§. IV.
Do proveito temporal, que resultarà à Coroa de Portugal de se fazerem estes Seminarios.
Notorio he a quem tem noticia das cousas deste Reyno, que a contrataçaõ, e direitos da Costa de Guinè foraõ por muitos annos a principal renda da Coroa de Portugal, e a com que ella se enriqueceo, e lhe deu cabedal para poder fazer as conquistas do Oriente, e novo mundo, pelo muito que importavaõ os direitos de Cabo-Verde, e rios de Guinè, Mina, S. Thomè, e Angolla, como se pòde ver dos Contratos, em que muitas vezes andaraõ arrendadas. Estas rendas, nas quaes os rendeiros ganhavaõ ainda muito, e eraõ taõ certas, que diz Joaõ de Barros[241] della estas palavras: Quanto ao acrescentamento do patrimonio Real, eu naõ sei neste Reyno jugada, portagem, dizima, siza, ou algum outro direito Real mais certo, nem que regularmente cada anno assim responda, sem rendeiros allegarem esterilidades, ou perdas, do que he o rendimento de cõmercio de Guinè; porque dà ouro, marfim, cera, courama, assucar, pimenta, malagueta, e daria mais cousas, se tanto quisessemos della descobrir, como descobrimos, alem dos povos Japões, que passaõ acerca de nós por Antipodas.
Porèm he muito para sentir,[242] que este taõ grande rendimento da Coroa Real esteja quasi de todo acabado de alguns annos a esta parte. A causa saõ os Olandeses, e naçoens do Norte, que navegando àquellas partes em suas nàos, levaõ là as mercadorias, que nòs levavamos em muito mayor abundancia: e naõ contentes com isto, roubaõ todas as nossas embarcaçoens, que por aquellas Costas andaõ de maneira que estaõ hoje quasi senhores daquelle commercio, e tiraõ delle tanto proveito, que se julga por homens praticos lhe vem a importar o trato perto de dous milhoens: e esta foy a fonte das riquezas, que hoje possuem os Olandeses. Para remedio deste mal se tem applicados alguns meyos, mas nenhum delles foy de effeito; porque como aquellas Provincias saõ taõ distantes, e tenha cada huma tantos centos de legoas de Costa he impossivel defenderem-selhe todos os portos com armadas nossas, nem com fortalezas; e assim senaõ acabarmos com os mesmos naturaes da terra, que os naõ queiraõ receber em seus portos, nem commerciar com elles, naõ poderemos ser restituhidos a nosso antigo Senhorio.
Para se isto alcançar daquella gente, parece que naõ póde haver outro meyo mais poderoso, e facil, que o dos Seminarios, que dizemos; porque com elles se alcançaõ dous importantissimos effeitos. O primeiro he segurarmos em nossa amizade os Regulos confederados; porque tendo estes entre nòs seus filhos, e parentes, quasi como em refens, naõ poderaõ declararse em favor dos Olandeses em publico, nem em secreto. O segundo he a universal benevolencia, que adquirirémos com aquelles Principes, e povos de Guinè, os quaes vendo o grande beneficio, que se faz a seus filhos, e parentes em os mandar sua Magestade ensinar, e doutrinar à sua custa, honrando-os, e engrandecendo-os com a dignidade Sacerdotal, admittindo-os aos Beneficios, Cortesias, e Dignidades de suas Igrejas, forçosamente haõde ficar obrigados a taõ grande mercè, e unidos com nosco em paz, e amizade, e feitos inimigos de nossos contrarios, principalmente depois que os Seminaristas seus naturaes lhes começarem a prègar, e persuadir, que se apartem de sua communicaçaõ. Disto temos jà visto hum grande exemplo[243] em ElRey D. Filippe da Serra Leoa, o qual sem receber beneficio algum temporal da Coroa deste Reyno, mais que o espiritual do Bautismo, foy este bastante para lançar fóra de seus portos os Olandeses, e prender os que depois a elles chegaraõ. Pelo que mais se pode esperar que façaõ os outros daqui por diante, vendose obrigados a Sua Magestade com lhes mandar ensinar, e honrar seus filhos, e naturaes.
