XXVIII
Minutos depois, aquecia-se Pélagué junto do fogão, no quarto de Lioudmila. Vestida de preto, esta ultima passeava devagar pelo estreito aposento, que enchia com o rugir das suas saias e com a soberania da sua voz autoritária. No fogão, a lenha estralejava e assobiava, aspirando o ar do quarto. Vibrava a voz igual e monótona da dona da casa:
—Os homens são infinitamente mais tôlos do que maus. Não sabem vêr senão o que lhes fica perto, o que teem ao seu alcance immediato!... Ora tudo o que nos fica próximo é mesquinho; só o que se encontra afastado tem valor. Na realidade, seria vantajoso para todos que a vida se tornasse mais facil e as creaturas mais intelligentes... Mas para chegarmos a isso, forçoso é renunciar por emquanto a viver com tranquilidade.
Aqui, estacou de súbito em frente de Pélagué e accrescentou mais baixo, como para desculpar-se:
—Dou-me com tão pouca gente!... Quando alguem vem a minha casa, ponho-me logo a discursar!... É ridículo, não é?
—Ora essa! Porquê?
Diligenciava Pélagué descobrir onde era que Lioudmila imprimia os folhetos, mas não via em torno de si nada extraordinario. No quarto, com trez janellas para a rua, havia um canapé, um armário com livros, uma mesa, cadeiras, uma cama encostada a uma das paredes; n’um dos cantos, o lavatório, n’outro, o fogão; pelas paredes fotografias. Tudo isto com apparencia de novo, sólido e aceado. E n’este conjunto, a figura quasi monástica da dona do aposento era principalmente o que impunha severo aspecto. Presentia-se haver n’aquelle quarto o que quer que fôsse misterioso e occulto.
Olhou depois para as portas: penetrára no quarto por uma d’ellas—a que abria para uma exigua casa de entrada; perto do fogão, havia outra, alta e estreita.
—Vim para tratar de certo negócio... disse ella um tanto confusa, ao ver que Lioudmila a estava observando.
—Já sei. Ninguem vem a minha casa com outro motivo.
Pareceu a Pélagué vibrar na voz da sua interlocutora uma intenção singular; via-lhe um sorrisinho nas delgadas commissuras dos lábios, e as pupilas, baças habitualmente, brilhavam-lhe por detraz dos vidros da luneta. Desviou portanto o olhar e apresentou-lhe o manuscrito com o discurso de Pavel.
—Aqui está. Pedem-lhe que o imprima o mais depressa que possa.
E narrou os preparativos a que Nicolao procedera, prevendo a sua captura.
Sem dizer uma palavra, Lioudmila entalou o papel no cinto e sentou-se n’uma cadeira. Agitavam-se-lhe pelo rosto impassivel os reflexos do lume.
—Quando os polícias vierem a minha casa, faço fogo para cima d’elles! declarou. Tenho o direito de defender-me contra a violencia e o dever de luctar contra ella, visto que instigo tambem os outros a fazel-o!
A vermelhidão das chammas desappareceu-lhe do rosto, o qual voltou a mostrar-se severo e um pouco altivo.
«Deve ser bem trabalhosa a vida que levas»—foi o súbito pensamento que accudiu ao espirito de Pélagué, acompanhado d’um sentimento d’affeição.
Ella pôz-se a lêr o discurso de Pavel, primeiro, sem vontade, depois, curvando-se cada vez mais sobre o papel. Ia atirando rapidamente para o chão as folhas já lidas. Finda a leitura, levantou-se, endireitou o tronco e foi para a outra:
—Está muito bom! Ahi está do que eu gosto! É nitido e claro!
Inclinou a cabeça e reflectiu um instante.
—Não quiz falar-lhe do seu filho: nunca o vi e não me agradam as conversas tristes. Eu sei o que se sente quando vemos um dos nossos ir para o degredo!... Diga-me: é agradavel ter-se um filho como elle?
—Sim, muito agradavel!
—E deve ser coisa terrivel tambem?...
Com um sereno sorriso, Pélagué respondeu:
—Não; agora já não...
Lioudmila alisou com a mão, muito morena, os cabellos penteados em bandós; depois, voltou-se para a janella: palpitava-lhe nas faces uma leve sombra apaixonada.
—Vamos imprimir isso... Quer ajudar-me?
—Certamente!
