§. III.

Do remedio para a falta da gente da primeira, causa, que saõ as Conquistas.

As Conquistas, que este Reyno intentou fóra da Barra, humas não passarão do Cabo de Boa Esperança, como as Ilhas Terceiras, Madeira, e Cabo-Verde, Costas de Guinè, e Provincias do Brasil; outras foraõ alèm do Cabo, e pertencentes ao Estado da India. Das Colonias, que não passarão o Cabo, padecemos menos prejuizo; porque como estão mais perto, e nellas não intentamos guerras com Principes confinantes, não nos occuparão tanta gente; e os que a ellas forão, tornarão a vir com mais facilidade ao mesmo Reyno. E assim destas Colonias louva muito João Botero aos Portuguezes, dizendo, que elles sós entre todos os povos de Europa se souberão aproveitar das Colonias; e levando a gente, que no Reyno não tinha com que viver, povoarão a Madeira, e o Cabo-Verde, a Ilha de S. Thomè, e o Brasil, membros importantes de seus Estados, donde agora tiraõ grossos retornos de gente, mantimentos, e riquezas: I Portoghesi (diz elle) soli trà tuti i popoli di Europa, si son saputi valer di questa arte, per che con la gente piu povera, e bisognosa, che fosse in quel Regno hano popolato la Madera, il Capo Verde, la Isola di S. Thomaso, il Brasile, membri importanti de gli Stati loro. Onde hora cavano ajuti grossi, & di gente, & di vetovaglie, & di thesori.

Das nossas Colonias das Ilhas Terceiras, e Madeira foy socorrido este Reyno por vezes com gente, e com cavallos, e com muito trigo. De Angola se tem tirado innumeravel gente, que serve naõ sómente nos engenhos do Brasil, mas ainda neste Reyno, assim na cultivaçaõ do campo, como no serviço ordinario. Da povoaçaõ do Brasil resultou a mercancia do assucar em tanta abundancia, que delle provemos quasi toda Europa. Donde se vè, que estas Colonias naõ nos saõ de tanto prejuizo, porque nos levaõ menos gente.

Porèm na conquista da India naõ succedeo assim; porque estando tantas mil leguas distante de Portugal, e com navegaçaõ taõ perigosa, foy necessario tirar-se do Reyno muita gente tornando pouca, ou nenhuma della; porque se intentaraõ povoar muitas Cidades postas nas fronteiras dos mais poderosos Principes do Oriente, como foy Ormuz na Persia, Dio, e outros pòrtos na Cambaya, Goa junto ao Idalcaõ, Columbo, e outras forças em Ceilaõ, Malaca defronte de Samàtra, as Malucas no estremo do Emispherio, e Macào às portas da China; alèm de outras muitas Fortalezas, que se naõ referem, para as quaes se requeria grande numero de soldados, e huma despeza infinita.[13] Pelo que foy de opiniaõ D. Francisco de Almeida primeiro Viso-Rey da India, que naquelle[14] Estado naõ nos convinha ter mais que huma, ou duas Fortalezas nos pòrtos, em que haviaõ de invernar as nossas Nàos, e Armadas para poder continuar livremente o comercio: e que fóra disto, quantas mais Fortalezas sustentassemos, tanto mais fracos ficariamos.[15] Deste parecer foraõ muitos Conselheiros delRey D. Manoel, demaneira, que chegou a dizer o Governador Afonso de Albuquerque, que mais merecia a ElRey, por lhe defender Goa dos Portuguezes, que pela tomar duas vezes aos Mouros. Com tudo o contrario se seguio, povoando-se pelos nossos tantas terras, e Ilhas em Asia, como se fosse huma Provincia confinante com Portugal; sendo cousa notoria, que a navegação da India se intentou para comercio, e naõ para conquistas. Porque a conquista só convèm, quando he para segurança do Estado proprio. Mas sendo a India taõ longe de Portugal, e as forças taõ espalhadas, e divididas, naõ podia servir para conservaçaõ deste Reyno, se naõ para diminuiçaõ delle.

