NOTAS ELUCIDATIVAS
A DEDICATORIA
No nosso periodo academico, que decorre de 1859 a 1866, e no que se lhe seguiu de 1867 até ao anno de 1874 em que nos casámos, mantivémos estreitas relações d'amisade com algumas familias historicas da provincia e da capital, onde eram ainda vivos os aggravos, e numerosas as queixas, contra as violencias e as vinganças politicas que, de parte a parte, precederam, acompanharam e seguiram o triumpho das armas liberaes, na guerra chamada dos dois irmãos, D. Pedro IV e D. Miguel I.
A nossa substancial e nunca desmentida tolerancia para com as crenças e as opiniões dos outros, derivada do Ideal de Justiça de 1789, que seguimos desde os bancos da Universidade com inquebrantavel fé e ininterrupta dedicação, e o quasi fanatico respeito pela inviolabilidade do lar, permittiram-nos estudar na vida intima d'aquellas familias illustres, a transformação profunda que se operou nas crenças, usos e costumes d'este povo, celebre entre os mais celebres da Historia.
Tivemos a infinita ventura de conhecer de perto, nas suas melhores origens, as mais bellas joias da alma portugueza, de que o coração da mulher foi, é, e ha de ser sempre o fiel relicario e transmissor! D'ahi em grande parte a nossa confiança na missão d'este povo heroico, nos destinos dos outros povos, quando para todos brilhe e impere um novo Ideal de Justiça e em nome d'elle sejam banidas as paixões, quer religiosas quer politicas, das regiões augustas e serenas da Lei e do Poder.
D'essas familias destacaremos a de Silva Gayo, o glorioso author do Mario, casado com D. Emilia Paredes, filha do Conselheiro Cunha Paredes, Juiz do Supremo Tribunal de Justiça, aquelle um vibrante e eloquente protesto contra os excessos de demagogia, ou clerical ou plebêa, de que o citado livro é um bellissimo documento; seu sogro um dos homens bons e ponderosos que partilharam e serviram o movimento liberal.
A familia de Luiz Monteiro Soares d'Albergaria, casado com D. Ludovina da Silva Carvalho, filha do celebre ministro de D. Pedro IV, senhora de excepcional illustração, que conhecia a fundo o seu tempo, e sobre elle descorria com conhecimento de causa.
A familia Osorio, da quinta das Lagrimas, e a da Graciosa, representando ambas o elemento são da aristocracia portugueza que se pronunciou pelas liberdades e franquias patrias, e onde me foi dado admirar os requintes da educação antiga, no que ella tinha de altruista e de bom, segundo o verdadeiro espirito evangelico.
A familia do bacharel em direito Manoel Rois Salgado, de Carvalhaes, filho de lavradores remediados da poetica região da Bairrada, liberal convicto, implacavel inimigo da intollerancia religiosa e das tyrannias politicas do tempo dos caceteiros de D. Miguel e dos Cabraes.
Era sua esposa uma senhora de origem e tradições legitimistas, D. Anna de Vasconcellos, que muito soffrera com a guerra dos dois irmãos!... Sua alma piedosa, delicada e poetica, sobreelevou a todos, e nos fez conhecer de perto, com quotidianos exemplos de bondade, a excellencia das doutrinas do Evangelho, quando postas em pratica, com fé e pureza de coração.
A familia de Manoel Maria da Silva Bruschy, d'esse grande moralista, philosopho e jurisconsulto que foi um dos luminares da Jurisprudencia patria e quem nos dirigiu os nossos primeiros passos na carreira forense.
Era elle um dos mais authorisados e prestigiosos representantes do legistimismo, e quem nos forneceu informações curiosas sobre muitos pontos obscuros da guerra civil, e sobre motivos secundarios, que contribuiram para o triumpho das armas liberaes.
Nas mesmas condições de saber, de coração e de espirito, mas n'uma ordem de ideias oppostas ás de Silva Bruschy, mencionaremos ainda o general Luiz Flippe Folque, conselheiro de estado, mestre que tinha sido dos reis extinctos D. Pedro V e D. Luiz I, e que foi quem acompanhou e dirigiu o primeiro d'estes dois monarchas na sua viagem d'instrucção e recreio pela Europa.
Era um perfeito homem d'estado, modesto, erudito e tolerante para com todas as opiniões. Devemos a seu genro o Conde de Nova Goa, nosso velho e dilecto amigo, a convivencia com este perfeito homem de sciencia, de cujas lições colhemos muitos elementos de ponderação para formarmos juizo imparcial e seguro sobre a historia dos partidos politicos em Portugal.
Resta-nos mencionar nosso sogro, o general de divisão, Roque Francisco Furtado de Mello, que foi juiz do Tribunal Superior de Guerra e Marinha, que se orgulhava de ter feito as novas campanhas da Liberdade, e sua sancta esposa D. Maria Maxima de Berredo, filha d'um dos regeneradores do movimento revolucionario de 1820.
Ambos tinham sido victimas das guerras civis desde o cerco do Porto e ambos soffreram, com suas familias, as mais crueis perseguições dos sequazes do absolutismo em Portugal.
Para inteiro esclarecimento, ainda diremos que alguns dos nossos parentes, tanto do lado paterno como do materno, eram legitimistas convictos, que se achavam destituidos das honras e benesses do antigo regimen, e que protestavam contra a nova ordem de coisas.
Tal foi o meio social em que nos achámos ao sahirmos do lar paterno.
A nossa posição singularmente favorecida n'este conflicto de interesses historicos, tendo tido a coragem de evolucionármos em nome da sciencia, e sob a influencia dos espiritos mais cultos da epocha, para o regimen da democracia pura, que melhor chamaremos do Direito Humano, inaugurado com a proclamação dos Direitos do Homem, em 1789; a excepcional ventura de conquistarmos para a sinceridade das nossas crenças a tolerancia dos nossos competidores, tudo isto concorreu para nos fortalecer no Ideal d'um novo Direito, d'uma Nova Justiça, d'uma Nova Moral, de que este livro é um modesto precursor no campo da poesia patria.
