Com as espessas sobrancelhas muito erguidas, pensativa, a outra olhava para distante com os seus grandes olhos de sonho. Lia-se-lhe no pálido rosto uma pacífica concentração d’espírito.

—Mais tarde, quando tiverem filhos, tambem eu para lá irei, para tratar d’elles. E não havemos de viver peor lá do que vivemos aqui... O Pavel ha de encontrar trabalho; é muito habilidoso.

Sachenka olhava agora para ella, perscrutando-lhe os pensamentos. Interrogou:

—Não deseja então ir juntar-se a elle desde já?

Respondeu, com um suspiro:

—Para quê? Nada mais iria fazer-lhe do que causar-lhe incómmodo, caso elle quizesse fugir. E depois, elle não mo consentia...

Murmurou Sachenka:

—Não, com effeito...

—Além d’isso eu tenho que fazer aqui, accrescentou a mãe de Pavel com um tanto de ufania.

—Sim, é verdade! secundou, pensativa, a outra. E sabe trabalhar muito bem...

Mas de repente estremeceu, como se acabasse de libertar-se de um peso qualquer, e logo annunciou com simplicidade, a meia voz:

—Decididamente, elle não se demora na Sibéria... Ha de fugir... É certo!

—Mas, então, que ha de ser feito de si? E a creança, se a tiverem?

—Não sei; veremos. O que eu não quero é que elle viva em cuidados por minha causa. Dou-lhe plena liberdade para fazer o que quizer, em qualquer occasião que seja. Não sou mais do que uma simples correligionaria. Bem sei que me ha de ser terrivelmente custoso deixal-o... mas hei de saber conformar-me... Não quero importunal-o em coisa alguma, isso não!

Sentia Pélagué que Sachenka era capaz de executar o que dizia. Cheia de commiseração por ella, tomou-a nos braços:

—Minha querida... Muito tem que soffrer!...

Sachenka sorriu com meiguice; comprimiu-se toda contra o corpo de Pélagué; subiu-lhe o rubor ás faces.

—Isso ainda vem longe... Mas não julgue que seja um sacrificio penoso para mim. Sei o que faço, sei com o que posso contar, serei feliz se elle se considerar feliz comigo... O meu desejo, o meu dever, é aumentar a sua energia, dar-lhe toda a felicidade que esteja em meu poder, muita felicidade! Amo-o muito... e elle ama-me, que sei eu! Retribuir-nos-emos dos nossos sentimentos, enriquecer-nos-emos mutuamente, tanto quanto pudermos; e, se assim fôr necessario, separar-nos-emos como bons amigos...

Por entre um sorriso de felicidade, a mãe disse lentamente:

—Eu irei juntar-me a vocês ambos... Talvez eu tambem seja exilada...

E por muito tempo as duas mulheres permaneceram estreitamente abraçadas, sem uma palavra, pensando n’aquelle que amavam. O silencio, a tristeza, uma tépida suavidade, as envolviam.

Nicolao chegou n’este comenos, fatigadissimo. Rapidamente, emquanto se despia, foi dizendo:

—Sachenka, vá-se depressa, se não depois talvez já não tenha tempo! Desde esta manhã andam dois espiões a seguir-me tão ás claras que me cheira a mandado de prisão... Tenho um presentimento... Deve-nos ter acontecido alguma infelicidade, onde, ainda não sei... A propósito: ahi tem o discurso do Pavel; foi decidido imprimil-o. Leve-o á Lioudmila, supplique-lhe que o componham o mais breve possivel. O seu Pavel falou muito bem, Pélagué!... Sachenka, tome cuidado com os espiões! Espere, leve tambem estes papeis; dê-os ao doutor, por exemplo.

E ao dizer isto, esfregava vigorosamente uma contra a outra as mãos, que trazia regeladas. Em seguida, foi á mesa, abriu as gavetas, d’onde extraíu varios documentos. Preoccupadissimo e com os cabellos em desalinho, entrou a folheal-os á pressa, rasgou uns, emmaçou outros.

—Olhem que não ha ainda muito tempo que eu puz tudo isto em ordem, e vejam que montão enorme cá tenho outra vez! Demónio!... Talvez fôsse melhor não dormir cá esta noite, Pélagué! Que lhe parece? Não é das melhores coisas ter de assistir a essa comédia, os guardas são capazes de a levar tambem... e é absolutamente necessário que vá por esses campos distribuir o discurso do Pavel...

—Ora adeus! porque é que me haviam de prender? contestou ella. E d’ahi, talvez se engane, talvez não venha ninguem...

Nicolao redargiu em tom de confiança e agitando a mão:

—O meu faro nunca me enganou!... Alem d’isso, vocemecê podia auxiliar a Lioudmila! Vá-se emquanto é tempo ainda...

