§. IV.
Como se remediarà a segunda causa da falta da gente com a introducçaõ de algumas artes mechanicas.
O remedio para a segunda causa, porque falta a gente neste Reyno, serà exercitarem-se nelle as artes mechanicas, de que carece. Affirmaõ os Politicos, que naõ há cousa, que importe mais para fazer huma Provincia numerosa de habitadores, e rica de todos os bens, que a multidaõ das artes; das quaes humas saõ necessarias, outras commodas à vida civil; porque dellas se segue o grande concurso de gente, que ou trabalha, ou menea o trabalho, ou administra a materia aos trabalhadores, compra, vende, e leva as obras de hum lugar a outro. De maneira, que importa muito mais a industria do homem para fazer hum lugar populoso, que naõ a fertilidade do terreno; porque as cousas produsidas da industria humana saõ muitas mais, e de muito mayor preço, que as cousas geradas pela natureza. O exemplo, que disto trazem os Politicos, he a laã, a qual he fruto simples, e grosseiro da natureza, mas a arte, quaõ excellentes pannos, quaõ varios, e de quanta diversidade fabrîca desta materia? Sustentando-se della, naõ só o que a cria, mas os que a cardaõ, fiaõ, urdem, tecem, tingem, cortaõ, cozem, e a formaõ em mil materias, e a levaõ de hum lugar a outro. O mesmo se diz da seda, que he fruto simples; e com tudo quanta variedade forma della a arte? Bem se vè em Florença, Genova, e Veneza, onde com a arte da seda, e da laã se mantem quasi dous terços dos habitadores. O mesmo acontece em toda a outra materia. Italia he Provincia, na qual naõ hà mineral de importancia de ouro, ou prata, como tambem o naõ hà em França; e com tudo huma, e outra he abundantissima de dinheiro, e de thesouros pela industria das artes, e mercancia. Flandes também naõ tem veas destes metaes; e por sua muita industria, naõ hà Provincia em Europa mais habitada, nem onde haja tantas Cidades, e taõ grandes, e taõ frequentadas de Estrangeiros, e taõ florentes em riquezas. Por tanto o Principe, que quizer fazer populoso o seu Reyno, deve introdusir nelle toda a sorte de industria, e de officios; o que farà com trazer Officiaes excellentes de outras Provincias, e dar-lhes salarios, e commodidades convenientes, e com favorecer os bons engenhos, e estimar as invençoens, e as obras, que participaõ do singular, e do raro, e com sinalar premios à perfeiçaõ, e excellencia.
Mas sobre tudo he necessario, que naõ permita, que se levem para fóra de seus Estados os materiaes crùs, como saõ as laãs, seda, madeira, metaes, nem outras semelhantes cousas; porque com os materiaes vaõ tambem os Officiaes, que os lavraõ. E alèm de viver muita mais gente do trato da materia lavrada, que da materia simples, como apontamos, as rendas do Principe saõ com excesso mayores pelas sacas das obras, que dos materiaes. Mais tira dos veludos, damascos, e semelhantes teas, que da simples seda, mais dos pannos, que da laã tosca; mais das teas de linho, que do linho; mais da cordoalha, que do canamo. O que vendo hà annos os Reys de França, e Inglaterra, prohibiraõ levar a laã para fóra de seus Estados. O mesmo fez tambem depois ElRey Catholico; ainda que estas ordens naõ se observaraõ com o effeito, que convinha.