Não podiamos deixar por isso de o consagrar á memoria inolvidavel d'essas venerandas creaturas, quasi todas hoje extinctas... ás almas d'eleição que tanto fortaleceram as nossas creanças na bondade e na virtude humana.
Por outro lado pertencendo pela educação que demos a nós mesmos, destruindo pela base a que recebemos no berço, aos homens de genio e de fé, que espalharam pelo mundo os principios revolucionarios de 1789 e tentaram as primeiras applicações praticas aos problemas pendentes da humanidade, e genios em que havia poetas como Lamartine e Hugo, musicos como Beethoven e Ricardo Wagner, economistas como Bastiat, publicistas como Proudhon, historiadores como L. Blanc, philosophos da grandesa e originalidade de Quinet e Michelet, cujos ideaes de justiça e d'amor nos conquistaram e nos acompanharão até á morte: comprehende-se que em nome d'elles não ponhamos hoje a nossa fé e a nossa esperança sobre a regeneração do Mundo nas gerações actuaes, incredulas, scepticas, e devoradas pela febre do ouro e do goso!
N'este actual periodo historico, que é todo de negação, sem ideaes definidos, e cheio de convenções, de hypocrisias e mentiras, cujo estado pathologico foi magistralmente descripto por Max Nordau no seu livro celebre Les Mensonges conventionelles de notre civilisation, é natural que não encontrem echo estes nossos Cantos, nascidos d'uma grande fe no futuro da Humanidade!
São quasi todos uns modestos preludios, uns gorgeios ainda incertos, d'uma nova alvorada, e por isso os consagramos ás gerações que hão de ter a ventura de ver em plena claridade o dia de que apenas distinguimos os primeiros pronuncios nos horisontes do futuro e da patria.
O QUE EU VI
Paginas 1 e 2
Esta poesia é uma das quatro ou cinco d'esta collecção que já foram publicadas. Não podemos verificar n'este momento, por falta de tempo, em que jornal litterario e em que data o foi.
Pode dizer-se que é o prologo e a synthese de todo este livro de Cantos. Pode até mesmo servir d'explicação ao sentimento religioso que se accusa tão accentuadamente em quasi todos os nossos trabalhos poeticos.
Como d'ella se deprehende o Deus a quem nos referimos está completamente fóra dos moldes das religiões revelladas, dos ergastulos da fé dogmatica. É o Pae da Vida, a Fonte do Amor, o Deus da Natureza.
É como que o symbolo que personifica a Perfeição Absoluta; o Ideal do Universo; A causa primaria de todo o existente; O sol vinificador das consciencias e dos mundos.
É a Belleza, é o Amor, é a Justiça, a que tudo obedece, levados ao maximo grau d'intensidade que é dado á razão humana attingir n'um determinado cyclo historico, e que, como tal, illumina as consciencias, dirigindo-as!...
Para todo o coração terno, para toda a alma de artista, será sempre imprescindivel antepôr-se ao espectaculo magnificente e deslumbrador do Universo, á marcha triumphal da Luz e da Vida por toda a parte penetrando nos ultimos reconditos do mundo visivel e invisivel, e sem a interrupção d'um só instante na sequencia incalculavel dos seculos, tirando de lá as maravilhas da natureza, antepôr-se, dizemos, um mundo moral com as paginas infinitamente bellas das civilisações já extinctas; um mundo que synthetise todo o Ideal da Humanidade. E, n'esse Mundo Moral, Deus é o Ser por excellencia, a chave insubstituivel do multiplo e mysterioso Problema da Vida.
Nas insondaveis e invisiveis regiões da consciencia humana, o mundo exterior, que é o reflexo, a continuação, o complemento do mundo interior, encontra n'este, como outros tantos Ideaes da Perfeição Suprema, as Leis da Vida, que actuam imperturbaveis, omnipotentes e eternas.
Para este Mundo Moral, para este Mundo das Almas, Deus é pois a personificação d'essas leis e como tal o Ideal Supremo.
Não cremos possivel arrancar-se da natureza humana, deturpando-a, qualquer das suas forças immanentes, e no numero d'estas forças devemos suppôr a religiosidade, isto é, o sentimento de respeito por um Poder superior, causa primaria, ponto de partida, iniciação e justificação de todo o existente, de tudo quanto vêmos e sentimos.
E para nós uma utopia impraticavel, e nociva á solução dos actuaes problemas da humanidade, o querer-se substituir o Ideal vivo e amoroso de Deus pela synthese fria e inanimada da sciencia, assente exclusivamente em factos demonstraveis!...
Em primeiro logar as sciencias positivas, pondo fóra da sua esphera d'investigação, e muito bem, a Causa Primaria das cousas, não podem aspirar a resolver os problemas da consciencia e do coração, e a fazer calar as imperiosas interrogações da sua voz interior!...
Em segundo logar, todas as sciencias assentam, por ora, em meras conjecturas, em, aliás engenhosas e bem concebidas, hypotheses, que como taes em tempo algum poderão satisfazer a ancia infinita de nosso espirito em tudo devassar e saber, e ninguem nos pode affirmar que amanhã não sejam substituidas por novas hypotheses, melhor concebidas e expostas.
Em terceiro e ultimo logar, o povo e a mulher, isto é os obscuros, os simples, os que trabalham, os que soffrem e os que amam, que são quasi, por ora, a humanidade inteira, não poderiam suspender as reclamações do seu coração e do seu espirito, á espera que os sabios lhes desvendassem os segredos da natureza, e convertessem as suas verdades, chamadas irreductiveis, n'um Ideal Supremo, que, para todos os effeitos, substituisse a Idéa de Deus a que o christianismo deu uma feição tão amorosa na interpretação larga e fecunda d'um Pae Celeste.
Quem lucra com a guerra feita ao sentimento religioso, confundindo-o com o das religiões positivas, revelladas, são os reaccionarios catholicos e, para prova, é vêr o alastramento pavoroso que por todo o paiz se está operando nas classes ricas, e nas ultimas camadas sociaes, sahindo-se até hoje triumphantes os que, pelas leis vigentes, pelas tradicções historicas, e pelo futuro d'este paiz, não deveriam ter cá entrado!...
