§. XVI.
O Cardeal Luiz de Souza.
Foy filho de Diogo Lopes de Sousa, segundo Conde de Miranda, Governador do Porto, Presidente do Concelho da Fazenda, do Concelho de Estado de Portugal na Corte de Madrid, e da Condessa Dona Leonor de Mendoça. Nasceo na Cidade do Porto em 16. de Outubro de 1630. No de 1639. foy com a Condessa sua Mãy para Madrid, adonde desde o anno antecedente estava o Conde seu Pay, que alli faleceo em 27. de Dezembro de 1640. vinte, e sete dias depois de se ter acclamado em Lisboa ElRey D. Joaõ IV. Neste tempo jà Luiz de Sousa era Menino da Rainha no Paço de Castella, aonde continuou atè o anno de 1646. em que em companhia da Condessa viuva, com permissaõ delRey D. Felippe IV. voltou a Portugal. Em Lisboa estudou Latinidades no Collegio de Santo Antaõ da Companhia de Jesus. Declarouse logo por elle o favor do Principe D. Theodozio, augmentado pelo amor dos Livros, em que era muito semelhante ao Principe, Luiz de Sousa, que tendo só dez annos, começou a diligencia de juntar Livros, em que perseverou por toda a vida, comprando naquella tenra idade os primeiros trez, que ainda que de materias agradaveis aos annos pueriz, foraõ principio da copiosissima, selecta, e celebrada Livraria de Luiz de Sousa, que para ajuntalla, fez huma larga peregrinaçaõ. Naõ tendo completos vinte, e hum annos, partio para Roma em 8. de Fevereiro de 1651. no Pontificado do Papa Innocencio X. No anno de 1653. lhe chegou a funesta noticia da morte do seu adorado Principe D. Theodozio, succedida em Alcantara de Lisboa a 15. de Mayo daquelle anno, a qual fez nelle tanta impressaõ, que teve grandes impulsos de entrar na Cartuxa, para se retirar totalmente do Mundo, e morrer para elle, seguindo do modo, que lhe era licito, ao Principe defunto. Mas a Divina Providencia, que destinava Luiz de Sousa para Principe da Igreja, lhe tirou os pensamentos daquella estreita clausura, e a que sempre conservou hum grande amor, pelo qual tinha resoluto nos ultimos annos de sua vida doar à Cartuxa de Laveiras, no Termo de Lisboa, a sua grande Livraria, e lhe começou a fabricar huma capacissima Sala para a collocar, a qual ficou imperfeita, e a meditada doaçaõ sem effeito. Testemunhou publicamente o sentimento da morte do Principe D. Theodosio com erigir em Roma hum Monumento perene à sua memoria, com esta inscripçaõ.
TUMULUS
Serenissimi Principis Lusitania
THEODOS II
Ornatus virtutibus, oppletus lacrimis
Illius inmorttalitati
A LUDUVICO DE SOUSA
Comitis Mirandæ filio
Uno ex intimis Aulæ
Erectus.
No qual em elegantes versos latinos choraõ aquella lamentavel perda as quatro partes do Mundo, a que se estende o Imperio Portuguez. Em Roma estudou Luiz de Sousa os Sagrados Canones, em que se graduou Doutor. Ainda se achava naquella Corte ao tempo da morte de Innocencio X. a 3. de Janeiro de 1655, e no da eleiçaõ de seu successor Alexandre VII. exaltado ao Summo Pontificado em 7. de Abril do mesmo anno. Do qual obteve o Deado da Sè do Porto, com o qual sahio de Roma em Setembro do dito anno, e depois de visitar a Santa Casa do Loreto, passou a Veneza, e dahi a Alemanha, Flandes, Olanda, e Pariz. Restituido a Portugal em 26. de Setembro do anno seguinte de 1655. foy Governador do Bispado do Porto, e Governador da mesma Cidade, e da sua Relaçaõ, occupando estes tres lugares com admiravel inteireza, prudencia, e desinteresse. Em 1669. o nomeou ElRey D. Pedro o II, (sendo ainda Principe Regente, e Governador deste Reyno) para a dignidade de Capellaõ Mòr, e o Papa Clemente X. o fez Bispo de Bona. Sagrouse na Capella Real em 14. de Junho de 1671. Em 17. de Setembro de 1675. foy nomeado Arcebispo de Lisboa. Tomou posse em 22. de Janeiro de 1676. Fez magnificas obras no Palacio Archiepiscopal. Alcançou para Lisboa o Jubileo do Laus perenne, e hia visitar todas as Igrejas, em que elle se achava por todo o circulo do anno. Duas vezes foy Provedor da Mizericordia, huma no anno de 1674. e outra no de 1683. em ambas fez aquelle officio com grande assistencia, piedade, e generosidade. Reedificou o Templo de Santa Catharina de Ribamar, de Religiosos da Santa Provincia da Arrabida, com todo o primor da Architectura. No Real Mosteiro da Batalha na Capella de S. Miguel fez o sumptuoso Mausolèo para que fez trasladar em 24. de Mayo de 1691. os ossos do Conde seu Pay, como testemunha a inscripçaõ, cuja elegancia compete com o polido da obra, como sahida da penna do Reverendissimo Padre D. Rafael Bluteau, Clerigo Regular da Divina Providencia, Academico da Academia Real, Varaõ bem conhecido no Mundo pela sua celebre, e admiravel obra do Vocabulario Portuguez em dez tomos de folha, e outras muitas obras de grandissima estimaçaõ, que imprimio, e deixou manuscriptas em Latim, e Portuguez.
