§. XV.
O Cardeal D. Verissimo de Lancastro.
Foy filho de D. Luiz de Lancastro, Comendador Mòr de Aviz, e de Dona Filippa de Vilhena, filha de Manoel de Vasconcellos Regedor da Justiça. Nasceo em Lisboa, e foy bautizado na Igreja Parroquial de Santos a 9. de Julho de 1615. Foy Doutor em Canones pela Universidade de Coimbra. Foy Conego, e Thesoureiro Mòr da Sè de Evora, Deputado, e Promotor do Santo Officio da Inquisiçaõ da mesma Cidade, lugar de que tomou posse em 19. de Novembro de 1644. Foy Inquisidor da mesma Inquisiçaõ, e tomou posse em 16. de Março de 1649. donde veyo para lnquisidor de Lisboa, e tomou posse em 7. de Julho de 1660. Deputado do Concelho Geral, de que tomou posse em o primeiro de Abril de 1664. Foy Sumilher da Cortina delRey D.Pedro II. e por elle nomeado Bispo de Lamego, que naõ aceitou. Foy Arcebispo, e Senhor de Braga, Primaz de Espanha. Tomou posse por Procurador em 8. de Julho de 1671. Entrou naquella Cidade em 3. de Novembro do mesmo anno. Visitou a sua Diocesi com muita diligencia, e caridade. Administrou o Santo Sacramento da Confirmaçaõ a innumeraveis pessoas de hum, e outro Sexo. Residio na sua Igreja atè 27. de Março de 1677. em que veyo para Lisboa, e foy provido no lugar de Inquisidor Geral, deixando a Cidade de Braga muito sentida de perder hum taõ benigno Senhor. No lugar de Inquisidor Geral logrou occasioens de mostrar alèm do zelo da Fè, todas as virtudes moraes, de que foy dotado. Em 12. de Setembro de 1686. o creou o Santo Pontifice Innocencio XI. Cardeal da Santa Igreja Romana. A eminencia da Dignidade nunca dantes vista em Portugal dos que entaõ viviaõ, lhe naõ diminuhio a sua natural affabilidade, pela qual era amado de todos. Continuou em dar Ordens todos os Domingos na sua Capella a todos, os que tinhaõ privilegios para tomalas extra tempora com grande cõmodidade dos ordinandos, naõ só deste Reyno, mas dos vesinhos, donde vinhaõ muitos a tomar Ordens a Lisboa, que elle dava a todos com tanto gosto, que dizia, que nisso naõ fazia favor, mas que o recebia. Ainda sendo muito velho se levantava muito cedo para estudar na sua copiosa Livraria, e assim era taõ versado nas materias Canonicas, que nenhum ponto se lhe allegava Author algum, que elle naõ accrescentasse a allegaçaõ com muitos outros, sem que a applicaçaõ lhe fizesse damno à saude, que conservou robusta atè a ultima idade, em que assaltado de hum violento achaque se rendeo à cama, e em poucos dias de doença deu muitos exemplos de piedade, e de todas as virtudes. Achava-se naquelle tempo em Lisboa o Reverendissimo Padre Fr. Joaõ de Alvim Ministro Geral de toda a Ordem dos Menores, Successor de S. Francisco, que tinha vindo a vizitar as Provincias deste Reyno, Varaõ prudentissimo, e de santa vida, e foy significar ao Cardeal o quanto era sensivel para toda a sua Religiaõ, o estado, em que se achava sua Eminencia, e o Cardeal o recebeo com as expressoens de humildade christãa, que pudera fazer o menor subdito daquelle grande Prelado. Conservando sempre a constancia do animo, recebeo todos os ultimos Sacramentos com tal piedade, que edificou a toda a Corte. Em todas as Casas Religiosas se faziaõ Preces pela vida daquelle Principe, que excedeo a todos no amor às Sagradas Religioens; mas se lhe naõ alcançaraõ huma vida mais dilatada, conseguiraõ-lhe huma morte santa, pela qual entregou a alma nas mãos do seu Creador em 13. de Dezembro de 1692. Aberto o seu Testamento se achou cheyo de disposiçoens pias, e prudentes: entre outras mandou, que se lhe fizesse huma Capella no Adro da Igreja de S. Pedro de Alcantara de Lisboa com outenta mil reis de renda perpetua para a fabrica della, e que nella se lhe dissessem quatro Missas quotidianas perpetuas, deixando por cada huma a esmolla de quarenta mil reis cada anno. Foy a sua morte sentida em todo o Reyno pela muitas, e singulares virtudes, com que se tinha feito amavel a todo elle. Mandouse sepultar no Atrio da Igreja de S. Pedro de Alcantara do Mosteiro dos Capuchos da Santa Provincia da Arrabida, da qual tinha sido grande bemfeitor, adonde o seu corpo foy levado por entre duas alas de Religiosos de todas as Ordens, que ha em Lisboa, que principiando na porta do Palacio da Inquisiçaõ, acabavaõ na dita Igreja, tendo todos vèlas acesas. Ao mez se lhe fez hum solennissimo officio na mesma Igreja, funebre, mas ricamente adornada, com elevadissimo Mausoleo cheyo de luzes. Prègou naquellas honras o Illustrissimo Bispo de Pernambuco D. Fr. Francisco de Lima da Ordem de N. Senhora do Monte do Carmo com a sua costumada elegancia, e erudiçaõ.