O que o sentimento religioso reclama é ser derivado para novos objectivos que mais directamente interessem e sirvam os soffrimentos humanos, a moral, a arte, o direito e a justiça, abandonando o sobrenaturalismo com todo o seu cortejo de phantasias, de aberrações e de absurdos.
No dia em que a Razão se pozer d'accordo com a Fé, o Amor com a Justiça, será facil á humanidade entrar na normalidade do seu distino, como factor poderoso que é, nos multiplos e interminaveis problemas do Universo.
Em harmonia com estas idéas, com o Ideal de Justiça que professamos, e de que este livro é um vehemente e sincero pregão, consagrando além d'isso á mulher e ao povo as nossas melhores esperanças na redempção do mundo: adoptámos para traduzirmos o nosso Ideal Supremo, esta palavra que tem a consagração dos seculos, as sympathias e a adhesão d'aquelles a quem principalmente visamos nos nossos Cantos.
Sirva esta nota de explicação ás poesias congeneres e complementares d'estas, Avé Creator pag. 37, e o Sursum Corda pag. 41 e outras.
TRISTEZA
Paginas 5 a 7.
Escrevemol'a n'uma manhã de primavera na tapada d'Ajuda, quando esta não era ainda frequentada pelo publico da capital.
N'aquelle recinto onde não entravam os rumores da grande cidade, na benefica e imperturbavel quietação dos campos, sob uma tonalidade de côres e de sombras d'uma variedade e doçura infinitas, havia n'essa manhã um grande movimento de vida na Natureza, muitos feixes de sol a distribuir e a combinar seus raios de ouro pelos troncos e a folhagem das arvores, pela verdura das relvas; muitos passaros cantando em redor dos ninhos; muitos insectos zumbindo em volta das flôres.
Só nós appareciamos no meio d'aquelle trecho encantador de vida universal, com a nossa alma envolta em sombras caliginosas e, sob este influxo, o coração a trasbordar-nos de tristezas!...
Estas derivavam d'erros proprios e alheios e faziamo-nos passar, ali, aos olhos da propria consciencia, como um desconcerto na Vida, como uma nodoa na creação!
Da alta comprehensão que temos da dignidade humana e do papel que o Homem e a Humanidade representam nos destinos do Universo, (V. as poesias Ao Homem e Á Mulher), resultou para nós uma philosophia e uma moral que são substancialmente imcompativeis com os desalentos e as tristezas, porque aliás tantas vezes os nossos dias teem sido assaltados!...
D'ahi o nosso appello para a Natureza onde tudo está no seu logar, não se desviando um apice da linha que lhe foi traçada, no augusto e sereno cumprimento das suas leis eternas e divinas.
Pedindo á natureza refugio e amparo para as nossas dôres, lição e exemplo para os nossos erros, n'aquelle dia memoravel entrou-nos n'alma, como um cortejo festivo de Deus, tudo quanto em volta de nós celebrava ali os mysterios da vida e irromperam nos dos labios então estas estrophes despretenciosas e taes quaes as publicamos hoje.
Pelo habito de as repetirmos longos annos, nos soliloquios com a nossa consciencia, não nos aventurámos a alterar-lhes uma só palavra, nem uma só virgula, e assim se explica que seja a unica poesia d'este livro com versos soltos, rimados apenas nos versos agudos.
PRESENTIMENTOS
Paginas 8 a 18
E como uma photographia instantanea do estado da nossa alma quando, finda a nossa carreira universitaria, tivemos de assentar arraiaes no positivismo das coisas para havermos os meios com que se mantem o que ha de mais imperioso: a existencia, e n'esta o que ha de mais sagrado: a honra.
Depois d'uma mocidade ruidosa, passada no convivio de livros dos mais celebres pensadores do seculo, e de talentos dos mais abalisados entre os lentes da Universidade, como Antonio de Carvalho, Silva Gayo, e Viegas; de rapazes cheios de ideaes e d'audacia, que mais tarde se haviam de tornar celebres nas letras, como Anthero do Quental, Theophilo Braga, Eça de Queiroz e Anselmo de Andrade, estes dois ultimos nossos condiscipulos; n'um periodo em que todos acreditavam na transformação completa do existente, para, abandonados de vez os velhos e caducos moldes do mundo medieval, entrar-se definitivamente na normalidade da vida que as sciencias dos ultimos seculos, e o direito de Revolução, nos garantiam: comprehende-se bem qual seria a nossa tristeza ao entestarmos com uma sociedade, mais que qualquer outra, decrepita, incredula, egoista e dissoluta!
Tinhamos já então feito a nossa primeira viagem á França, sob o imperio da mais desenfreada corrupção politica dos ultimos tempos, na restauração do Imperio por Napoleão le petit e causou-nos indignação o que abservámos de perto na cidade santa de Direito Moderno, sobre a qual tinham raiado os inolvidaveis dias de 1789 e que fôra o theatro das primeiras e gigantescas batalhas do Povo, em nome do Direito Humano, contra os thronos colligados em nome do Direito Divino!...
Estavamos nas vesperas da guerra Franco-Allemã que todos previam como inevitavel e de que resultou este tardio e indeciso movimento democratico, a cuja sombra a França não conseguio ainda emancipar-se completamente dos preconceitos e velharias do antigo direito!...
Regressámos á patria com a alma mais cortada de dôres de que quando d'ella partiramos!...
A nossa intervenção quotidiana na vida do Povo, pela profissão que exercemos, o conhecimento das suas multiplas e infinitas miserias, a sua falta de comprehensão e de energia em reivindicar os seus direitos e a defeza da sua causa; o egoismo desenfreado da burguezia triumphante com a sua lastimosa indifferença pelo futuro da Patria; a irremediavel cegueira da aristocracia portugueza em não se separar das formulas já hoje varias de sentido e exhaustas de forças, do Direito Divino, representado no throno e no altar, direito já morto nas consciencias pela força da razão e da logica, antes de o ser no campo da batalha pela força das armas: todo este conjuncto de circumstancias adversas, concorreu para nos entibiar a fé e a esperança na realisação dos nossos ideaes.
