§. XXIV.
Dos Marqueses, que ha no Reyno, e das ceremonias, com que eraõ creados antigamente.
Marquez se disse de Marca, que em lingua Alemã significa termo, e limite. Naõ foy este nome dignidade conhecida dos Romanos,[166] mas entrou com os Principes do Norte, os quaes destruindo o Imperio, e dividindo-o em muitos Reynos, punhaõ nos limites, e marcas de seus Estados Fronteiros, que as defendessem; e porque a estas fronteiras chamavaõ Marcas, intitularaõ aos Capitaens Marchiones; e depois corruptamente Marqueses. Deste tempo ficaraõ em Italia os Marquesados de Mantua, e Ferrara, e as Provincias ditas Marca de Ancona, e Trivizana. Em Espanha usaraõ tambem os Godos dos mesmos nomes, como se vè das historias dos Reys Godos, e os aponta Morales,[167] e particularmente neste Reyno, onde nos deixaraõ a palavra Comarca, que ainda hoje conservamos.
Sendo esta dignidade de Marquez officio, se foy tambem depois naõ sómente fazendo Senhorio das mesmas Marcas, mas ainda Dignidade, e Titulo. O primeiro, que houve neste Reyno, foy D. Afonso filho do primeiro Duque de Bragança, a quem ElRey D. Afonso V. deu este Titulo. Foy este Senhor, sendo ainda Conde de Ourem, ao Concilio de Basilea por Embaixador de Portugal com grande acompanhamento, e dahi, antes de tornar para o Reyno, correo grande parte de Europa, e Asia; e assim em remuneraçaõ de seus serviços o fez ElRey D. Afonso V. Marquez de Valença.
As ceremonias, com que esta dignidade se dà, conta largamente Garcia de Resende[168] na Chronica delRey D. Joaõ II. quando ElRey fez ao Conde de Villa Real D. Pedro de Meneses Marquez da dita Villa, e foy nesta forma. ElRey citava em seu estrado Real vestido ricamente, em pè com a mão na cadeira, debaixo de hum docel de brocado, acompanhado do Principe, e Grandes da Corte, vestidos todos de festa. O Conde veyo de sua Casa acompanhado de muitos Fidalgos, precedendo trombetas, charamellas, sacabuxas, e os Reys de Armas, e hum dos principaes Fidalgos, que o acompanhavaõ, levava diante hum Estendarte das Armas do Conde na mão com pontas, e outro huma espada rica embainhada, e o terceiro huma carapuça de seda vermelha forrada de arminhos, posta em hum prato de prata ricamente lavrado; com esta ordem entrou na sala, e chegou ao estrado, em que ElRey estava; e o Chanceler Mór por mandado delRey fez huma pratica, em que contou os muitos serviços do Conde, e como em gratificaçaõ delles, o queria ElRey acrescentar à dignidade de Marquez. Acabada a pratica, se chegou o Conde diante delRey, o qual tirou a carapuça do prato, e lha poz na cabeça, e tomou a espada, e lha cingio por cima dos vestidos, e da cinta lha tirou nua, e com ella lhe cortou as pontas do Estendarte, e ficou em Bandeira quadrada; e tomou hum anel de diamante, e lho meteo no dedo annular da maõ direita. Feito isto, o Marquez se poz de joelhos, e lhe beijou a maõ, e o mesmo fizeraõ logo o Principe, e os mais Grandes, e Fidalgos, que ahi estavaõ presentes. Convidou ElRey o Marquez, e jantou com elle aquelle dia à mesma mesa, estando ElRey debaixo do docel no lugar do meyo, e à sua maõ direita o Principe, e logo o Marquez, e à maõ esquerda ElRey D. Manoel Duque de Viseu, que depois lhe succedeo no Reyno. Acabado de comer, se recolheo ElRey, e o Marquez com o mesmo acompanhamento tornou para casa. Neste Reyno, e no de Italia costumaõ trazer Coroneis de perolas sobre as Armas; posto que como vimos, ElRey D. Joaõ lhe deu o barrete Ducal.
Os Senhores, a que os Reys deste Reyno deraõ titulo de Marquez, sem repetir duas vezes numa Familia o mesmo Titulo, saõ os seguintes. ElRey D. Afonso V. fez Marquez de Valença a D. Afonso, como jà vimos, e a seu Irmaõ D. Fernando Marquez de Villa-Viçosa. ElRey D. Joaõ II. a D. Pedro Meneses Conde de Villa Real fez Marquez da mesma Villa. ElRey D. Manoel concedeo aos primogenitos dos Duques de Aveiro o Titulo de Marquez de Torres Novas; e D.Joaõ III. fez Marquez de Ferreira a D. Rodrigo de Mello, Conde de Tentugal; e ElRey D. Filippe III. deu o mesmo Titulo a D. Christovaõ de Moura, fazendo o de Conde de Castello Rodrigo, Marquez da mesma Villa; e a D. Diogo da Sylva o de Marquez de Alanquer; ao Conde de Portalegre D. Filippe da Sylva fez ElRey D. Filippe o IV. Marquez de Gouvea; e ao Conde de Castelbom D. Jorge Mascarenhas Marquez de Montalvaõ; e ElRey D. Joaõ IV. ao Conde de Vimioso D. Afonso fez Marquez de Aguiar; e ao Conde de Monsanto D. Alvaro Pirez de Castro fez Marquez de Cascaes, e ao Conde de Vidigueira D. Vasco da Gama fez Marquez de Niza. ElRey D. Afonso VI. fez Marquez de Fontes a D. Francisco de Sà, e Menezes Conde de Penaguiaõ: Marquez de Sande a D. Francisco de Mello, e Torres Conde da Ponte, e Marquez de Marialva a D. Antonio Luiz de Menezes Conde de Cantanhede. ElRey D. Pedro II. fez Marquez de Alegrete a Manoel Telles da Sylva: de Fronteira a D. Joaõ Mascarenhas Conde da Torre: das Minas a D. Francisco de Sousa Conde Prado: de Tavora a Luiz Alvares de Tavora Conde de S. Joaõ de Pesqueira. ElRey D.Joaõ o V. fez Marquez de Angeja a D. Pedro Antonio de Noronha Conde de Villa-Verde: de Gouvea a D. Martinho Mascarenhas Conde de Santa Cruz: de Marialva a D. Diogo de Noronha: de Valença a D. Francisco de Portugal Conde de Vimioso, e ao Marquez de Fontes D. Rodrigo de Sà, e Menezes mudou este Titulo no de Abrantes, ficando o outro em seu primogenito D. Joaquim Francisco de Sà, e Menezes Conde de Penaguiaõ.