§. III.

Das origem das Armas, que trazem os Fidalgos, e Nobres de Portugal.

As insignias militares foraõ inventadas para distinguir as companhias dos Exercitos. De maneira, que conhecendo cada soldado a sua bandeira, ainda que nas batalhas se desordenassem as Cohortes, podessem acudir a ellas, e com facilidade recuperar seu lugar. Para este effeito usou Romulo do Manipulo, e depois se introdusiraõ, o Lobo, Aguia, Minotauro, e Javali, que os Romanos trouxeraõ por insignias, como os Assyrios a Pomba, e a Lua os Egypcios, os Bizancios o Cacho de uvas, os Thebanos a Tartaruga, os Africanos a Espiga; e assim outras varias cousas. Porèm os soldados particulares costumavaõ trazer os escudos brancos, atè que faziaõ algum feito insigne, cuja historia pintavaõ nelles, ao qual costume alludio o Poeta,[94] quando disse de Heleno.

Ense levis nudo, parmaque in glorius alba, &c.

E o Satyrico significa pelo mesmo termo ter sahido da idade juvenil, dizendo:[95]

Permisit sparsisse oculos jam candidus umbo.

Estas pinturas dos escudos eraõ varias, e naõ ficavaõ depois a filhos; posto que algumas vezes, quando o predecessor era muy insigne, usavaõ seus descendentes da tal figura, como empreza, segundo se vè de Virgílio,[96] fallando de Aventino filho de Hercules.

Clypeoque insigne paternum
Centum angues, cinctamque gerit serpentibus hydram.

Entre os Romanos usava a Familia dos Torcatos do collar de ouro, e os Cincinnatos da cabelleira, porèm naõ como armas, porque como consta de toda a historia latina, as armas das Familias Romanas foraõ as imagens, e estatuas de seus mayores, que tinhaõ nos pateos à entrada das casas.