Ao vêrmos a Nacionalidade Portugueza ha tres seculos desviada do seu destino historico sem conseguir reatar as tradições perdidas, apesar dos violentos abalos da natureza e dos homens para levantal'a do atoleiro em que se deixou cahir--a libertação de Hespanha, o terremoto de Lisboa, as reformas do marquez de Pombal, de Fernandes Thomaz, de Mousinho da Silveira, de Passos Manuel e de tantos outros; apesar dos movimentos revolucionarios de 1820, 1834 e 1846: chegámos a descrer do futuro d'este povo illustre cujos destinos se acham indissoluvelmente unidos aos nossos!...
Foi debaixo d'esta ordem de ideias sombrias que concebemos e compozémos esta poesia.
Ella era então, como ainda o é hoje, a expressão fiel do nosso pensar e do nosso sentir, e, como a anterior, mantemol'a tal qual nos sahiu espontaneamente da laboração do nosso espirito contemplativo, e sonhador.
REVELLACÃO
Paginas 25 a 32
Foi escripta esta poesia n'uma sexta-feira de Paixão, na quinta dos Frades Cruzios, de Coimbra, junto ao grande lago que hoje ainda alli se vê, cercado d'um espesso e alto muro de verdura entretecido com os ramos de cedros já hoje seculares.
A cinta feita por elles em volta do lago tranquillo é tão compacta que junto das suas margens sentimo-nos por completo sequestrados do mundo exterior, e levados á contemplação do infinito do Ceu no finito da Terra!...
Tinhamos assistido durante tres dias consecutivos ás ceremonias commoventes da lithurgia catholica nas festas da Semana Santa, celebradas com pompa na Capella da Universidade.
Tinhamos ainda a alma combalida com os patheticos cantos do Miserere, de José Mauricio, e com as retumbantes orações dos levitas da Egreja, lançando do alto da sua cadeira sobre as multidões meio scepticas as suas palavras de desconforto e de desesperança sobre o destino humano, quando, fugindo a este meio deleterio e sombrio, appellámos para a Natureza, por ser esta aos nossos olhos a Biblia da Verdade e do Amor, escripta com palavras vivas e eternas, que não carecem das explicações dos concilios Ecumenicos, para serem os verdadeiros dogmas do nosso credo.
Alli, levantando o problema do destino humano na Terra, encontrámos palavras d'Amor e de Justiça que suppozemos dignas de consignarmos nos nossos versos, destinados a servir, nos nossos despertenciosos e apoucados recursos, a causa da Humanidade.
Este Canto pela sua structura e motivo fazia parte do Livro segundo, mas transpozemol o para aqui por conter a ideia inicial da philosophia que presidiu a quasi todos os outros.
AVE CREATOR
Paginas 37 a 40
Esta poesia foi escripta n'um bello dia de sol, no cimo d'uma montanha, em face d'um largo horisonte, na quinta da Beselga, que é proxima aos memoraveis campos d'Asseiceira, onde se feriu a ultima batalha a favor das armas liberaes. Pertence esta quinta a um dos nossos mais dilectos e dedicados amigos, o Conde de Nova Gôa.
N'esta e na dos Carvalhaes, que fica n'um dos extremos da poetica Bairrada, e não longe do sagrado e querido Bussaco, e a que nos referiremos na poesia Á Terra, foi onde se passou o periodo da nossa maior actividade litteraria.
O nosso remanso n'aquella quinta tranquilla e poetica, e a convivencia com senhoras da mais selecta sociedade de Lisboa, que alli iam passar parte do anno, muito concorreram para alguma das nossas mais vibrateis e sentidas composições poeticas.
Esta é uma das que nos sahiram mais espontaneas e que melhor traduzem as emoções da nossa alma perante o grande espectaculo do mundo, alumiado pelo Sol e vivificado pelo Amor!
AO HOMEM--Á MULHER
Paginas 57 a 65
O pensamento que inspirou estas duas poesias é como que uma synthese da philosophia moderna, a base indestructivel d'uma nova Moral, a pedra angular sobre que deverá levantar se o templo da futura religião da Humanidade.
É o Homem, da grande altura a que chegou a civilisação, á intensa luz de factos demonstraveis e irreductiveis, e depois de longos seculos de desalento e decrepitude, a readquirir a confiança em si, nas leis da Vida, nas forças da Natureza, de que se vae apossando a pouco e pouco, na sua missão no mundo, na integração dos seus destinos no Universo.
É o reprobo da Religião semita, o expulso do Paraiso por decreto de Jehovah, convertido no filho dilecto da Natureza e de Deus, no prescrutador dos seus segredos e dos seus processos, e que hoje, senhor do plano geral da creação, armado de recursos infinitos, esclarecido com os fachos inapagaveis das sciencias e das artes, dispondo de thesouros infinitos: assenta definitiva e resolutamente os seus arraiaes no planeta que lhe foi dado para theatro da sua ideia, no paraiso dos seus primitivos sonhos, no pantheon de sua gloria, no templo da sua nova fé.
É pois o homem que se levanta, do pó da terra, da cinza do seu nada que lhe fôra imposto como labaro da vida, para se constituir no augusto executor da obra divina, n'um dos cooperadores conscientes dos Problemas do Universo.
É o batalhador incansavel, o Hercules da Civilisação que, depois de ter expurgado a Terra dos seus elementos maus para d'ella tomar posse, pretende agora, com os fachos da Razão e do Amor, expulsar do seu espirito os espectros das religiões revelladas, as lendas da sua meninice, e tornar-se o sabio, o forte, o luctador por excellencia.
Depois de ter conquistado o mundo pela Força e pela Razão, pretende agora redemil'o pelo Amor e pela Justiça.
Para esta missão incruenta depõe aos pés da mulher não só o seu destino, como por instincto o fizera até hoje, mas o da propria especie, porque foi d'ella que Deus confiou a renovação da Vida pelo Amor e a incumbiu de nos dulcificar a existencia com os actractivos proprios do seu sexo e os encantos que derivam da sua belleza e da sua graça.
