§. V.

Como se poderaõ fazer os Seminarios com pouco custo.

Do que temos atègora dito, consta que esta obra da conversaõ dos Ethyopes desta Costa, naõ se pòde fazer sem ajuda dos mesmos naturaes da terra doutrinados, e ensinados por nòs. Pelo que resta sómente vermos os meyos, com que isto se hade fazer: estes saõ notoriamente dous, ou vindo os sogeitos de Guinè aprender a Portugal, ou hindo os Prègadores de Portugal a Guinè a ensinallos.

Bem sey que de muito mòr proveito fora fazer estes Seminarios em Portugal, applicando-se a creaçaõ delles a alguns Religiosos; porque cà seria de mòr fruito a doutrina, e aprenderia juntamente a policîa, como aconteceo aos primeiros Sogeitos que de Congo vieraõ, que chegaraõ a ser depois Bispos. Mas se pelas occasioens presentes naõ pòde isto agora ter inteiro effeito, ao menos bem se poderiaõ repartir alguns a dous, a dous pelos Conventos de Religiosos com ordem de Sua Magestade, para que fossem doutrinados nas boas letras, e podessem depois hir fazer o mesmo officio com seus naturaes. O que meyo com muita facilidade se podia executar. Porém quando isto agora naõ possa ser, facilmente se poderaõ ordenar em Guinè; porque as fabricas, que se usaõ naquellas partes, saõ taõ pouco custosas, e do mesmo modo a sustentaçaõ dos sugeitos pela barateza dos mantimentos da terra, que ElRey D. Affonso de Congo fez huma cerca, em que tinha mil moços nobres com Mestres, que os ensinavaõ, e delles sahiraõ Mestres, que poseraõ escolas por todo o Reyno, e por este meyo se veyo converter todo elle, como se diz na Chronica delRey D. Manoel p. 4. c. 3. Pelo que tornando as rendas daquellas Provincias seu estado com huma moderada ordinaria, se poderiaõ sustentar os sogeitos, que parecessem convenientes.

Para se fazerem estes Seminarios, àlem do de Loanda em Cacheu, ou em Biguba ha a mayor commodidade, que pòde ser, naõ só para os Discipulos, mas para os Mestres, que naõ saõ naturaes da terra. Cacheu, diz o Padre Balthesar Barreira nas cartas do anno de 1607. e 1608. que he o mais composto, que se póde escolher; porque he porto frequentado de todos os navios de Europa, e Caboverde, pelo grande resgate, que aqui ha de escravos, os quaes antes de se embarcarem, se bautizaõ, e por isso he alli mais necessaria huma casa de Religiosos doutos. Confessa o Padre, que aqui fez mayor fruito, que em nenhuma outra parte de Guinè, com estar alli menos tempo. E com tudo era grande a magoa, e dor, que sentia de ver a perdiçaõ de tantas almas, que se poderaõ salvar, se deste Reyno lhes mandaraõ quem os doutrinasse; porque com o bom entendimento, que tem, se sojeitaõ tanto às razoens, que lhes daõ, que sem duvida se converteriaõ todos. E he esta Provincia taõ perto deste Reyno, que naõ dista de Portugal mais que 20. dias de navegaçaõ. E o que mais he de notar, que diz o Padre em muitos lugares, que os ares da Serra Leoa, e dos mais lugares daquella costa levaõ ventagem aos melhores de Portugal; e que se naõ morre naquella terra de doença, senaõ de velhice; porque naõ tem excesso nos frios, nem nas calmas pela frescura que sempre corre, e assim naõ he necessario no veraõ usar de remedios de aguar as casas, nem de avanos. E affirma o Padre, que tem esta terra por mais accommodada à vida humana, que todas as de Europa.

A facilidade da conversaõ he tanta, que diz o Padre Balthasar Barreira, que naõ ha Rey dos que vivem pela Costa, que naõ queira receber o Evangelho com toda a sua gente: exemplo seja, que os mais delles lhes deraõ os mesmos filhos, para que os levasse consigo, e os ensinasse, e assim entre outros trazia dous filhos delRey de Tora, e outros dous, da Serra Leoa.