Na satisfação de ir cooperar na impressão do discurso de seu filho, ella respondeu:

—Pois se assim é, cá me vou. Mas olhe que não é porque tenha medo...

E com admiração de si própria, proferiu estas palavras em voz baixa mas decidida:

—Agora, já não tenho medo de nada!... Deus louvado! já sei tudo o que queria...

—Ás mil maravilhas! exclamou Nicolao, sem a fitar. Ah! diga-me onde está a minha roupa branca e a minha mala. A senhora de tudo tem cuidado com tal carinho, que me vejo de todo incapaz de descobrir o que é minha propriedade pessoal! Eu vou preparar-me. Os polícias é que vão ter uma desagradavel surpresa!

Sachenka ia queimando no fogão os papeis rasgados. Quando os viu de todo consumidos, teve o cuidado de misturar as cinzas com as do combustivel.

—Vá, Sachenka, vá! disse-lhe Nicolao com um aperto de mão. Até á vista! Não se esqueça de me mandar livros, se fôr publicada qualquer coisa de novidade e intensa. Até á vista, cara correligionaria! E trate sobretudo de ter prudencia...

—Julga estar muito tempo na prisão? perguntou Sachenka.

—O demónio que o julgue! Bastante tempo, com certeza... Teem diversos pecadinhos a censurar-me... Pélagué, saia ao mesmo tempo com Sachenka. É mais difficil seguir duas pessôas.

—Bem! concordou ella. Eu já me visto.

Observára Nicolao attentamente, e nada anormal descobrira n’elle, a não ser a preoccupação que lhe velava o olhar bondoso e complacente. Não lhe vira apparentar emoção alguma.

Igualmente attencioso para com todos, affectuoso e metódico, sempre socegado e solitário, levava a mesma existencia, misteriosa no seu fôro íntimo e como que antepondo-se a todas as deligencias alheias. Pélagué estimava-o tal qual elle era, com um amor prudente, que parecia duvidar de si mesmo. E agora experimentava por Nicolao uma compaixão indizivel; mas dominava-a porque sabia que se elle lh’a notasse, havia de commover-se e tornar-se um pouco ridículo, como habitualmente. Não era sob este aspecto que Pélagué o queria vêr.

Já vestida, voltou ao gabinete. Nicolao estava apertando a mão de Sachenka. Dizia-lhe:

—Optimamente! Estou certo de que ha de ser bom para elle, como para si... Um poucochinho de felicidade pessoal nunca causa damno... Mas olhe que não é bom que seja demasiada, para não perder o valor. Está pronta, mãesinha!

Acercou-se d’ella, compondo os óculos.

—Bem! Então, até á vista!... d’aqui a trez, quatro ou seis mezes. É muito tempo!... Que de coisas se podem fazer em seis mezes! Poupe-se, sim? Peço-lh’o. Vá lá! Venha um abraço!

Passou os robustos braços em torno do pescoço de Pélagué e fitando-lhe muito os olhos, disse com um riso muito franco:

—Parece-me que estou apaixonado por si... Não faço senão abraçal-a!

Sem lhe responder, ella beijou-o na testa e nas faces. As mãos tremiam-lhe: deixou-as pender para que elle não o notasse.

—Então, vae partir?... Ás mil maravilhas!... Mas tome cautella, seja prudente! Olhe: mande um rapazito aqui ámanhã pela manhã; a Lioudmila tem um lá em casa. Por elle ficará sabendo o que se tiver passado. Bem, até mais vêr, camaradas! Tudo vae bem!... Que tudo continue bem, é o que se quer!

Pela rua, commentava Sachenka em voz baixa:

—Com aquella mesma simplicidade é capaz de ir para a morte, se fôr preciso... Só com um pouco de pressa, como ainda agora. Quando lhe chegasse a sua hora final, ajustava os óculos, dizia assim: «Ás mil maravilhas!» e morria!

—Amo-o devéras! segredou Pélagué.

—Pois a mim, causa-me espanto! Quanto a amal-o, não! Estimo-o, simplesmente. Acho-o muito sêco, ainda que lhe encontre certa bondade e ás vezes até alguma ternura. Mas não possue em si bastante humanidade... Parece-me que vamos sendo seguidas. Separemo-nos. Não vá a casa da Lioudmila, se desconfiar que a vigiam...

—Bem sei! respondeu ella.

Mas Sachenka insistiu ainda:

—Não vá para casa d’ella... Se tal succeder, venha antes para a minha. Até mais vêr!

Virou-se rápida e voltou pelo mesmo caminho.

A outra gritou-lhe:

—Até á vista!