A piedade que de ha seculos trabalha o coração humano, e que d'elle irrompe como um arroio crystalino, vindo ora da India com as doutrinas de Boudha, o christo do Oriente, ora da Palestina com os sonhos de Isaias, e os evangelhos de Jesus; agora da Grecia com o espiritualismo de Platão e de Socrates; logo apoz de Roma com as maximas e exemplos de Marco Aurelio; mais tarde sob o Ideal de Christo, da França com o rei S. Luiz e S. Francisco de Salles; da Hespanha, com Santa Thereza; de Portugal, com Frei Bartholomeu dos Martyres e tantos outros: tornou-se por fim a corrente caudal do Direito Moderno que já em 1789 nos sorria sob o lemma da Liberdade, Egualdade e Fraternidade, e que, pela solidaridade das raças e dos Povos, e pela sua mutua e indistructivel dependencia, será a chave da todo o Problema Humano, no novo cyclo para onde as leis historicas nos encaminham.
Como se vê a Religião e a Moral mudam apenas do objectivo e de processo.
O Ideal, isto é o Bem Supremo, desloca-se das bandas do Passado para os horisontes do Futuro, e deixa dormir sepulto nas sombras o que já foi, e sob a condemnação d'um decreto divino, para nos apparecer, como a columna de fogo aos olhos dos Hebreus, á frente dos individuos, das nações e dos povos e encaminhal'os á Terra da Promissão!
Por este novo objectivo a historia da civilisação, d'harmonia com as leis do Universo, seguirá n'uma marcha não regressiva para o Passado, como o pretendiam as religiões revelladas, mas progressiva em demanda do Ideal sonhado, Ideal que muito ao longe nos fascina como um foco de luz intensa e impenetravel, que nos cega, e além da qual só ha o Absoluto--Deus.--
O homem por este novo credo deixa de ser o degredado filho d'Eva para se constituir no artifice divino, no triumphador por excellencia! Converte a propria historia, escripta com sangue e com lagrimas, na Biblia unica authentica e verdadeira; no melhor estimulo da sua fé; na melhor glorificação do seu Deus.
Para que o par humano se não estonteie, porém, com a propria gloria, e não se proclame egual ou superior a Deus, como nos tempos do paganismo: collocamos sobre a sua cabeça uma Entidade que a elle em tudo o sobreleva, que, intangivel aos seus desvarios e erros, por elle vela e sobre elle estende a todo instante a sua acção protectora, a Virgem mãe dos povos--a Humanidade!
Não é ella nascida da phantasia dos homens, mas surge real e verdadeira, em plena luz e cheia de gloria, das emmaranhadas e mysteriosas paginas da Historia! A seus pés depomos, desprendendo-os das cordas da nossa lyra, os primeiros trenos d'amor como um timido e passageiro ensaio, na poesia que lhe consagramos de pag. 74 a 77.
Poderão os defensores das religiões positivas, feridos nos seus interesses, alcunhar-nos de hereges e cobrir-nos de injurias; mas o que jámais conseguirão é provar-nos que o homem, que tirar dos seus proprios triumphos a glorificação do seu Deus, não se engrandeça a si e ao Creador, e não se torne por isso digno do espectaculo da natureza, onde surgiu como um dos cooperadores conscientes dos problemas da vida!
A despeito das malidicencias d'uns, das ironias e satyras doutros, temos fé que estes Cantos hão de encontrar sympathia e acolhimento nas almas simples e boas, a quem os consagramos, e é quanto nos basta.
Á HUMANIDADE
Paginas 74 a 77
Este Canto é como que uma antiphona, embora ainda indecisa e pallida, em louvor d'aquella Divindade invisivel que, ao cabo d'infindos seculos, e a despeito dos antogonismos e odios que as religiões e a politica semeavam, soube conduzir os Povos, por mil meandos e caminhos oppostos, á conciliação e a Paz universal, que já hoje se desenha como o ideal do seu futuro viver!
Esta solidariedade em que todos elles se encontram perante a solução d'um Problema commum, é uma das Verdades fundamentaes que já desceram das regiões da utopia e dos sonhos para o imperio dos factos.
O prestigio da sua causa e a rapidez dos seus triumphos são taes que tem feito em meia duzia de lustros o que todas as religiões do Passado não conseguiram n'uma serie interminavel de seculos!
A sua acção avassaladora attinge as culminancias dos mais altos poderes constituidos! Até incita o proprio auctocrata de todas as Russias a propor ás mais nações do mundo o desarmamento geral, ou pelo menos a reducção d'essas forças terriveis, a proporções que não contrariem os interesses dos Povos, a causa do Direito, e os principios do Justo!...
Pode até dizer-se que os mais celebres capitães, Alexandre, Julio Cesar e Napoleão, sem o pensarem e sem o quererem, se tornaram os mais poderosos semeadores d'este Ideal da Justiça Moderna![1]
Até ás proprias forças da Natureza, no uso que o homem d'ellas está fazendo abrindo canaes, levantando pontes, estendendo em todas as direcções dos quatro pontos cardeaes do globo uma rede infinita de telegraphos e d'estradas, até ellas estão conspirando para o triumpho do novo direito!...
A sua acção omnipotente, embora indirecta, accusa-se todos os dias na vida intestina dos povos, nos seus interesses os mais materiaes; na organisação das poderosas companhias transantlanticas, a vapor; na celebração dos tratados de commercio entre todos os povos do globo; na publicação de revistas scientificas; na realisação de conferencias e de exposições internacionaes, onde em tudo prodomina o espirito cosmopolita e universal dos tempos modernos!
É um levantamento das almas a que é preciso levar um Ideal espiritualista, um objectivo religioso, um culto emfim para que se apposse das multidões e se converta nos preceitos d'uma moral pratica, no Labaro d'uma religião universal.
Por elle um povo illustre derramou já o mais generoso do seu sangue afim de conquistar para o mundo dos factos, com o proprio sacrificio, a formula juridica d'este novo Direito; e, a despeito da guerra desapiedada dos representantes do velho regimen, a sua doutrina penetrou em breve no espirito de todos os codigos!