—Vou compôr o mais depressa possivel. Deite-se; o dia deve-lhe ter sido fatigante. Vê-se que está cansada. Deite-se n’aquella cama, que eu não durmo hoje. Talvez tenha de a accordar de noite, para me auxiliar. Antes de adormecer, apague o candieiro.
Accrescentou duas achas ao lume e saíu pela porta estreita, praticada ao lado do fogão, que tornou a fechar cuidadosamente apóz si.
Pélagué seguira-a com o olhar. E emquanto se despia, pensava maquinalmente na sua hospedeira:
«É um caracter severo... E vê-se que soffre, a pobre senhora!»
O cansaço esvaía-lhe a cabeça; no entretanto, sentia o coração singularmente calmo; no seu espirito, tudo se illuminava com suave e cariciosa luz. Pélagué conhecia já aquella tranquillidade, que segue sempre ás grandes commoções; antigamente, inquietava-a, mas agora, fazia que a sua alma se expandisse, revigorada em forte e puro sentimento. Apagou o candieiro, deitou-se na cama muito fria, encolheu-se, aconchegando a si os cobertores e adormeceu logo em profundo somno.
Quando descerrou os olhos, estava o quarto banhado da claridade gélida e branca d’um desanuviado dia d’inverno. Estendida no canapé, com um livro na mão, Lioudmila fitava-a com uma expressão de ternura que a transfigurava.
—Deus meu! exclamou Pélagué, confundida. Quanto tempo eu dormi! É muito tarde, pois não é?
—Bom dia! respondeu-lhe Lioudmila. Vão dar as dez horas. Levante-se para irmos almoçar.
—Porque não me accordou?
—Tive idéa d’isso; mas a senhora mostrava um sorriso tão bonito, emquanto dormia...
N’um movimento ágil do seu corpo robusto e flexivel, Lioudmila levantou-se, approximou-se do leito, curvou-se sobre o rosto d’ella; e Pélagué poude distinguir nos olhos sem brilho da sua hospedeira alguma coisa familiar, amigavel, compreensivel.
—... que não quiz despertal-a... Era um bello sonho que estava tendo, com certeza...
—Não, senhora; não sonhei com coisa alguma.
—Pois é pena... Mas gostei de vêr aquelle seu sorriso: achei-o tão meigo, tão santo!
E Lioudmila poz-se a rir, um rir aveludado e discreto.
—Entrei a pensar em si, na sua vida... Porque a sua existencia deve ser ardua!
Pélagué contraíu os sobrolhos, pensativa.
—Não sei! respondeu, hesitante. Ha momentos em que me parece que sim... mas não é verdade! Ha tantas coisas... coisas espantosas e graves, que se seguem com tanta rapidez umas ás outras!...
Subia-lhe ao peito a onda de excitação que ella conhecia bem, enchendo-lho d’imagens e de pensamentos. Sentou-se na cama e deu-se pressa em revestir de palavras as suas idéas.
—Tudo o que estamos presenceando caminha para o mesmo fim, como o fogo, quando arde uma casa, tende sempre a subir! Aqui, abre caminho, mais além, brilha intensamente, sempre mais violento, sempre mais luminoso... Ha tanta coisa que custa vêr! Se soubesse!... Essa pobre gente soffre, é incommodada, espiada... Batem-lhes, batem-lhes com crueldade... Elles, então, occultam-se a todas as vistas, passam a viver como frades. Quantas alegrias ha que lhe são defezas!... E é triste assim, a vida!
Lioudmila ergueu com vivacidade a cabeça e fitou Pélagué com profundo olhar.
—Não é de si que está falando! observou em voz baixa.
—De mim!... repetiu ella, emquanto se ia vestindo. E póde alguem collocar-se á parte, quando o nosso coração ama alguma coisa, quando este ou aquelle nos é querido, quando se sente medo e compaixão por todos?... Tudo isto se nos entrechoca na alma, attraída assim para cada um d’esses infelizes... Como podemos collocar-nos á parte? Para nos refugiarmos onde?
Já meio vestida, permaneceu um instante pensativa no meio do quarto. E subitamente, afigurou-se-lhe que já não era ella a mesma creatura que tanto se inquietára e alarmára pela sorte de seu filho; tal personalidade já não existia, tinha-se desapegado e afastado d’ella. Escutou-se então a si própria, no desejo de saber o que se passava no seu íntimo, embora receasse despertar outra vez o seu velho sentimento de anciedade.
—Em que está pensando? perguntou-lhe Lioudmila affectuosamente.
