§. II.

Da origem dos Appellidos dos Nobres de Portugal.

Os nomes foraõ inventados entre os homens para distincçaõ delles, porèm crescendo o numero da gente, e faltando nomes singulares para cada hum, vieraõ a ser muitos homens de hum mesmo nome. Pelo que para evitar confusaõ, acrescentaraõ os sobrenomes, ajuntando o nome dos pays aos seus, e por isso se chamaraõ patronimicos; destes usaraõ mais os Gregos, que os Romanos; mas nem por isso tiveraõ os Latinos menor numero de nomes; porque muitas vezes tinha hum homem quatro nomes, que eraõ prenome, nome, cognome, e agnome. Exemplo disto seja Quinto, Fabio, Maximo, Ovicula. O primeiro podemos hoje chamar nome proprio, o segundo sobrenome da Famillia, o terceiro Appellido, e o quarto tambem Alcunha.

Com o Imperio Romano entraraõ em Espanha seus costumes; e assim usaraõ desta fórma de nomes, como se vè largamente das historias latinas. Porèm vindo os Godos, e extinguindo quasi de todo os Romanos nella, se tornaraõ a introdusir os nomes proprios singulares sem sobrenomes alguns, que duraraõ atè a entrada dos Arabes, depois da qual se começaraõ a usar os patronimicos, Dias, Esteves, Fernandes, Gonçalves, &c. que se derivaraõ de Diogo, Estevaõ, Fernando, Gonçalo. Porèm naõ foy isto bastante para os homens poderem ser conhecidos; porque de hum pay procediaõ muitos filhos, e de todos tomavaõ o mesmo patronimico. Pelo que ordenaraõ tomar por Appellido os nomes das terras donde viviaõ, ou donde eraõ naturaes, como fizeraõ neste Reyno os de Beja, Castello-Branco, Chaves, Santarem, e outros, mas o mais ordinario foy tomar cada hum o nome da terra, onde tinha senhorio, ou alguma jurisdicçaõ. E tanto he isto assim, que mostra o Bispo D. Prudencio de Sandoval, que Alvar Fanhes famoso Cavalleiro em tempo do Emperador D. Afonso VII se chamou de Çurita, quando a teve a cargo, e de Toledo, quando o fizeraõ Alcaide daquella Cidade.

O mesmo se affirma das Familias de Aragaõ; e daqui vieraõ os Appellidos de muitas linhagens, indose depois continuando em seus successores. A estas terras chamavaõ Solares, derivando o nome da palavra latina solum, que quer dizer terra, e assento, donde o homem està. Edificaraõ aqui estes Fidalgos suas torres, e casas fortes donde viviaõ; assim para se defenderem dos rebates dos Mouros, como por ser este modo de edificar casas fortes no campo, proprio das naçoens do Norte, como ainda hoje se vè em toda França, Alemanha, e Inglaterra. Pelo que neste Reyno se naõ concedia licença para fazer estas torres, e pòr ameas nellas, senaõ a pessoas illustres; como parece das que estaõ registadas nos livros das Chancellarias dos Reys antigos. Destes Solares, e torres hà ainda muitos neste Reyno, como saõ os de Abreu, Ataide, Bayaõ, Britto, Carvalho, Cunha, Faria, Goes, Lima, Nobrega, Pereira, Sampayo, Sousa, Sylva, Vasconcellos, e outros muitos, donde estes Appellidos tiveraõ seu principio.

Alèm dos Solares se tomaraõ tambem outros Appellidos de alguns feitos assinalados na guerra, como fizeraõ os Bandeiras, Machados, Mouras, Menagens; e outros os tomaraõ das Provincias, que descobriraõ, ou sojeitaraõ, como os Baharens, Minas, Camaras; outros da Casa Real donde descendem, como saõ neste Reyno os de Aragaõ, Lancastres, Portugal.

Tomaraõ-se tambem os Sobrenomes de Alcunhas, que se poseraõ a varios homens de animaes da terra, peixes, e aves, assim como Perdigaõ, Pegas, Falcaõ, Touro, Coelho, Raposo, Sardinha, Salema. Das cores, como os Pretos, Trigueiros, Morenos. De alguma qualidade do corpo, como Barrigas, Calvos, Delgados, Feyos, Magros, Pestana, Velhos, Unhas. Outros de instrumentos, como Caldeiras, Calças, Correas, Lemes, Pontes. Outros de arvores, hervas, e flores, como os Figueiras, Oliveiras, Pinheiros, Moreiras, Carvalhos, Flores, Rosas, Carrascos. E assim outros. Estas saõ as origens, a que se reduzem todos os Appellidos, que hoje hà neste Reyno, como particularmente em cada Familia veremos. E porque os Appellidos saõ os sinaes hoje da descendencia das familias, e nobrezas dellas, foraõ os Reys deste Reyno taõ desejosos de cada linhagem conservar o seu, que sabendo ElRey D. Joaõ o II. que Simaõ Gonçalves da Camara, filho herdeiro do Capitaõ da Ilha da Madeira Joaõ Gonçalves da Camara se chamava Simaõ de Noronha, que era o Appellido de sua mãy, lhe mandou dizer, que logo se chamasse do Appellido de seu pay; pois havia de herdar a sua casa, senaõ que passaria a successaõ della a Pedro Gonçalves da Camara seu irmaõ.[93] Ao que Simaõ Gonçalves obedecendo, lhe foy bejar a maõ pela mercè. Porèm ElRey D. Manoel procedeo nisto mais rigorosamente, porque mandou nas Ordenaçoens com penas gravissimas, que ninguem tomasse o Appellido de nenhuma familia, que lhe naõ pertencesse; e o mesmo se ordena na ultima reformaçaõ, que se fez das leys deste Reyno.