He este meyo de taõ grande importancia, que naõ póde haver outro mayor, nem mais certo para as Naçoens do Norte deixarem aquelle cõmercio; porque nenhuma cousa cria taõ grande odio entre as gentes, como a diferença das Religioens. E assim ainda em razaõ de estado este he o meyo mais principal, com que os Reys fazem mais obedientes os vassallos, e inimigos de seus vizinhos, como conta a Escritura Sagrada de Jeroboaõ, que fez idolatrar a gente de Samaria, para ficar firme no Reyno novo. Pelo que se estes, e outros muitos alcançaraõ este seu intento prégando falsa doutrina; com muita mais razaõ devemos pretender a conversaõ desta Gentilidade; pois com ella àlem do bem de suas almas se confirmarà em perpetua obediencia o senhorio, que esta Coroa tem naquellas partes, fazendo aborrecer, e odiar nellas os Herejes, de maneira, que naõ sejaõ nellas mais admitidos.
Seguirseha tambem destes Seminarios a paz de Angolla, deixandose o meyo das armas, que ha tantos annos a andaõ destruindo, das quaes senaõ tem colhido fruito algum; porque o pensamento de nos senhorearmos das Minas, a experiencia o tem mostrado impossivel, naõ só porque as naõ hà da fineza, e abundancia, que se requerem para serem de proveito; mas pela grande dificuldade, que haveria em se conservar o dominio dellas tantas leguas pelo sertaõ dentro, o que naõ poderia ser sem muitos presidios. Onde os inimigos, e doenças eraõ bastantes, para consumir toda a gente de Portugal. E assim destes metaes nunca poderémos ter mais, que aquelles que os Negros nos trouxerem a resgatar, movidos pelo interesse do ganho; e as guerras, que por este respeito se fazem, só servem de gastarem a fazenda de Sua Magestade ha muitos annos, por custar muito naquellas partes a sustentaçaõ dos soldados, e naõ para algum bom effeito. Porque ainda que sempre tivemos vitoria, naõ se contentaõ muitos Capitaens com este vencimento por ganharem mais com Sua Magestade nestas guerras, do que as mesmas rendas de Sua Magestade poderiaõ ganhar com o commercio da paz. E sendo assim que a conquista de Angolla naõ se intentou para povoarmos aquella Provincia (pois neste Reyno nos sobejaõ terras muito melhores, que por falta de gente se deixaõ de cultivar) senaõ por respeito da conversaõ dos naturaes da terra, e do comercio: não sey que espirito de guerra tem entrado naquelle Estado, que o tem destruido quasi de todo. E feito cessar huma, e outra cousa, por ser a guerra a destruidora dos commercios, e da promulgaçaõ do Evangelho, que sendo como temos dito, de paz, naõ se pòde prègar com as armas na maõ. E por isso dizem os Santos, que ordenou Nosso Senhor houvesse huma paz universal no Mundo, quando quiz que se convertesse, e prégasse nella sua Santa Ley. E o que em Angolla està feito de conversaõ, e commercio, se deve aos que a governaraõ em paz, e naõ com guerra. Por tanto se devem mandar extinguir estas infaustas guerras, e trazer aquelles Povos à nossa amizade com beneficios, e boas obras, ensinando-lhes os filhos, e honrando-lhos por meyo dos Seminarios; e por esta via se alcançarà a benevolencia daquellas gentes, e naõ com as mortes de seus parentes, e assolaçoens de seus Povos, que cada hora recebem de nossas mãos, em lugar dos favores, e caricias, com que os haviamos de attrahir para se converterem, e estimarem nossa communicaçaõ.
Finalmente com esta obra dos Seminarios alcançarà Sua Magestade hum nome gloriosissimo de Pio, e Religioso Principe, porque vendo as outras Naçoens estes Seminarios, e o grande zelo da honra de Deos, com que Sua Magestade manda taõ longe, e a terras taõ barbaras doutrinar sogeitos para a prègaçaõ do Evangelho, e fazer politica huma das mayores partes do Mundo, naõ poderaõ deixar de lhe dar grandes louvores, edificando-se de taõ grande zelo da salvaçaõ das almas. E com isto se calaraõ de todo nossos inimigos,[244] que vendo nosso descuido, naõ deixaõ de nos calumniar, dizendo que naõ himos àquellas partes, por estender o Evangelho, senaõ por fazer nosso proveito. As quaes calumnias falsas, e outras semelhantes, de que andão seus livros cheyos, cessaraõ de todo, vendo com estes Seminarios, que a salvaçaõ das almas he o principal interesse, que Sua Magestade pretende destas Conquistas.