§. XIX.

Do modo, com que saõ postos os nomes aos Officiaes da Armaria.

ElRey D. Manoel depois, que mandou fazer o Regimento dos Officiaes da Armaria, diz Damiaõ de Goes no cap. 80. da 4. p. da sua Chronica, que em Lisboa nos Paços da Ribeira fez hum acto publico muito solemne, em que deu nome a todos os Reys de Armas, e Arautos, e Passavantes destes Reynos, a cada hum delles separadamente da sua Provincia. Pelo que me pareceo bem pòr aqui as ceremonias, com que estes actos se fazem; porque alèm de pertencerem a este lugar, atègora as naõ vî escritas em outra parte. Estando ElRey sentado debaixo do Docel em Sala publica, vem o novo Passavante, e o Rey de Armas o appresenta sem cotta, nem Brazaõ diante delRey, e posto o Passavante de joelhos faz o juramento seguinte. Foaõ Passavante juro a estes Santos Evangelhos nas maõs de Foaõ Rey de Armas, que bem, e verdadeiramente, e com todo o cuidado, e diligencia aprenda todo o que necessario for ao nobre officio das Armas, para que dignamente possa passar, e ser acrescentado ao officio de Arauto, e de Rey de Armas, quando ElRey Nosso Senhor disso houver por seu serviço de me prover. E assim juro em todo o que pelo dito Senhor, e por aquelles, que para elle seu lugar tiverem, me for mandado, que de meu officio de Passavante faça, e farey toda a fidelidade, cuidado, e diligencia, assim como devo, e saõ obrigado fazer ao serviço de meu Rey natural, e Senhor.

Acabado o juramento, o Copeiro Mòr traz huma taça de prata branca com agua, e sem cobertura, e o Veador huma toalha, e dando o Copeiro Mòr a taça a ElRey, lhe lança por cima da cabeça huma pouca, e lhe poem o nome da Villa, que quer, e o principal Senhor, que està na Sala, toma a toalha da maõ ao Veador, e a dà a ElRey para alimpar as maõs. Feito isto, o Rey de Armas lhe poem o Brazaõ no peito à parte esquerda, e veste a cotta de Armas atravessada, como he costume trazerem os Passavantes, e depois de vestidos, assim elles, como os mais Officiaes de Nobreza, e o Rey de Armas bejaõ a maõ a ElRey, e o Copeiro Mòr dà ao Passavante a taça de prata, em que esteve a agua, a qual leva na maõ, porque de direito lhe pertence.

O Arauto vem a este acto vestido, ainda como Passavante, e acompanhando-o diante todos os Officiaes da Nobreza, leva-o pela mão o principal Rey de Armas, o qual o appresenta diante delRey: o Arauto entaõ posto de joelhos com a mão em hum Missal, que o Rey de Armas tem aberto, faz o juramento seguinte.

Juro aos Santos Evangelhos nas maõs do Rey de Armas Foaõ, que bem, e fiel, e lealmente servirey a ElRey Nosso Senhor toda a minha vida, e me naõ mudarey, nem passarey para nenhum outro Rey, nem Principe, nem mudarey o nome, que pelo dito Senhor me he posto, resalvando, se para elle o dito Senhor me der licença.

Juro assim mesmo, que em qualquer maneira, e em qualquer tempo, que sentir danno, ou proveito do dito Rey Nosso Senhor, que a meu officio toque, e pertença, o revelarey, e direy a sua propria pessoa, ou a quem por elle me for mandado, resalvando em guerra, se o dito Rey nosso Senhor com algum Rey, ou Principe a tivesse, ou com qualquer outra pessoa, a que por meu officio saõ obrigado guardar segredo, assim a meu Senhor, como à parte contraria.

Juro assim mesmo, que em todas as mesagens, recados, embaixadas, de que for encarregado, assim pelo dito Rey Nosso Senhor, como pelos que seu lugar, e mandado para elle tiverem, como de qualquer outro Rey, ou Principe; posto q́ estè em imizade com o dito Rey nosso Senhor, farey verdadeiras, e fieis relaçoens: inteiramente direy, e fallarey o que me for dito, e mandado, e naõ acrescentarey, nem minguarey disso cousa alguma por odio, dadivas, nem prometimento, nem por outro respeito algum, e em tudo farey verdade, servirey fielmente, &c.