Em 30 de Agosto de 1679. foy feito do Concelho de Estado. Foy creado Cardeal da Santa Igreja Romana, pelo Papa Innocencio XII. em 21. de Junho de 1697. Trouxe-lhe o Barrete D. Jeronymo Colona, que por isto teve de pensaõ duzentos mil reis no Bispado de Miranda. E perguntando-lhe o Senhor Rey D. Pedro II. se havia continuar no Officio de Capellaõ Mór, sendo Cardeal, elle lhe respondeo, que se a Purpura lhe houvesse de ser embaraço para servir a Sua Magestade naquelle Officio, por nenhum caso a aceitaria. Morreo piamente em 4. de Janeiro de 1702. Mandouse sepultar na Capella de Nossa Senhora da Piedade da Terra Solta na Claustra da sua Sè, para a qual tinha Tribuna do seu Palacio, no pavimento da Capella, em huma sepultura raza, em cuja campa, que he de pedra negra, mandou esculpir por Epitafio estas palavras: Sub tuum præsidium. Fizeraõ-se-lhe as honras na sua Sè, com a magnificencia devida a tal Principe: prégou nellas o Reverendissimo Padre Fr. Rodrigo de Lancastro, da Ordem dos Pregadores, hoje do Concelho de Sua Magestade, e do Geral do Santo Officio, por suas virtudes, letras, e alto Sangue, acredor das mayores dignidades. Trataõ do Cardeal Luiz de Sousa, Manoel de Sousa Moreira no Theatro Genealogico da Casa de Sousa. O qual he huma excellente obra, e em que se està vendo a boa eleiçaõ do Cardeal Sousa, porque a mandou fazer por hum dos maes discretos homens de seu tempo, que era Secretario do Padroado Real, e depois foy Abbade das Chans, e ultimamente da Igreja de Sambade, adonde morreo sendo Academico da Academia Real, na Provincia de Traz os Montes. Mandou o Cardeal imprimir esta excellente obra na Impressaõ Real de Pariz, no anno de 1694. em folha de grande papel, a qual enche mais de mil paginas, he livro muito adornado de estampas, com os retratos de todos os Senhores da Casa Sousa, desde o seu principio até aquelle anno, tudo feito com tal primor, que pareceo querer competir a arte Typografica com a elegancia do estylo, sacrificando-se huma, e outra a elevaçaõ do Assumpto daquella obra. O Padre Daniel Papebrochio da Companhia de Jesus, lhe dedicou o quinto tomo da grande obra intitulada: Acta Sanctorum Maij, e a Dedicatoria he hum elegante Panegyrico do seu Patrono; nella celebra tambem a sua famosa Livraria; à qual o sobredito Padre D. Rafael Bluteau dedicou o seu segundo tomo das suas Primicias Evangelicas, e he a Dedicatoria naõ só hum Panegyrico daquella Livraria; mas hum grande theatro de toda a erudiçaõ. Faz tambem honorifica memoria de Luiz de Sousa Jorge Cardozo, no terceiro tomo do Agiologio Lusitano, no commentario de 15. de Mayo letra G. pag. 283. tratando do Principe D. Theodosio; e este Author accrescentou, e enriqueceo muito a dita Livraria do Cardeal, com os preciosos Manuscriptos, que lhe deixou, os quaes tinha junto com grande trabalho, despeza, e desvelo em trinta annos: em ordem à composiçaõ da nunca dignamente louvada obra do Agiologio Lusitano de tanta gloria de Deos, e honra deste Reyno, de que deixou impressos tres tomos dos seis primeiros meses do anno, e nos taes Manuscritos a materia disposta para os outros seis.