§. IV.
Da origem dos Leoens, e Aguias, e outros animaes, que se trazem nos escudos.
Depois que entrou o governo dos Cesares, e foy necessario accrescentarem-se os Exercitos, e havellos sempre nos confins do Imperio, multiplicando-se as Legioens, foy necessario dar-lhes tambem novos nomes, e insignias. E como os Romanos estavaõ ja mais polidos, naõ escolheraõ estes nomes, e sinaes a caso, mas com muita consideraçaõ, denotando em cada hum delles algum bom pensamento. E porque cada Soldado fosse conhecido de que Cohorte era, mandavaõ, que logo nas officinas de armas, quando se faziaõ os escudos, lhe pintassem, ou esculpissem no meyo a mesma imagem da mesma Cohorte, e pela parte de dentro escreviaõ o nome do Soldado, e a Cohorte, e Centuria, de que era. Tudo isto diz claramente Vigecio nestas palavras:[97] Ne milites aliunde in prælii tumultu à suis contubernalibus aberrarent, diversis cohortibus diversa in scuto signa pingebant, quæ ipsi nominant pegmata; sicut etiam mori est fieri. Præaterea in averso uniuscujusque militis erat nomen adscriptum, addito, ex qua essent cohorte, & ex qua centuria. E Claudiano[98] allude ao mesmo, dizendo da Legiaõ invicta.
———Nomenque probantes
Invicti, clypeoque animosi teste leonis.
Deste costume diz Guido Pancirolo[99] se introduziraõ as armas, que agora temos. Porque vindo depois a professarem a Milicia os filhos, e netos dos mesmos Capitaens, e Soldados, usavaõ sempre das proprias insignias, e depois que se perdeo o Imperio Romano, se ficou continuando o mesmo uso, pondo segundo aquella imitaçaõ cada hum no Escudo o animal, ou figura que melhor lhe parecia, denotando sempre com estes hieroglylphicos alguma cousa de valor, constancia, ou virtude, por onde se alcança a honra militar. E assim daqui nasceraõ os Leoens, as Aguias, os Touros, Serpentes, que trazem as Familias de Europa, e particularmente as deste Reyno. As que usaõ de Leoẽs nos Escudos, saõ as seguintes.
Achiolis illustres Florentinos, que vieraõ povoar a Ilha da Madeira, e dahi passaraõ a este Reyno, Alvos, Arnaos, ou Ernaos, Barrosos, Betancor, Britos, Cayados, Campos, Castelobranco, Cerqueira, Chanoca, Conestagio, Esmeraldos, Frótas, Galhardos, Gamboa, Giraldes, Gondim, Gramaxo, Gravas, Groymis, Morel, Neto, Ossem, Pains, Pò, Ribeira, Rolaõ, Salvagos, Santarèm, Serraõ, Simoens, Toscanos, Valladares, Valentes, Unhas, Vogados.
As que trazem aguias saõ: Abul, Abreu, Azevedos, Botados, Bovadilha, Carregueiro, Serrabodes, Coroneis, Correaõ, Dagraã, Guivar, Jacome, Lemes (Marletas sem pès) Maciel, Medeiros, Montarroyos, Ourem, Penha, Proença, Rodrigues, Sampayo, Tinoco, Villanova.
As que trazem Serpes, saõ, Alfaros, Brandoens de Inglaterra, Covas, Dragos, Mendaos, Moutinhos, Rebaldos, Roboredos, Regras, Serpes, Villasboas.
As que trazem Lobos, saõ, Ayalas, Haros, Lobos, Villalobos.
As que trazem outros animaes, saõ: os Carreiros hum Gatto caçando, os Garros huma Onça, os Leoens entre sete Estrellas
dous libreos negros armados de prata, alludindo à fidelidade destes animaes, os Osorios dous Touros, os de Valdés hum Elefante.