Neste Reyno tambem houve esta prohibiçaõ; mas estava taõ esquecido o cuidado do bem publico pela falta dos Principes naturaes, que toda a laã se levava para fóra; de maneira, que no anno de 1645. só em Evora em poucos dias se compraraõ com dinheiro de Mercadores Estrangeiros 9U. arrobas. Pelo que S. Magestade, que Deos guarde, mandou de novo prohibir estas compras; porèm naõ basta sómente esta prohibiçaõ; mas o que importa, e o para que trazemos estes exemplos, he que se introduzaõ no Reyno estas mechanicas, e teares, fazendo, que destas nossas laãs se teçaõ no Reyno os mesmos pannos, que os Estrangeiros tecem dellas nos seus, e nos trazem depois a vender. Porque disto se nos seguiràõ duas grandes utilidades, a primeira, que ficarà no Reyno todo o dinheiro, que ouvera de ir para fóra por razaõ destes pannos, a segunda, que naõ dependerà da vontade dos Estrangeiros trazerem nos esta mercadoria, de que totalmente necessitamos, e por-lhe os preços à sua vontade tendo-a nòs em nossa casa. Isto se pòde ordenar fazendo, que se lavrem neste Reyno as baetas, que vem de Inglaterra, pois saõ tecidas com as nossas mesmas laãs. Agora no principio se poderà fazer conduzindo com premios alguns Officiaes, mandando-os vir de Londres, ou de outras partes; e fazendo assentar este trato nos lugares, que parecem mais convenientes, como em Estremòs, Borba, Portalegre, Covilhãa, e com isto se daria principio a hum trato de grandissimo proveito, assim para as rendas Reaes, porque com estes direitos cresceriaõ muito, como para o bem cõmum, porque teria o Reyno as baetas muito mais baratas, e em mayor abundancia, e para a sustentaçaõ do povo; porque muita parte delle se manteria com esta occupaçaõ.
O mesmo que digo da baeta se pòde fazer com as sarjas; por quanto estes saõ os dous generos de mercancias, de que mais necessitamos. Da seda tambem se poderiaõ introdusir neste Reyno teares de veludos lavrados, damascos, sitins, e tafetaz dobrados; pois em nenhuma parte de Europa se dà a seda com tanta perfeiçaõ, como em Portugal; como notaõ os Authores Italianos, e só falta occuparem-se mais neste arteficio. Diz o Escolano na historia de Valença,[22] que naõ havendo em Espanha atè o tempo dos Godos seda, nem assucar, nem arroz, os Mouros depois, que nella entraraõ, trouxeraõ cà estas sementes, as quaes se cultivaõ hoje em Valença com tanta utilidade, que affirmaõ importar cada huma destas cousas hum milhaõ cada anno. Em Murcia, e Cordova todas as mulheres se occupaõ com a creaçaõ da seda. E a seda, que o Marquez Fernaõ Cortez introdusio no Mexico, tem crescido de maneira, que agora he a mayor mechanica, que hà naquella Provincia, como se vè da arte, que escreveo da sua creança Gonçallo de las Casas, que anda no fim da Agricultura de Herrera. O mesmo se pòde fazer em outras artes, que nos saõ necessarias para a milicia, e navegaçaõ. ElRey D. Joaõ o V. nosso Senhor fez instituir no Sitio da Cotovia extra muros desta Corte huma nova Fabrica de sedas de todas as qualidades no anno de 1735. a qual tinha antes principiado no Sitio da Fonte Santa.
He o ferro de Portugal o melhor do mundo, delle se lavraraõ as mais prezadas escopetas pedidas pelos Principes, e que se lhe offereciaõ por peças de muita estima, sendo-nos taõ necessarias estas armas, he erro grande mandarmolas buscar de outras Provincias, sendo as Estrangeiras muito inferiores às nossas, como se vè nas muitas, que arrebentaõ cada dia nas Fronteiras, o que as nossas naõ fazem.
Naõ he menos importante o lavor do linho canamo, de que se fazem as amarras, cordoalhas, e enxarceas, excedendo o nosso a todos os de Alemanha, de maneira, que huma amarra de Portugal sustenta mais, que duas, e trez de Flandes. E sendo estas cousas taõ necessarias para a navegaçaõ, que sem ellas senaõ pòde fazer; he lastima, que seja tal o nosso descuido, que vamos buscar estas cousas às terras de nossos inimigos, dandonolas Deos em nossa casa. E o peor he, que confessa hum Contratador dos nossos[23] num livro, que apresentou ao Conselho, que todas as amarras, e cordoalhas, que nos mandaraõ de Flandes, naõ somente eraõ as peores, mas de proposito, e por industria falsificadas, e fallidas, para que naõ pudessem servir, se naõ com a apparencia. ElRey D. Manoel, e D. Joaõ III. tiveraõ feitorias deste lavor do Canamo nos lugares do Reyno, em que se dà com mòr abundancia. O mesmo se poderà tornar agora a fazer dando privilegios, e commodos aos Officiaes, que nisto se occupassem.