Porèm estas razoens politicas forão vencidas da Providencia Divina, que obra suas acçoens contra as causas naturaes, para mostrar, que naõ necessita de nossos meyos para produzir seus effeitos; e assim querendo, que se promulgasse a Fè naquellas Provincias, ordenou, que os nossos Reys, e seus Conselheiros approvassem esta Conquista, e com milagres evidentes ficaraõ os Portuguezes quasi senhores de todos os mares do Oriente, e dos principaes pòrtos de suas Costas, ganhando fama immortal com o soberano esforço, que nestas heroicas empresas mostraraõ, e prègando-se o Sagrado Evangelho por este meyo a todas aquellas Gentes com grande gloria de Deos, e proveito de innumeraveis almas, que se bautizaraõ.[16] Mas andando o tempo, ou por algumas daquellas naçoens se fazerem indignas daquella doutrina por sua contumacia, ou por culpa dos nossos, a quem a cobiça fez faltar na boa administraçaõ dos seus governos, se foraõ perdendo as praças mais distantes; porque por estarem muito apartadas de Goa, naõ poderaõ ser a tempo socorridas: e assim se senhorearaõ nossos inimigos das Malucas, Ormuz, Malaca, e Mascate. Deste modo ficou o Estado mais proporcionado tendo menos Fortalezas, e naõ taõ desmembrado; pois as principaes se reduzem agora a Moçambique, Goa, Cochim, Columbo, e Dio. Pelo que està hoje a India naõ peyor para o trato das especiarias, que he o principal cõmercio; e juntamente està mais defensavel, se houver nella milicia paga; porque tirando o tempo do Veraõ, em que os soldados andaõ nas Armadas, os Invernos ficaõ na terra, sem terem quem lhes dè de comer, chegando muitos a pedir esmola pelas ruas, e Portarias dos Conventos. Pelo que obrigados huns da necessidade, e outros da cobiça, se passaraõ muitos os annos atrazados à terra firme a servir os Reys Gentios daquellas Provincias; os quaes dando-lhes soldos aventejados, vieraõ a ter muito mayor numero de Portuguezes em seu serviço, do que ElRey de Portugal tinha nas suas Armadas, ou Fortalezas. Com este mào exemplo se foraõ muitos viver nas mesmas povoaçoens dos Gentios acrescentando-as em opulencia, como foy a de Meliapòr, e outras;[17] de modo, que podemos dizer, que muitos pòrtos das Costas da India se povoaraõ de Portuguezes casados na terra em tanto numero, e poder, que muitos delles se intitularaõ Reys, e Senhores dos mesmos lugares, como foy na Ilha de Sundiva, nos Bandeis de Bengalla, em Siriaõ, e em Camboja, e outras partes; posto que todos elles acabaraõ as vidas miseravelmente, castigando-os Deos com grande rigor, por deixarem as terras dos Christaõs, e irem-se viver entre os Gentios. Esta he a causa porque affirma Diogo de Couto,[18] que em tempo de ElRey D. Sebastiaõ avia na India 16U. Portuguezes, e com tudo naõ se poderaõ mandar 800. a Malaca, para a ir governar Antonio Moniz Barreto, nem D. Leoniz Pereira.