Se estas conquistas extraordinarias, chamar-lhes-hemos assombrosas, de Civilisação Moderna se alcançaram sem o concurso das religiões positivas, que lhes foram adversas, sem o proposito dos imperantes e dos politicos, poder-se-ha calcular: que transformação profunda e rapida nos destinos do universo se não vae operar, quando aquella Mãe que preside á sorte dos povos, e que tem estado até hoje degredada nas regiões abstractas do pensamento, tomando uma forma visivel e humana, se constituir na soberana por excellencia, na protectora dos fracos, na redemptora dos opprimidos, na consoladora dos que choram, na fé e esperança dos que sonham, na mensageira em fim do Creador que, tanto quanto é permittido ás forças humanas, converterá em realidades as promessas de Jesus no sermão divino da Montanha!
É prevendo o culto que mais tarde as mulheres, os sabios e os justos lhe hão de prestar, que esboçamos este cantico religioso.
Para que esta aspiração se converta na religião do Futuro basta que a Mãe de Jesus, esta creação poetica e encantadora do symbolismo catholico, avocando a si a realidade da historia, e entrando nos usos e costumes dos povos: synthetise o espirito de novos tempos e se torne a fiel depositaria do pensamento do Creador na Terra, a mensageira da Verdade, a distribuidora da Justiça e do Amor, a Virgem Mãe dos Povos.
Então todas as antiphonas e canticos que a Egreja hoje faz entoar em honra da Mãe de Jesus, serão poucos para a glorificarmos!...
[1] Laurent nos seus estudos sobre a Historia da Humanidade demonstra á saciedade quanto estes e outros heroes foram meros instrumentos d'uma causa superior, a vontade de Deus, em tudo o que fizeram.
AO NOVO CYCLO HISTORICO--NOVA LUZ! NOVO IDEAL!
Paginas 78 a 90
Estas duas poesias são o desdobramento, a synthetisação dos Cantos consagrados á Paz dos Povos, ao Homem e á Mulher, vendo n'estes os principaes factores da civilisação, e á Humanidade, como typo ideal da Verdade e da Belleza, na realisação progressiva do destino Humano.
Enviamos o leitor para o que expozémos nas respectivas notas, porque ali lhe será facil descortinar o systema de philosophia que se converteu para nós nos preceitos de uma moral substancialmente humana, verdadeira e pratica; a que se reduz no fim de contas toda a religião do futuro.
APELLO SUPREMO--REFUGIO ULTIMO
Paginas 91 a 97
Estas duas poesias são o complemento da que publicámos a pag. 8 sob a denominação Presentimentos. Foram escriptas no mesmo periodo, quatro annos antes de constituirmos familia, isto é, de entrarmos na pratica obscura e quotidiana do verdadeiro altruismo, principio moral em que assenta a familia, a primeira e a mais sagrada das nossas instituições, e que é a base da religião e da philosophia.
Carecem ambas pelo seu ardente mysticismo, ou melhor diremos pelo seu exagerado lyrismo, repassado de desalento e dôr, da correcção que o conhecimento das leis da vida e as licções de historia nos trouxeram com o andar dos tempos e que, sob o mesmo espirito religioso, traduzimos nos Cantos á Humanidade, á Mulher, ao--Homem, aos Filhos e designadamente nos dois canticos anteriores ao Novo Cyclo Historico, Nova Luz! Novo Ideal!
A confiança nas Grandes Leis da Vida e da Historia, na Natureza e na Humanidade, deu-nos forças e animo para as luctas em que nos temos visto assediados toda a vida, resignação e paciencia na adversidade, fé inabalavel na regeneração do Mundo pela sciencia, pela justiça e pelo amor, quando se entrar definitivamente, sem peias, sem ficções, e sem mentiras, no imperio da Verdade, no regimen da liberdade absoluta!...
Este appello Supremo para Deus onde, ao cabo de tantos desenganos e dissabores, esperamos encontar o nosso refugio ultimo, não significa outra coisa.
Os sonhos de justiça que, desde Jesus, nos transmittiram as gerações transactas, para lhes darmos cumprimento, hão-de encontral'o nas gerações futuras que, por seu turno, legarão aos seus legitimos herdeiros, novos ideaes e com estes novas esperanças!
Esta é que é a verdadeira glorificação de Deus na Humanidade pela revellação continua e progressiva da Historia!...
Sob este ponto de vista, poder-se-hia dizer que estas duas ultimas poesias não são já a expressão verdadeira do nosso actual modo de pensar e sentir.
AO SOL
Paginas 108 a 111
Escrevemol'a debaixo das impressões dos cantos sagrados da India, no Rig Veda e sob a alta concepção que Renan fazia de Deus e do Sol quando affirmava que antes da Humanidade attingir aquella unidade e synthese suprema das almas, só o Sol tinha tido direito á adoração e culto dos Povos.
Sentimos a seu respeito, por intuição, o que mais tarde a sciencia nos revellou em obras memoraveis como o são alguns dos trabalhos de Flamarion sobre astronomia e designadamente o prodigioso e fascinante livro de Buchner La Lumière et Vie, que nos revellou com uma pujança de saber e de logica inexcedivel, e uma linguagem colorida e vigorosa incomparavel, as incalculaveis maravilhas da natureza que anteviamos com olhos apenas d'um poeta enamorado.
Se escrevessemos este Canto depois da leitura d'estes livros, a nossa linguagem teria sido de certo mais vibratil e as imagens de que nos serviriamos mais vivas e mais bellas.
A idéa fundamental da sua concepção teria ficado, porém, a mesma; a mesma, a nossa admiração, o nosso culto por esse glorioso vivificador dos mundos; por esse prodigioso distribuidor da luz, que, a ter de desapparecer do espectaculo das coisas visiveis, como lh'o prophetisam os seus admiradores e chronistas, o não faria sem deixar atraz de si, n'uma serie ininterrupta de seculos, a mais oppulenta das heranças, a mais genuina glorificação do heroe Bemfeitor por excellencia!