O Cõmercio he taõ grande, que excede o que se tira de todas as outras partes, porque diz, que só os Olandeses tiraõ delle todos os annos dous mil arrateis de ouro. Na terra hà melhor pào de tinta, que o do Brasil, mais algodaõ, e mais fino, ambar, marfim, cera, malagueta, courama. As canas de assucar nascem naturalmente, grande abundancia de mantimentos, ferro, e outros metaes, muitas arvores de espinho, as uvas se daõ pelo campo, bananas, arroz, milho, castanha, a que chamaõ Cola, de que se leva para todo Guinè, e nascem em ouriços sem espinhos, palmeiras, toda a sorte de aves, e animaes, muitos, e bons pescados, pelo que naõ só havendo Prègadores, se ficaria ganhando hum numero quasi infinito de almas para a Igreja Catholica, mas hum muy rendoso comercio para este Reyno.

Para Sua Magestade mandar contribuhir das rendas de Guinè esta ordinaria, hà assaz de razoens: porque àlem de naõ ser muita a porçaõ, he esta obrigaçaõ imposta pelo Sagrado Concilio Tridentino àquelles dizimos, àlem de os Summos Pontifices concederem com esta condiçaõ à Coroa deste Reyno o Senhorio de Guinè; da qual só Angolla rendia quarenta contos. Pelo que naõ he muito, que para esta obra de tanta obrigaçaõ, e proveito espiritual, e temporal se acrescente esta Ordinaria às outras de Angolla, e Caboverde, a qual naõ servirà de despeza, senaõ de accrescentamento dellas; porque como dissemos, naõ se pòde fazer mayor guerra aos Herejes naquellas partes, que por meyo do Seminario. De maneira que continuandose elle, em poucos annos se colherà sem comparaçaõ muito mayor fruito temporal, do que pòde ser o gasto; mas ainda que se este naõ seguisse, assaz se alcança com a salvaçaõ de tantas almas: sendo cada qual de tanto preço, que só por huma dellas, viria Nosso Senhor de novo do Ceo à terra a se fazer homem, se isso fora necessario para sua salvaçaõ.

Este zelo da honra de Deos foy o que dilatou o Senhorio de Portugal posto num canto de Espanha atè os fins da terra, dando-lhe as riquezas de Africa, Asia, e America. Esta grandeza hirà sempre em crescimento, se se continuar o zelo da conversaõ das mesmas gentes. Para o qual ministerio Nosso Senhor escolheo por sua particular graça, e misericordia aos Portugueses, como o certificou ao nosso primeiro Rey D. Affonso Henriques. Este he o fundamento de nossas vitorias, esta he a causa de se sustentarem as Colonias de Portugal por todas as Costas da redondeza da terra; o que naõ pòde ser senaõ milagrosamente, porque naõ houve nunca Monarquia, que tanto se estendesse, nem Imperio algum, que tivesse poder para defender tantas mil legoas de Fronteira confinantes contra os mayores Principes do mundo. A esta divina obra deraõ principio os Portugueses, como outros novos Apostolos, por ella derramaraõ tantas vezes o sangue, e sacrificaraõ as vidas, como tem visto o mundo todo no grande numero de Martyres, assim Religiosos, como Seculares, que padeceraõ no Japaõ, China, Siaõ, India, Cafraria, e no Brasil.

Botero no livro intitulado: Del officio di Cardinali l. 2. fol. 138. estranha grandemente aos Portugueses o esquecimento que tem de prègarem na Ilha de S. Lourenço; tendo tanto zelo, que se empregaraõ na conversaõ espiritual da India, Malucas, Japaõ, e China, que lhe ficava muito mais longe. Pelo que com quanta mais razaõ se podéra queixar de faltarmos com esta doutrina aos povos de Guinè, se fora informado das commodidades, que para isso temos muito mayores, que naõ para a Ilha de S. Lourenço, suas palavras saõ: Non voglio pero lasciar de dire che io mi maraviglio grandemente, che i Portuguesi, che con lode, e con gloria loro immortale an aportato la luce del Evangelio a la India, a le Maluche, a la China, i al Giapone, & che no hanno incio risparmiato, ne speza, ne travaglio, ne periculo alcuno, lascino, in abandono, la Isola de San Lorenzo, posta quasi a media strada de le navigationi loro.

Finalmente se desejava[245] S. Francisco Xavier de hir prègar aos Doutores da Universidade de Pariz a obrigaçaõ, que tinhaõ de exercitar o talento na conversaõ dos povos da India, que por falta de semelhantes obreiros se hiaõ à perdiçaõ; com quanto mais razaõ pòdem temer esta conta aquelles, a cujo cargo estiver procurar a conversaõ de tantas almas, que por esta falta se perdem cada dia? E assim parece se deve mandar entender nesta materia com muita diligencia, e consideraçaõ; pois della resulta taõ grande serviço de Deos, e de Sua Magestade.