NOTICIAS
DE
PORTUGAL
ESCRITAS POR
MANOEL SEVERIM
DE FARIA
CHANTRE, E CONEGO DA SÉ DE EVORA.
Em que se declaram as grandes commodidades, que tem para crescer em gente, industria, commercio, riquezas, e forças militares por mar, e terra, as Origens de todos os appellidos, e Armas das Familias Nobres do Reyno, as Moedas, que correraõ nesta Provincia do tempo dos Romanos atè o presente, e se referem varios Elogios de Principes, e Varoens Illustres Portuguezes.
Nesta Segunda Impressão acrescentadas,
PELO PADRE
D. JOZÉ BARBOSA
CLERIGO REGULAR, ACADEMICO DO
Numero da Academia Real.
OFERECIDAS
AO MUITO REVERENDO DOUTOR
JOZÉ CALDEIRA
Presbitero do habito de S. Pedro, Prothonotario Apostolico de S. Santidade, Beneficiado na Paroquial Igreja de N. Senhora da Purificaçaõ no Lugar de Sacavem.
LISBOA OCCIDENTAL,
NA OFFICINA DE ANTONIO ISIDORO DA FONSECA.
Anno M. DCC.XL.
Com todas as Licenças necessarias.
Á custa de Manoel da Conceiçaõ Livreiro, vendese na sua Logea na rua direita do Loreto.
AO MUITO REVERENDO SENHOR DOUTOR
JOZÉ CALDEIRA
PRESBITERO DO HABITO DE S. PEDRO, PROTHONOTARIO Apostolico de S. Santidade, Beneficiado na Paroquial Igreja de N. S. da Purificaçaõ no Lugar de Sacavem, &c.
M. R. SENHOR:
Fora acerto a naõ ser eleiçaõ dedicar a V. m. as Noticias de Portugal, que escreveo Manoel Severim de Faria, porque alèm de naõ poderem buscar mais seguro asylo contra a malevolencia dos Criticos modernos, tem nelle tambem manifesto o motivo para o patrocinio. Porque sendo esta Obra escrita pela elegante penna de hum homem consagrado ao Culto Divino, e a quem todo o genero de erudiçaõ, e doutrina fez conhecidamente grande, com bem fundada razaõ devia apparecer novamente no theatro do Mundo debaixo da protecçaõ de quem lhe fosse semelhante no Estado, e na Sciencia.
Desta fizera agora o paralello, senão conhecera ser pequeno o campo de huma Dedicatoria para tão largo assumpto. Alem de que he escusado persuadir huma verdade, que facilmente confessaraõ os que attenderem ao profundo dos conceitos, ao elevado da discriçaõ, á eloquencia das vozes, e a utilidade dos argumentos, que V. m. diz, ou propoem para a admiraçaõ universal nos Pulpitos, em que discorre, merecendo sigularmente o applauso commum dos ouvintes, por unir com rara felicidade partes difficeis de encontrar em qualquer Orador. Poderaõ fingir os Poetas, que Mercurio com a suavidade do Caduceo atrahia as Almas daquelle lugar, a que negou fatal passagem o Principe de todos elles: e eu naõ duvida-rey affirmar, que V. m. com a vara de ouro da sua eloquencia, arrebata os affectos, e move os animos dos que tem a fortuna de o ouvirem. Mas naõ me admira, que V. m. como se fallara desde a cortina de Apollo, pronuncie em harmoniosa frase graves sentenças, e Sabios Oraculos, por conhecer, que a dilatada Esfera da sua comprehensaõ chegou venturosamente a alcançar o perfeito conhecimento daquella nobre Rainha das artes, para cuja excellente noticia pedia o Principe da Eloquencia Romana hum entendimento Divino: donde posso eu dizer com acertada razaõ, ser o seu a todos os mais superior. Finalmente o mesmo Tullio para formar a idea adequada de hum Orador, diz se requer nelle o ornato de quasi todas as Sciencias, e Artes Liberaes, e como em V. m. admiramos esta notavel grandeza, por isso o busco para Protector de Manoel Severim. Confesso, que sim me ocorreo procurar o patrocinio de algum Grande, mas arrependido logo da ignorancia, e da temeridade deste pensamento, tomey a firme resoluçaõ de implorar o de V. m. por que só hum Sabio pode tomar debaixo do seu amparo outro Sabio, pois só na semelhança se encontra o amor, sem o qual se faz muitas vezes desagradavel este obsequio. No trato ordinario dos homens cada dia se experimenta, que os que padecem a irremediavel falta de juizo zombaõ dos discretos, e não era justo ficasse a memoria de Manoel Severim exposta aos perigos que podia achar na grossaria, de quem naõ conhecesse a estimaçaõ, que lhe he devida. E jà que a minha eleição foy taõ venturosa, que ainda sem a liberdade do arbitrio logra os creditos de muy acertada, parece fica V. m. obrigado a receber este meu, se tenue, reverente obsequio, que affectuosamente lhe dedico, para immortal gloria do nome do Author, e para eterna memoria da honra, que costuma fazer aos seus criados. Deos guarde a V. m. pelos annos que desejo,
Seu obrigadissimo criado
Manoel da Conceiçaõ.