Este desamparo dos soldados na India, posto, que sempre se experimentou, atègora se naõ tem remediado, e em quanto se naõ atalhar, havendo naquelle Estado huma milicia com numero certo de Companhias com seus Capitaens, e pagas assinaladas, naõ pòde deixar de se seguir este danno gravissimo: que he pedir-nos a India sempre gente, e naõ se valer o Estado della. Porque no principio os Governadores mandavaõ dar mesa aos soldados no Inverno, porèm de muitos annos a esta parte naõ hà mesas, se naõ em quanto se curaõ no Hospital. Para o que he de saber, que de dous mil soldados, que vaõ ordinariamente em trez Nàos para a India cada anno, morre grande parte delles na viagem; porque como vaõ sete centos, e oito centos, e inda mais numa Nào, naturalmente adoece, e fallece graõ numero delles, por se corromper o ar dentro das cubertas com os bafos, e immundicias; de maneira, que o mesmo he descer a ellas, que entrar em hum lugar pestilente. E o pobre do soldado, que adoece, naõ tem cama, nem limpeza, nem regalo, nem consolaçaõ alguma.[19] Diogo de Couto na 9. Decada cap. 11. diz que na Nào, em que o Viso-Rey D. Antonio de Noronha passou à India, em que o mesmo Diogo de Couto hia embarcado, partiraõ de Lisboa 900. pessoas, de que na viagem morreraõ as quatro centas, e cincoenta; e que quasi o mesmo foy pelas outras Nàos; porque de 4U. soldados, que o Viso-Rey nellas levava, falleceraõ na viagem os 2U. e Duarte Gomes[20] nas Informaçoens sobre a Companhia Oriental, diz, que na Nào S. Valentim morreraõ quatro centas pessoas, e isto tem acontecido muitas vezes. Pelo que chegando esta soldadesca jà taõ disimada à India, e naõ achando provimento algum, com que se sustente, huns inficionados do mal da viagem, outros do grande desamparo, pobreza, e miseria, e apalpados da terra caem em mayores infirmidades; e assim vaõ quasi todos parar ao Hospital, onde se diz, que muitas vezes fallecem mais de 600. e 700. homens destes: de maneira, que desta soldadesca, que tanto custa à Fazenda Real a pòr na India, se perde a mayor parte, sendo a causa o desamparo, com que se trataõ os soldados naquelle Estado. Pelo que sem haver na India gente paga, e pratica para andar nas Armadas, e presidiar as Fortalezas, naõ se pòde esperar nenhum bom effeito da nossa milicia, pois alèm do que temos dito, toda ella he feita cada anno em Goa tumultuariamente, e de soldados armados com toda a desigualdade, assim no numero, como nas Armas, porque cada hum traz as que quer: de maneira, que em hum Navio os mais levaõ espadas, e rodellas, e vaõ poucos tiros de fogo, e nenhuns mosquetes. Alèm disso os mesmos soldados saõ de ordinario bizonhos, e naõ quaes convèm à milicia; porque os soldados, que em Lisboa se assentaõ nas nossas Náos, saõ os mais delles moços de quinze, e dezeseis annos que vem a ser huma infantaria pueril: e por isso vindo a pelejar com os inimigos de Europa, ficamos quasi sempre na India inferiores nos successos pela grande ventagem, que nos levaõ na escolha dos soldados, nas armas, e na ordem da milicia: o que nos naõ tem acontecido na Ethiopia, e Brasil, onde muitas vezes vencemos a estes mesmos contrarios, por termos milicia ordenada.

Contra esta nossa desordem nos pòdem servir de exemplo os mesmos Holandeses; pois em cada embarcaçaõ naõ levaõ de ordinario mais de 300. homens; nem sustentaõ na India mais pòrtos, que o de Jacatrà, e Malaca, e os que lhe convem em Ceilaõ para o trato da Canella: de maneira, que naõ tem em toda a India commummente mais de mil homens pagos pouco mais, ou menos, e estes andaõ divididos, comerceando, e militando. Do mesmo modo os Castelhanos sustentaõ as Philippinas com hum terço de 400. homens pagos com seus Officiaes; e naõ assentaõ governo em Provincia alguma, sem primeiro ordenarem nella milicia certa.[21] Pelo que he impossivel defendermos na India taõ grande numero de Cidades, e Fortalezas, que necessitaõ de muitos mil soldados; sendo os nossos sempre poucos, e bizonhos, e sem nenhuma ordem. Nem se pòde responder, que sempre na India se militou desta maneira, porque antigamente naõ havia nella inimigos de Europa, se naõ de ordinario piratas Malavares. E se houve na India Armadas de fóra, como as do Soldaõ, e do Turco, foy nos primeiros annos, em que as nossas Armadas eraõ taõ numerosas, que excediaõ as destes contrarios, o que agora totalmente naõ hà. E assim havendo milicia certa, e escolhida, poderà o Estado da India tornar a florecer, se as Nàos forem menores, e da grandeza, com que se começou o comercio, como adiante se mostrarà porque deste modo chegaràõ os soldados com saude, e elles voltaràõ com especiarias a salvamento, e naõ se levarà tanta gente todos os annos infructuosamente deste Reyno.