O lavor dos pannos de algodaõ se poderà introdusir neste Reyno com muita facilidade: pois somos senhores do algodaõ do Brasil, e Cabo-Verde, que he infinito, e finissimo. E para Mestres se poderàõ mandar buscar os Teceloens da India, que saõ os melhores do mundo, e fazer em Lisboa os canequins, e bofetàs, que là himos buscar com tanto trabalho, e perigo.
O papel tambem he cousa de muito uso, e que todo nos vèm de fóra. No Reynado delRey D. Joaõ V. que Deos guarde se introdusio esta Fabrica no Reyno na Villa da Lousaã junto à Cidade de Coimbra, em que se faz papel ordinario, florete, e imperial, e em Paramos junto à Cidade de Braga hà outra Fabrica, em que se faz papel pardo, como o de França. ElRey D. Joaõ o IV. quiz jà introdusir esta arte no Reyno, e mandou para isso fazer huma Officina em Villa-Viçosa, que com as occasioens presentes naõ teve effeito.
Diz o Doutor Laguna no seu Commento de Dioscorides,[24] quando falla da graã, que a graã, que nasce em Portugal, he a melhor, que se conhece em Europa, e como tal he buscada dos Estrangeiros com grande culpa nossa; pois dando-nos Deos esta tinta taõ excellente neste Reyno, naõ se tece nelle hum covado de graã; e os Estrangeiros nos tornaõ a vender o que he proprio nosso, a mais subido preço, podendo nós vendello a elles. O mesmo se pode dizer do pào do Brasil, e pastel das Ilhas, que sendo quasi mercadorias estanques, nòs as damos em materia simples a todas as Naçoens da Europa para com ellas tingirem os seus pannos, podendo nòs usar dos mesmos tratos, e ser os vendedores dos pannos, e naõ os compradores. Estas, e outras mechanicas se poderàõ obrar com grande utilidade do bem publico, assim para as rendas Reaes, como para a multiplicaçaõ, e sustentaçaõ do povo. E naõ hà, que reparar em parecer, que serà isto cousa difficultosa, ou muito custosa, se naõ ordinaria, e facil; pois o grande trato das sedas de Sicilia teve principio em ElRey Rogerio trazer de Corintho, e Athenas, quando as entrou, alguns Officiaes de seda para Sicilia: e estes bastaraõ para fazerem naquella Ilha hum trato de seda, que a tem tanto enriquecido.[25] Da mesma Sicilia mandou vir o nosso Infante D. Henrique os Mestres para ensinarem a plantar, e beneficiar o assucar na Ilha da Madeira.[26] Este principio bastou para fazer aquella Ilha a mais rica do mar Oceano; e para della sahirem depois os Mestres, que introdusiraõ este trato na Ilha de S. Thomè, e em todo o Brasil, que se naõ sustenta de outra causa, e he o mayor rendimento, que agora tem a Coroa de Portugal. Pelo que pois temos jà em casa o exemplo, e experiencia, naõ nos pòde parecer este arbitrio novo, ou de pequeno effeito.
Poucos annos há, que hum Oleiro, que veyo de Talaveira a Lisboa, vendo a bondade do barro da terra, começou a lavrar louça vidrada branca, naõ só como a de Talaveira; mas como a da China; porque na formosura, e perfeiçaõ pòdem competir as perçolanas de Lisboa com as do Oriente; e imitando-o outros Officiaes, cresceo a mercadoria de maneira, q́ naõ sómente està o Reyno cheyo desta louça; mas vay muita de carregaçaõ para fóra da Barra. Do mesmo modo quasi por este tempo começaraõ pelo districto de Coimbra a fazer searas de milho grosso de maçaroca, que vem de Guinè; e aos primeiros seguiraõ outros em tanto numero, que he hoje o mantimento mais ordinario para a gente vulgar, quasi em toda a Beira, e entre Douro, e Minho; de que se seguio grande beneficio a estas Provincias; porque como as searas saõ de regadio, nunca faltaõ; e fundindo muito, vem a ser o mantimento muito barato, com que o povo fica de todo abastado. Pelo que se estas mercadorias se introdusiraõ em nosso tempo só pela industria dos particulares; com quanto mòr facilidade, e felicidade se poderaõ introdusir as outras, que apontamos, pelo poder, e authoridade dos Principes?