Juro assim mesmo, que quando me achar em algumas justas, ou torneos, ou em guerras, escaramuças, desafios, assaltos, ou em quaesquer outros actos de guerra de qualquer sorte, e qualidade que sejaõ, sempre diga fiel, e verdadeiramente tudo aquillo, que vir por meus olhos à boa fé, e sem engano, nem malicia, e sem acrescentar, nem diminuir alguma cousa em nenhum modo que seja; e de tudo farey verdadeiro, e fiel testimunho, sem tirar, nem minguar, nem acrescentar a honra, e louvor, e fama de nenhuma pessoa por nenhum respeito que seja.

Juro assim mesmo, que serey verdadeiro, e leal, fiel, secreto a todo o Estado de Nobreza; e tudo o que for dito em segredo, naõ sómente nestes Reynos, e seus Senhorios, mas em qualquer outro Reyno, em que me achar, ou Senhorio.

Juro assim mesmo, que naõ farey desafio, nem entrevirey nelle entre nenhumas pessoas de qualquer qualidade, e condiçaõ que sejaõ, sem mandado Especial delRey nosso Senhor.

Juro assim mesmo, que qualquer dadiva, bem, ou honra, que receber de qualquer Rey, Principe, ou Senhor, a que por ElRey Nosso Senhor for enviado, ou por quem seu lugar, e mandado para elle tiver, o direy a ElRey Nosso Senhor: e assim a quaesquer outros Reys, e Principes, se por elles por isso for perguntado, naõ direy mais, nem menos, do que receber, nem me for feito por tal, que verdadeira, e fielmente notifique a Nobreza de cada hum.

Acabado o juramento traz o Copeiro Mòr huma copa dourada sem cobertura com agoa, e o Veador a toalha; e ElRey na fórma ja dita lança a agoa pela cabeça ao Arauto, e lhe poem o nome da principal Cidade, que ha por bem, e tomando ElRey a toalha na fórma jà dita, o Rey de Armas vira a cota ao novo Arauto, e lhe poem o Brazaõ à maõ direita, publicando todos os Officiaes da Armaria em voz alta por tres vezes o nome do mesmo Arauto. O que feito bejaõ a maõ a ElRey, e o Copeiro dà a Copa ao novo Arauto, que a leva na maõ por ser de direito sua.

Quando ao Rey de Armas se lhe poem o nome, vay tambem ao Paço acompanhado de todos os Officiaes da Nobreza vestidos com suas còtas, e postos de joelhos diante delRey, faz o juramento seguinte em hum Missal, que o principal Rey de Armas tem na maõ, dizendo.

Juro a estes Santos Evangelhos nas maõs de Foaõ Rey de Armas, que bem, e verdadeiramente darey do livro de meu Regimento das Armas aos Nobres as armas, que direitamente se lhes pertencem, segundo a ordem, e Regimento, que para elle me he dado por ElRey Nosso Senhor, que em tudo guardarey, cumprirey: e que por temor, nem por amor, nem por dadiva, nem por prometimento; nem por outro nenhum respeito, naõ farey nisso cousa, que naõ deva; e finalmente guardarey nisso a justiça, e direito da parte a que tocar.

Juro assim mesmo, que quando for enviado com algum Embaixador, que ElRey Nosso Senhor enviar, serey com todo o cuidado diligente a seu serviço, e fielmente farey, cumprirey tudo o que me for mandado, e com minha cota de armas vestida entrarey onde quer que me for mandado por ElRey Nosso Senhor, ou por seus Embaixadores.

Juro de em todo cumprir, e guardar o juramento, que feito tenho, quando fuy feito Arauto, e todas as cousas, obrigaçoens do dito juramento, e cada huma dellas cumprirey, e sarey fiel, e verdadeiramente, como no dito juramento he conteudo.

Feito o juramento, o Copeiro Mòr traz outra copa dourada com sua cobertura, e o Veador huma toalha, e tomando ElRey a copa, lança ao novo Rey de Armas a agoa pela cabeça, e lhe poem o nome da Provincia, que ha por bem. E depois de lhe darem a toalha na fórma referida, os Officiaes da Nobreza publicaõ logo o nome do novo Rey de Armas, e recebe a copa, que teve a agoa, da maõ do Copeiro Mòr, e a leva por ser gaja sua.