—Nem eu sei!
Calaram-se as duas, olharam uma para a outra e sorriram. Depois, Lioudmila abalou do quarto, murmurando:
—Que estará fazendo o meu samovar?
Pélagué olhou então pela janella. Lá fóra, reinava a frialdade d’um luminoso dia d’inverno. Ella, no âmago do coração, sentia tambem uma claridade igual áquella, mas quente. O seu desejo seria falar de tudo; demorada e jovialmente, n’um vago sentimento de gratidão por tudo o que baixára á sua alma, tornando-lha assim bem formada. Sentiu, o que havia muito não lhe succedia, um desejo de rezar. Veiu-lhe então á lembrança um rosto moço e imberbe; na sua memória ecoou uma voz delgada: «É a mãe do Pavel Vlassof...» Scintillavam os meigos olhos joviaes de Sachenka; desenhava-se o negro perfil de Rybine; sorria o rosto valoroso e bronzeado de Pavel; Nicolao piscava os olhos, acanhado. E de repente, todos aquelles rostos amigos foram eclipsados em meio d’um suspiro ligeiro mas de significação profunda; baralharam-se, confundiram-se em uma nuvem transparente e multicolor, que envolvia o coração em um sentimento de paz.
—O Nicolao tinha razão! disse Lioudmila ao regressar ao quarto. Foi preso, não ha duvida possivel! Conforme me recommendou, mandei um rapazito a casa d’elle. Já voltou. Diz que estão lá agentes de polícia escondidos no páteo; que viu um por detraz da porta da rua. Os espiões vigiam ao de redor da casa; o pequeno conhece-os.
—Ah! limitou-se Pélagué a dizer, com um meneio de cabeça. Pobre Nicolao!
—N’estes ultimos tempos, elle fazia muitas prelecções aos operários da cidade; estava desmascarado; era tempo e mais que tempo que desapparecesse! proseguiu Lioudmila em tom sombrio mas sereno. Os companheiros andavam sempre a dizer-lhe que saísse da cidade; elle não quiz dar-lhes ouvidos!... A minha opinião é que, em taes casos, o que se deve não é aconselhar as pessôas, mas obrigal-as!
Á porta appareceu um rapazito de cabello preto, pelle rosada, nariz aquilino e bonitos olhos azues.
—Quer que traga o samovar? perguntou com voz sonora.
—Traz, sim, Sérgio, se fazes favor. É meu discipulo... Não o conhecia?
—Não.
—Tenho-o mandado algumas vezes a casa do Nicolao.
Pélagué, entretanto, achava Lioudmila muito mudada, parecia-lhe mais singela de maneiras, mais compreensivel. Havia nos movimentos graciosos do seu esbelto corpo, belleza e força, a attenuarem o que no rosto pálido tinha de severidade. Com a noite perdida as olheiras haviam-se-lhe cavado mais. Sentia-se-lhe nos modos um esforço continuado, como se na sua alma vibrasse uma corda em demasiada tensão.
O rapaz trouxe o samovar.
—Sérgio, olha a senhora Pélagué Vlassof, a mãe do operário que foi hontem condenado.
A criança inclinou-se em silencio, apertou a mão de Pélagué, tornou a saír e voltou trazendo pão.
Sentou-se tambem á mesa. Emquanto ia servindo o chá, Lioudmila aconselhou Pélagué a não voltar para casa sem que se soubesse quem era a pessôa alvejada pelas deligencias policiaes.
—Talvez seja a senhora mesma... Hão de querer interrogal-a.
—Que me importa! redarguiu ella. Se for prêsa, a desgraça não será grande! Só o que desejava era que o discurso do Pavel estivesse já distribuido...
—Já está composto. Ámanhã teremos exemplares bastantes para a cidade e para os arrabaldes... e tambem para o resto do districto. Conhece a Natacha?
—Ora se conheço!
—Pois é preciso que lhe leve os folhetos.
A criança estava lendo um jornal. Parecia não ouvir o que diziam, mas de quando em quando, erguia os olhos para Pélagué. Esta, quando lhe surpreendia aquelle olhar tão vivo, sentia-se agradavelmente commovida. A joven senhora falou novamente de Nicolao, sem lamentar sequer a sua captura, o que de toda a maneira pareceu a Pélagué naturalissimo. O tempo dir-se-ia passar mais veloz; era perto do meio dia quando terminaram o almoço.