Aos olhos dos outros astros, seus competidores, sob a cupula infinita dos ceus, morreria destituido da sua antiga grandeza, para dar vida e continuação a novos mundos, como Jesus, no Calvario, pregado na cruz, deu a sua alma aos povos para redimil-os!...
Esta poesia, a instancias de Anthero do Quental, foi publicada por Guilherme de Azevedo e por isso pouco ou nada alterámos da fórma que primitivamente lhe démos.
Á ARVORE
Paginas 127 a 131
Foi escripta na epocha em que costumavamos passar parte do verão em companhia do Dr. Antonio da Silva Gayo, no Bussaco, n'esta montanha a que nos prendiam tão gratas recordações da nossa vida universitaria!...
Ali fomos como cultores do Bello e do Justo em perigrinação sagrada muitas e muitas vezes, umas em companhia d'amigos como Anthero do Quental, José Julio Rodrigues, Philomeno da Camara, e outras vezes, e estas em maior numero, sosinhos, fazendo a pé todo o longo percurso desde Coimbra, mas encontrando larga e generosa compensação nas suas sombras impenetraveis e profundas, na sua solidão e paz absolutas, tão propicias á contemplação e ao estudo!
Antes do caminho de ferro do Norte, que o pôz em communicação facil com o resto do Paiz, o Bussaco viveu longos annos, e para o bem d'elle, quasi completamente esquecido dos homens.
Só almas d'eleição, pouco conformadas com a realidade das coisas, só um ou outro amante da Natureza, iam ali de vez em quando procurar na sua quietação e silencio, tão cheios de mysterios e tradicções de mysticismo christão, eloquentes lições sobre os problemas da vida, sobre os multiplos e complicados destinos do coração e da consciencia, postos no mundo ante esta interminavel e ininterrupta sequencia--de luz e de sombra--de dias e de noites de prazeres e de dôres, de sonhos e desenganos!
Talvez mais do que ninguem, n'estes tempos de gosos faceis e interesses materiaes, nós fomos d'este pequeno numero.
A nossa paixão pela Montanha levou-nos a convencer o santo padre Mauricio a viver ali comnosco, pouco depois da nossa formatura, abandonando a sua modesta habitação em Luso, nos mezes de Novembro e Dezembro.
Ali estivemos entretidos os dois, elle de dia com os trabalhos já então iniciados, com o nosso protesto, por Moraes Soares, de noite com as suas candidas e piedosas orações; nós com os nossos livros dilectos, com os nossos passeios solitarios e lucubrações litterarias. Um viver simples, sobrio e puro, de que ainda hoje guardamos vivissimas saudades!
Mais tarde pelos melhoramentos e pequenas casas de habitação mandadas ali construir, o Bussaco attrahiu de Coimbra e seus arredores, de Lisboa e Porto, e até das Ilhas dos Açores, algumas familias distinctas, no numoro das quaes quaes sobrelevava a todas a de Silva Gayo.
Foi este pela vivacidade e graça de seu espirito brilhante, pelo encanto incomparavel da sua palavra facil, d'artista e de sabio, e sua esposa pela gentileza singular do seu porte, pela bondade e abnegação nunca desmentidas para com todos, foram elles que mais concorreram a chamar ao Bussaco uma concorrencia selecta e a tornar inolvidaveis os dias ali passados.
Foi ali que Silva Gayo escreveu e retocou algumas das paginas mais commoventes do seu Mario, de Frei Caetano Brandão e da Magdalena. Foi ali tambem que compozémos algumas das nossas poesias mais repassadas do pantheismo espiritualista que em todas mais ou menos se nota.
Foi á sombra d'aquelles arvoredos adoraveis, e sob estas beneficas influencias de arte, que se crearam, n'uma incansavel e vibrante alegria, os dois filhos de Gayo e de D. Emilia Paredes, Manuel da Silva Gayo e Mario Gayo, os quaes mais tarde se haviam de distinguir como dois talentos comprovados, um na poesia, outro na musica!
Foi ali que mais tarde succumbiu, victima d'uma tysica de larynge, aquelle formoso espirito que foi gloria das sciencias e lettras patrias, cercado dos solicitos carinhos de sua incomparavel esposa, das lagrimas silenciosas e amargas do bom padre Mauricio e das nossas.
Foi d'ali, ai de nós, noite memoravel e terrivel! que tivemos d'acompanhar sósinhos os seus restos mortaes até ao cemiterio da Conchada em Coimbra, onde pouco depois do romper da manhã, alguns dos seus collegas, admiradores e amigos, avisados do seu enterro, vieram comnosco prestar-lhe as ultimas homenagens dos vivos!...
Voltemos aos dias felizes em que Silva Gayo ainda abrigava a esperança de debellar o mal que o vinha minando, apesar de pairar ás vezes como uma sombra sinistra no seu lucido espirito, a idéa d'um desenlace fatal!! Foi então que escrevemos este Canto, á Arvore.
Estavamos installados na capella de Santa Thereza, a cuja entrada se levanta um d'aquelles cedros collossaes e magestosos do Bussaco, que são o privilegio e o orgulho d'esta floresta, a mais opulenta e formosa de quantas conhecemos dentro e fóra do paiz.
Foi ali, tendo em frente dos nossos olhos aquelle gigante secular dos bosques, que compozémos esta poesia onde o leitor encontrará a expressão mais genuina do nosso amor pela estabilidade das forças da Natureza, representada no que ellas teem de mais bello e nobre, a arvore.
Á TERRA
Paginas 132 a 139
De todos os nossos trabalhos litterarios é este o que nos mereceu maior solicitude e carinho para deixarmos por nossa morte um testemunho do muito que amámos a Natureza e dos impagaveis beneficios que d'ella em toda a nossa vida recebemos.
Sobre a sua influencia na formação dos caracteres escrevemos um poemeto denominado Passeio ao Campo e que faz parte do quarto livro das Irradiações, No Lar.
Concebemos e composémos esta poesia n'aquella aldeia obscura de Carvalhaes, a que nos referimos na nota primeira.
Quizémos propositadamente que assim fosse, porque depois dos jardins e da quinta da nossa casa do Arco, na Ilha do Fayal, onde nascemos e brincámos e das pedras vulcanicas e negras da Aldeia do Guindaste, na Ilha do Pico, onde, em plena liberdade dos campos, em convivio intimo com a Natureza, perante o espectaculo do mar e d'um sem numero de pequenos vulcões extinctos passámos os mais deleitosos dias da meninice, pedras negras que ainda hoje, pelas recordações que encerram, nos sorriem mais bellas e fulgentes que os brilhantes, nenhuma terra amámos tanto como esta aldeia poetica de Carvalhaes.
Foi alli que á sombra de pequenos bosques, de altos e extensos pinheiraes, balsamicos e sonorosos, de frescos relvados e de alamos e carvalhos frondosos, no adro da capella da Senhora das Neves, que lhe fica proxima, foi ali que lendo os nossos poetas mais dilectos, Virgilio, Camões, João de Deus e Victor Hugo, tomámos verdadeiro amor pelo rythimo e harmonia do verso, e abandonamos para os assumptos d'arte a prosa, onde fizemos os nossos primeiros ensaios, sendo ainda creança, tomando então por modelo a Byron, dos poetas da nossa meninice o mais festejado e glorioso.
Foi n'esses arredores deliciosos da Bairrada e do Bussaco onde longos annos armazenámos inconscientemente em companhia do nosso chorado condiscipulo José Augusto Salgado, no nosso mundo interior a poesia que annos mais tarde, em 1867, nos irrompeu espontanea da alma, quando as saudades de Coimbra e da nossa vida academica nos subjugaram a ponto de abandonarmos interesses já creados e estabelecermo-nos de novo na Luza Athenas!... Foi então que tomamos o grau de licenciado em Direito na esperança de fazermos parte do corpo docente da Universidade, mas d'onde tivemos de sahir, pouco depois do nosso casamento, para n'um meio mais amplo angariarmos os escassos recursos d'uma vida honesta.
Esta poesia, desejando nós que fosse de todas a mais perfeita, é no entanto a que hoje aos nossos olhos tem maiores defeitos, sendo um d'elles a sua extensão.
Preferiamos deixal-a nas proporções das outras, suas congeneres e irmãs, mas já agora, assim imperfeita, ficará sendo o depoimento mais vehemente e sincero do muito que quizémos á Terra, nossa mãe, ao Amor, á Luz e á Vida!
Á falta d'heroes a quem consagrassemos os nossos Cantos, preferimos as Forças e as maravilhas da Natureza, que sendo obras de Deus, são por isso eternamente grandes e bellas para se constituirem na fonte pura e inexgotavel do Ideal.
Foi Esta a divindade em cujo altar depozemos a alma e a vida, e quem em troca nos deu a pureza de coração e valentia d'animo para luctarmos contra a adversidade e salvarmos no meio da nossa pobreza os thesouros da nossa Fé.
AOS ASTROS
Paginas 140 a 143
Reservámos para o final d'este livro de canticos religiosos a poesia Aos Astros, porque podemos dizer com toda a Justiça, imitando David, que os Ceus proclamam a Gloria de Deus!
A Luz no mundo das coisas visiveis e o Pensamento no mundo invisivel das almas, são os dois principaes factores do movimento e da Vida no Universo e na historia.
Ambos concorrem para a solução d'um problema commum.
Dovorciados até hoje pelas religiões positivas, productos da ignorancia inevitavel dos povos primitivos, tendem a fundir-se n'uma Unidade Suprema, para a qual convergem todas as forças vivas da Natureza, as revellações da Historia e as descobertas scientificas dos ultimos tempos!
O que poderão estes dois eternos agentes da Verdade na solução dos destinos dos povos, já o podemos antever pelas grandes e luminosas syntheses historicas a que hoje attinge todo o espirito culto ao contemplar, como nós o fizemos, os despojos das civilisações extinctas que se archivam nos grandes museus--no British Museum, em Londres; no Louvre, em Paris; nas gallerias de Pit, em Florença; nas do Vaticano, em Roma; e ao vermos reunidas as maravilhas da arte e industrias modernas nos certamens internacionaes das grandes exposições!...
Pelo que já temos até agora conquistado com o poder creador da nossa Idéa e com o auxilio que nos prestam as forças inexgotaveis da Natureza, o que é já hoje authentico, real e verdadeiro: o homem não tem motivos para desesperar do termo da sua jornada no percurso indefinido e infinito dos tempos, e sentar-se á margem do caminho, e no meio d'este, a chorar como Jeremias, ou a apostrophar como Job a Justiça Eterna pela ingratidão dos homens e pela dureza dos fados! O homem nem deve considerar-se já hoje um revoltado contra Deus e por este punido, ora, segundo o genio semitico, com a expulsão de Adão e Eva do Paraizo, ora, segundo o espirito Helenico, com o aguilhoamento de Prometheu nas montanhas do Caucaso e o despedaçamento das suas carnes pelos bicos e as garras dos abutres!
Pela mais exacta comprehensão das leis do Universo e da Historia, o homem tende a tirar da antithese do Mal e do Bem, cujo antagonismo permanente, em perpetua lucta, constitue todo o Mysterio do Passado, a Synthese Suprema chamada Verdade e que adoramos sob o nome de Deus.
Perante esta luz, de intensissimo fulgôr e de alcance infinito, as paginas da historia escripta pelo homem, são apenas por ora uma gloriosa introducção aos fastos da Humanidade que os seculos futuros completarão, e cuja sequencia só póde denunciar-se nas visões e nos sonhos dos Poetas e dos Philosophos!
Na prespectiva da morte, quando para nós se quebram os vinculos da Vida e se fecham para sempre as paginas da historia, apraz-nos abrir o Livro que já está escripto, o Livro da Vida Eterna--os Ceus--e consagrar-lhes este Canto, que escripto ha vinte e sete annos atraz, é ainda hoje a traducção fiel do nosso pensar e do nosso sentir.
Não desdenhariamos de que sobre a nossa sepultura fossem escriptas as tres ultimas quadras d'este Canto, porque n'ellas resumimos toda a fé que trazemos no coração.
Lisboa, 29 de março de 1899.